quarta-feira, 27 de abril de 2011

É UM TRAPACEIRO! “Quem trapaceia, será trapaceado” ( Gn 26, 34 – 27, 46)



A perícope de Gn 27, segundo Westermann, é determinante para o ciclo de Jacó-Esaú (25-36). Essa parte é tratada pelo professor Milton Schwantes como um novo livro, um seper/sefer. É um texto longo e está envolvido numa rede complexa e compósita de narrativas, vazadas por diversos gêneros, tornado a sua leitura ainda mais difícil. A primeira vista, parece, como entenderam as escolas de Welhausenn e Gunkel (WESTERMANN, 1985: 50), ser um aglomerado de sagas, pois as emendas dos textos são facilmente identificadas (como 26, 34-35 e 27,46 em relação aos capítulos 26,27 e 28). Contudo, Westermann não concorda em aplicar esse conceito de "sagas" às histórias dos patriarcas por questões de estrutura e linguagem, e por acabar deixando de lado detalhes esclarecedores e minúcias do texto. Nesse sentido, as mesmas supostas emendas servem, na leitura que faremos, como indicadores do projeto redacional.

Adrien Janis Bledstein lê o capítulo 27 tendo como eixo a questão da trapaça (BLEDESTEIN, 2000: 308). Se ela estiver certa, o capítulo 26, que segundo Milton Schwantes está fora de lugar, teria muito sentido em estar onde está. Como se no jogo redacional, os eventos e as tradições ao mesmo tempo em que são reelaborados, também formassem um discurso no qual a trapaça acaba voltando-se contra o trapaceiro. Assim, no capítulo 26 Isaque é apresentado como “arquetrapaceiro” (BLEDESTEIN, 2000: 309), que engana para sua preservação e logo depois, no cap. 27, é enganado.

A proposta será a analise do movimento do texto e suas táticas redacionais, para perguntarmos por sua unidade e organização em camadas com o interesse de compreendermos seu conteúdo, com o objetivo de entendermos as estratégias expostas em Gn 27 dentro do ciclo de Jacó-Esaú.

Um Longo Texto!

A perícope começa em 26, 34, pois serve como uma espécie de introdução, ou melhor, uma amarra para retomar o assunto dos irmãos Jacó e Esaú, deixado de lado em 26, 1-33. O capítulo 25 termina com Esaú crescido, por isso no 26, 34 ele está com quarenta anos, servindo assim de “leve” retomada de interesse. O capítulo 25 antecipa a preferência dos pais em relação a cada filho, que se mostrará de forma prática no capítulo 27: Isaque prefere Esaú, enquato Rebeca a Jacó (25,28).

Sua narrativa é coesa e cheia de detalhes importantes que não podem passar despercebidos, pois denunciam o seu gênero e sua lógica narrativa. O grande bloco termina nos versos 44- 45, nos quais Rebeca manda Jacó fugir para Harã, até que o chame novamente (v. 45). O verso 46 aparece a insatisfação de Rebeca, aparentemente uma emenda para o capítulo 28, no qual Isaque envia Jacó para Padã-Harã. O interessante é que no capítulo anterior quem recomenda sua ida é a própria Rebeca e não Isaque.

A primeira emenda, além de servir como ponte para o capítulo 27, também serve para condenar a ação de Esaú. Na outra emenda, o conteúdo da acusação feita a Esaú é motivo de insatisfação para Rebeca. Desta forma, 26,34-35 e 27,46 são eixos de perícopes. Contudo, esses eixos não são ingênuos, pois tentam denegrir a imagem de Esaú, pois se lermos o capítulo 27, por exemplo, não conseguiremos acusar Esaú de nada.

O texto tem uma essência dual (WESTERMANN, 1985:435): Isaque – Esaú, Rebeca – Jacó, Jacó – Isaque, Esaú – Isaque e Rebeca – Isaque. Mostrando certa ordem esquemática que serve para apresentar o enredo da história. O básico da narrativa é bem parecido com Gn 48, 8-16: uma ação de abençoar culmina no pronunciamento que determina o todo de cada episódio individual (WESTERMANN, 1985: 436).

O texto pode ser dividido em três grandes blocos, cercados por 26, 34-35 e 27,46. No primeiro (1-29), Isaque demonstra seu desejo de abençoar seu primogênito, mas uma manobra muda o curso da história. O mesmo bloco se subdivide em duas seções: 1-17 e 18-29. A primeira seria a preparação para benção e a manobra de Rebeca e Jacó. A segunda seria a execução da manobra, que culmina na benção dada a Jacó.

No segundo grande bloco temos os versos 30-40, que inicia com a saída de sena de Jacó, para a volta de Esaú (v. 30). A cena é muito rápida, parece que os dois estão prestes a se encontrar, mas isso não acontece. Esaú tem um dramático diálogo com Isaque. Neste bloco, podemos perceber a subdivisão: 27, 30-36a: Esaú percebe que é enganado e denuncia Jacó; 27, 36b-40: Esaú também requer de Isaque uma benção, culminando na sua benção.

No terceiro bloco estão os versos 41-45, os quais começam com a nutrição de ódio de Esaú por Jacó. Rebeca ouve e recomenda a fuga de Jacó. Esta última parte serve como conclusão da narrativa. Contudo, ela é reaberta com o verso 46 – voltando para o problema de 26,34-35 –, para fechar a história anterior e abrir a outra. Jacó foge ao ouvir a recomendação de sua mãe? Temos uma conclusão aberta. O verso 46 é ligado ao capítulo 28, dando-nos a resposta: Sim, mas não por causa do ódio de Esaú, mas por razão dos casamentos mistos.

O esquema é o seguinte:

[26,34-35] – eixo A

27, 1-29 – O desejo de abençoar Esaú.
    1-17 (preparação para benção)
    18-29 (manobra e benção a Jacó)

27, 30-40 – A benção de Esaú.
     30 -36b (denúncia do golpe)
     36c – 40 (benção de Esaú)

27, 41-45 – Fuga de Jacó (conclusão da história).
      41- 42 (aviso de Rebeca)
      43-45 (recomendação para fuga).

[27,46] – eixo A’

Zombação Feminina?

Como citei acima, os textos de Gêneses, como entende Westermann, não são simplesmente aglomerados de sagas. Até mesmo o conceito de saga é algo muito complicado para se utilizar na Bíblia Hebraica. O mesmo autor acha ser o texto uma típica narrativa de família. Contudo, Adrien Janis Bledstein chama essa narrativa de “conto de trapaceiro” (BLEDESTEIN, 1985: 309). Eu, talvez, retiraria a expressão conto, pois geraria outros problemas, para deixar simplesmente “narrativa de trapaceiro” . Esse tipo de gênero literário seria comum no Oriente próximo (Mesopotâmia, Egito etc.), no qual deuses e deusas usam a trapaças para alcançar seus objetivos. Por exemplo, no episódio de Horus e Set a trapaça determinou quem seria o rei dos deuses egípcios. A diferença é que nas narrativas hebraicas os próprios homens seriam os trapaceiros.

Desta forma, o texto possui uma tradição antiga, mas que foi reelaborada posteriormente para manchar a imagem de Esaú. Se Adrien Janis Bledstein estiver certa, sua origem é muito interessante, pois seria de tradição feminina; não que mulheres sejam autoras, como bem explicou Goitein, mas criadoras de gêneros, posteriormente reelaborados. Bledstein acredita que existam temas e estilos que mostram tradições femininas (por mulheres contadoras de história): mulheres são valorizadas e mostra-se o poder vulnerável do homem. Segundo S. D. Goitein, uma característica da história de mulher é ter repetições dupla e tripla, como ele encontrou em tradições iemitas [1]. Ele ainda diz que a mulher iemita , a despeito de sua posição social baixa e limitada, expressava, em sua poesia, a opinião pública sobre os eventos do dia a dia. E essas poesias são críticas humorísticas com teor de zombaria. Bledstein chega a falar da presença de produção feminina nos cap. 24-28 (não sei se isso pode ser afirmado, mas seus pressupostos metodológicos podem nos ajudar). O Interessante está no fato de Gunkel, já em 1910, ao comentar os discursos repetitivos de Gêneses 37-50 caracterizou-os como “efeminados” ou “sentimentais” (BLEDESTEIN, 1985: 319). Como vemos, como Westermann mesmo percebe, Raquel tem papel fundamental na narrativa. É ela quem muda a história. Pensando dessa forma, o capítulo 26 se encaixaria bem com a mensagem de que “os supostos espertos nem sempre se dão bem” ou “quem trapaceia será trapaceado”.

Neste estágio antigo da tradição de Gn 27 seria uma crítica sarcástica, zombeteira, de mulheres aos homens que controlavam o poder.

Assim, podemos concluir que a redação do texto é bem recente pela ferrenha crítica a Esaú, pois se tirarmos os eixos, nada temos contra ele. Por isso, percebemos uma tradição com conteúdo antigo, mas que foi reelaborado na sua redação no século VII ou VI a.C, na época da contenda entre Israel e Edom.

Uma História de Tirar o Fôlego

Não será possível o aprofundamento do conteúdo. Contudo, algumas ponderações podem ser feitas, e em especial o problema do verso 39, especificamente, sobre a tradução da preposição min que determinará o teor da benção dada a Esaú.

Nos versos 1 até o 17 do capítulo 27, Isaque preocupa-se em abençoar seu primogênito antes de sua morte, pois já estava velho. O texto faz questão de apresentar seu estado de cegueira, pois fará toda a diferença no enredo da história.

O tema de benção é comum ao leitor dos textos judaicos (Gn 48-49). O pseudepígrafo Testamento dos XII Patriarcas está dentro desse topos literário. Junto com a benção está a comida, fruto da caça de Esaú (27, 2-4), algo que já fora dito em 25, 28: "Isaque prefere Esaú porque ele é caçador e gostava muito de caça". Antes de sair ao campo, Rebeca ouve a conversa e arruma uma manobra para Jacó precipitar seu irmão. Desta forma, a imagem de 25, 28 realiza-se nas escolhas do pai e da mãe.

Segundo Gn 25, 22-23, Deus fala com Rebeca, e não com Isque, que o mais velho serviria o mais novo (v.23). Neste sentido, o texto mostra que Raquel ajudou a realização do projeto de Javé. Assim, se esse texto faz parte das tradições femininas, ela é vista não como uma interruptora insensata da história, mas como instrumento para o curso histórico dos designos de Javé. É possível que antes da sua redação, o texto fosse contado ou cantado por mulheres.

Ao ser conduzido por sua mãe, Isaque chega até seu pai. A questão aqui é bem interessante: Isaque sabia ou não quem era Jacó? Por quatro vezes ele questiona a identidade de seu interlocutor (vv. 19, 20, 21, 22, 24) e no verso 23 temos um comentário de que ele não reconheceu que era Jacó. O verbo hikiro pode ser “reconhecer”, como também “fazer caso”. Em Juizes 18,3 hikiro é reconhecer, pois o texto fala em “reconhecer sotaque” (2 Sm 3,36 e Jó 24, 13 também têm a mesma idéia). Podemos, então, crer que realmente o texto fala que Isaque foi enganado, ou melhor, trapaceado, por seu filho mais novo. O engano culmina na benção a Jacó, o centro da narrativa. A fertilidade da terra, ou seja, trigo e vinho em abundância a servidão dos povos e de seus irmãos são direcionados a ele. A benção culmina em “bendito quem te abençoar e maldito quem te amaldiçoar”, que aparece em Gn 12,3 e Nm 23, 9. Segundo Westermann, a benção está em forma poética e é compósita, pois não era longa como está fixada no texto. A parte mais recente é marcada por submissão de nações e povos e de seus irmãos, mostrando um contexto de conflito e luta.

Ao voltar da caçada, Esaú percebeu que foi enganado por duas vezes (v.36). Isaque repete a benção, mas em ordem diferente (autoridade – fertilidade da terra). Se for progressiva a formulação do discurso de benção para Jacó (27,27-29), a menção de submissão é posterior, pois ela é repetida no começo, como se fosse algo importante a se dizer no momento. Isso, talvez, por ser uma intenção redacional de denegrir os edomitas.

Esaú insiste por três vezes para que Isaque o abençoe (v.34, 36, 38). Em desespero e choro Esaú  questiona se somente havia uma benção para transmitir (v.38). Vemos a repetição como ponto central da estrutura dessa narrativa.

É neste momento que temos certo problema. Qual é o teor da benção de Isaque para Esaú? Isso dependerá da tradução da preposição min, que antecede a palavra shemane (fertilidade). A preposição pode ser traduzida como “fora” ou “por razão”. Se traduzirmos como “fora”, então a ideia é bem degradante: “longe da terra será tua morada”. O mesmo artigo aparece na palavra do mesmo versículo 29 (hashamin), e seria então traduzido como “longe do orvalho”.

Segundo a LXX, a melhor tradução seria “por razão de”, ou “por origem” (inclusive no genitivo), no sentido de “junto de”, pois usa a preposição apó para traduzir min. Inclusive na benção dada a Jacó a mesma expressão parece ligada à fertilidade da terra, e a LXX utiliza a mesma tradução para preposição min (apó)! Segundo a LXX a tradução ficaria diferente: “Vê! Junto à terra farta estará tua morada, e junto o orvalho do céu”. Nesta perspectiva a tradução da preposição min seria melhor “pelo” ou “por razão” porque não afasta Esaú da fertilidade.

Desta forma, o texto da Bíblia Hebraica seria mais bem traduzido assim: “Vê! Pela [por razão da] fertilidade a terra será tua morada, e pelo orvalho de cima”. Com essa perspectiva, o texto apresenta razões e conseqüência: “pela fertilidade” e “pelo orvalho”, a terra será a sua morada. Duas possibilidades de interpretação podem ser detectadas: 1) que a primeira benção dada a Esaú é igual em qualidade e estrutura a de Jacó, tendo a diferença na segunda parte da benção concernente a dominação. Será esse um indício de que a benção sobre fertilidade e orvalho seja mais antiga nessa narrativa, mostrando que os dois irmãos tiveram a mesma bênção? Desta forma, poderíamos reafirmar que o vaticínio presente na boca de Isaque da servidão dos povos, inclusive de Edom, é posterior, como percebemos nessa insistência? 2) outra proposta para entendermos isso, seria ver o teor da benção dada por Isaque como um resultado natural das condições climáticas e geográficas. Uma espécie de “abençoar sem abençoar”. Ao ser a terra fértil e o orvalho cair, Esaú terá sua morada.

Pelo que parece, o texto torna-se mais claro ao lermos os versos anteriores, nos quais Esaú reclama mais uma benção, chegando a perguntar se haveria no estoque de Jacó somente uma. O texto diz que Jacó o “atendeu” ou “respondeu” (uma pena não saber como usar aqui os caracteres hebraicos), no sentido de atender o que tinha sido pedido (v.39). Ou seja, Isaque atende a Esaú e abençoa como abençoou a Jacó (essa seria a leitura da LXX). E se pensarmos em uma progressão da tradição dessa benção, podemos afirmar que a outra parte da benção é posterior, porque tira a igualdade dos irmãos, que nesse momento representam povos.

O texto continua dizendo que Esaú começara a nutrir ódio por Isaque e desejou matá-lo. O ódio, a luz da leitura feita acima, seria por ter que ficar debaixo da servidão de Jacó, enquanto poderia ser o inverso. Por ter o final da benção (v.40) intenções redacionais o ódio de Esaú pode ser redacional e posterior, inclusive sua vontade de matar Jacó, mas isso não pode ser verificado aqui.

A ideia da fuga é, como foi a da manobra, uma iniciativa de Raquel, por mais que no capítulo 28 seja Isaque. Raquel é peça fundamental. Sem ela não haveria realização do projeto de abençoar o mais novo (que foi presságio de Javé) e da fuga para Harã, que marcou a história de Jacó [povo de Israel].

No eixo final, vemos novamente a presença de condenação a Esaú mostrando-o como causador das angustias de Raquel, pois se casara com mulheres estrangeiras (27,46). Esse verso é uma clara mudança de teor para denegrir o povo representado por Esaú.

Reflexões Finais

O texto tem uma história muito complexa. Sua redação dá novos contornos a tradições mais antigas, pelas quais Esaú é “demonizado”. Não somente isso, pensando à luz do seu gênero literário, podemos imaginar uma tradição feminina, que criticava sarcasticamente o poder patriarcal, mostrando suas fragilidades e seu caráter fraudulento. Outra coisa, a centralidade de Raquel como instrumento das realizações dos projetos de Javé mostra-se claramente no texto. Parece-me que posteriormente o texto acaba servindo de instrumento para legitimar separações e representar lutas de povos.




[1]Iêmen ou Yêmen é um país do sul da Península Arábica, resultante da fusão do Iêmen do Norte (república islâmica) e Iêmen do Sul (república socialista), em 1990. Banhado pelo Golfo de Áden e pelo Mar Vermelho, possui férteis planícies na costa com muitos cursos de água que favorecem a agricultura. Seu clima é árido tropical nas regiões norte e tropical próximo na costa. Sua população é formada basicamente por árabes iemitas e africanos, quase todos muçulmanos. A região foi chamada pelos romanos de “Arábia Feliz”, por causa de suas terras férteis, em contraste com o deserto que domina o restante da Península Arábica. Abrigou na Antiguidade diversos estados, dos quais o mais famoso é o Reino de Sabá,  mencionado no Antigo Testamento.