algumas reflexões a partir da Carta aos Gálatas. Mas, antes de qualquer coisa, precisamos
algumas informações previas que nos ajudarão na sua leitura.
DestinatáriosComo afirma
Vielhauer no início de sua introdução à Carta aos Gálatas, para a biografia de Paulo (
cap. 1-2), a história do (s)
Cristianismo (s) primitivo (s), para as tensões
intraeclesiáticas daquele tempo e para a teologia do apóstolo – pois é i
nquestionavelmente paulina, diferente das demais cartas supostamente de sua autoria (
Ef,
Fl, I e II
Tm,
Tt e
Cl) – a Carta aos Gálatas é o documento mais informativo. Lutero encontrou nela bases profundas para suas ideias, mais tarde presentes no que chamamos de protestantismo. O grande teólogo F.C
Baur, com pressupostos hegelianos, tentou reconstruir a história do
Cristianismo – em especial com base nas informações dessa carta – como conflito entre o judeu-
cristianismo petrino e o gentílico-
cristianismo paulino. A mesma certeza de sua importância para a exegese bíblica e história da pesquisa bíblica não se consta, por exemplo, na questão dos
destinatários. Sabemos unicamente que Paulo a escreveu, do próprio punho (
Gl 6, 11),
taîs ekklesíais tês Galatías (para as igrejas da Galácia). Para iniciarmos uma introdução a essa carta, acho acertado começarmos por essa questão, pois marcará duas informações necessárias para sua leitura: a data da produção e o local onde estavam os
destinatários.
A discussão a respeito dos
destinatários, ou melhor, da região alvo da missiva, sempre deu “pano para manga” exegética. Existem duas hipóteses que se
digladiam: a hipótese da Galácia do Sul (província) e da Galácia do Norte (região). O problema está na questão
terminológica da Galácia, de Augusto, pois há a possibilidade de chamarmos de Galácia tanto a província que abrangia
Licaônia e
Psídia, onde estavam Antioquia, Listra,
Derbe e
Icônio, que eram
colônias onde o imperador instalou legionários veteranos, como também uma região do centro-norte da Ásia menor, um distrito onde estavam
Ancira,
Pessino e
Távio. A maioria dos pesquisadores aposta na região norte, por questões internas da própria carta , como também pela maneira como Paulo se refere ao local de destino da carta, pois não generalizaria como “
gálatas” grupos étnico das regiões da
Licaônia e
Psídia. Então, é possível que a carta não tenha sido enviada para a parte sul da província gálata, onde Paula estivera já na sua primeira viagem missionária, mas especificamente para região da Galácia (com origem celta) depois de passar por lá em duas ocasiões, em 49 d.C após o concílio dos apóstolos (
At 15), na segunda viagem missionária (
At 16,6), e na terceira, quando saíra de Antioquia da Síria em
direção a Éfeso (18,23). Provavelmente, Paulo tenha escrito de Éfeso ou na volta de
Corinto, na mesma terceira viagem.
Adversários A maneira dura como Paulo escreve, seu rigor nas palavras, suas exortações
diretas e
ríspidas, a ponto de chamá-los de insensatos, demonstra a
insatisfação com os
destinatários e o
caráter polêmico da carta. Segundo o texto, a comunidade estava sendo influenciada por alguns “missionários judeu-cristãos”, vindos de fora (1,7; 5,10), os quais perturbavam e anunciavam outro tipo de evangelho (1,6). Eles tentavam minar a autoridade de Paulo para dar mais força aos seus argumentos (
cf. as defesas do apostolado
paulino – 1-2), e parece-me que conseguiram certo sucesso, pois alguns já estavam mudando a postura diante da fé (1,6); estavam guardando dias e festas rituais (4,19). É difícil descobrir o conteúdo dos ensinamentos desses intrusos, porque os
acessamos intermediados por Paulo. No entanto, algumas coisas podem ser observadas, por intermédio do texto, sobre isso. Os intrujões exigiam a observação da Lei de Moisés, Paulo chama-as de obras da lei (3,2.5). Os adversários acreditavam na necessidade da observação da lei
mosaica para justificação (5,4), ao lado da fé em Cristo, ou melhor, a necessidade de submissão a preceitos legais da
Torah (4,21), como circuncisão (5, 1-12), prescrições rituais festivas, sábado e exigências alimentares (4, 10; 4,11-20).
Até pouco tempo esses adversários eram conhecidos como “judaizantes”. No entanto, esse tipo de conceito ideal sustenta-se em bases já ruídas pela pesquisa. Por exemplo, não se aceita hoje em dia entre os
exegetas a ideia de um “judaísmo comum”, igual o defendido por
Sanders (
Cf.
SANDERS, E. P.
Paul and Palestinian judaism: A comparison of Patterns of Religion.
Philadelphia:
Fortress Press, 1987.), como se houvesse no tempo de Paulo um judaísmo monolítico, com preceitos essenciais que o identificava claramente, tornando possível observá-lo separadamente do
Cristianismo, por sua vez também bem delineado. Esse conceito “judaísmo comum” acaba
travestindo a realidade
multifacetada e plural das práticas e experiências religiosas do judaísmo no tempo de Paulo (basta-nos ler os manuscritos do Mar Morto que logo veremos essa diversidade). Por isso, falamos em “
judaísmos”, no plural. Assim, como bem identificou Pedro Lima
Vasconcellos, tanto Paulo como os seus adversários eram judeus que liam de maneira diferente sua herança judaica à luz do evento Jesus. Problema parecido Paulo tivera em Antioquia, antes do concílio de Jerusalém, quando tratou, juntamente com a
liderança de lá, da liberdade em relação a submissão à Lei
mosaica para os novos cristão vindos do paganismo (
At 14-15). Segundo
Koester, para os adversários de Paulo as Escrituras eram compreendidas como “a Lei”, isto é, um livro de prescrições rituais (circuncisão, exigências alimentares, observância do sábado, festas religiosas), a observância a esses preceitos assegurava ao verdadeiro povo de Deus
proteção frente aos poderes do universo. Paulo, pelo contrário,
relativizava a importância da Lei, colocando-a dentro da história da salvação como um momento já ultrapassado, para sobressair-se a figura do Cristo sacrificado. Por isso, concordo com
Koester quando diz que para Paulo a Bíblia era um livro de antigas promessas que haviam se tornado realidade através da vinda de Cristo, de sua morte e
ressurreição, da pregação do evangelho e da fé das igrejas. Desta forma, o luta não era de um cristão liberal contra "judaizantes", mas entre interpretações judaicas diferentes diante da importância da Lei na experiência do Cristo. Podemos chamar de luta
hermenêutica.
Blocos de leitura instrumentalizados com essas informações, em especial a respeito das ideias com as quais Paulo está dialogando polemicamente, faremos a leitura exegética da carta. Com algumas modificações, a obra está bem próxima da forma epistolar usada na Antiguidade e nas outras obras
paulinas. Ela inicia com a identificação dos
destinatários e remetente e com uma saudação inicial. Depois, entra-se no conteúdo da carta, terminando com uma saudação final. Como aconselha a exegese, é indispensável ler a carta em blocos e suas
sub-divisões
argumentativas. Por isso, lê-la-
ei dentro desta estrutura:
I. 1,1-10: Introdução e Proêmio 1. 1, 1-5: introdução
2. 1, 6-10: exortação crítica [ao invés de
ação de graças]
II. 1, 11 – 2,21: Chamado de Paulo, Concílio de Jerusalém e Discussão com Pedro
1. 1, 11-24: história do chamado profético
paulino2. 2,1-21: sucesso no concílio de Jerusalém e contenda com Pedro
a) 2,1-10: o concílio de Jerusalém
b) 2,11-16: contenda com Pedro
c) 2,17-21: bloco de transição (obediência a lei x valorização do sacrifício de Cristo)
III. 3, 1 – 5,12: Justificação Pela Fé e Relativização da Torah1. 3,1-25: Carne x espírito (Lei x fé)
preponderância da fé
a) 3,1-5: experiência da comunidade
b) 3,6-18: exemplo de Abraão e o
ATc) 3,19-25: importância da lei na história da salvação
2. 3,26 – 4,11: Liberdade de filhos
a) 3, 26 - 4,7: como herdeiros e filhos
b) 4, 8-11: advertência para não caírem
3. 4, 12-31: Apelo e exemplo pessoal de liberdade e prova bíblica
a) 4, 12-20: apelo pessoal e falsidade dos intrusos
b) 4,21-31: prova bíblica:
midrashi de
Agar e Sara (liberdade e escravidão)
4. 5, 1-12: Reafirmação da liberdade em Cristo: a relativização da circuncisão.
IV. 5,13 – 6,10: Parênese com Conselhos Práticos para Vivência na Liberdade da Graça1. 5,13-25: liberdade limitada pelo amor
2. 5, 26-6,10: exortações individuais
V. 6, 11-18: Conclusão de Próprio PunhoA partir dessa divisão da carta podemos fazer uma leitura
expositiva. Talvez alguns questionem a relevância de uma carta como essa para
atual vivência da fé, limitando-se a perceber sua importância unicamente para o tempo quando as discussões do valor dos preceitos legais mosaicos estavam em voga. Ao contrário dessa posição, acredito na
contextualidade dessa carta, pois ainda encontramos muitos grupos cristãos
alhures se prendendo a legalismos, não levando a sério alguns pilares da Reforma –
Sola Gratia,
Sola Fide,
Solus Christus – bem expostos nesse texto
paulino. A epístola
proporciona uma radical liberdade, e ensina o equilíbrio diante dela.
Destrói concepções aterrorizantes e desmedidas sobre a participação do homem no
projeto de salvação e o coloca em seu devido lugar, esvaindo-o de qualquer vaidade ou pretensões de
autojustificação.