quinta-feira, 18 de abril de 2019

A QUINTA-FEIRA SANTA: LAVA-PÉS






No Evangelho de João, durante a última ceia, o salvador do mundo, o Verbo encarnado, sob olhares estupefatos e confusos, lavou os pés de seus discípulos. Na obra “Washing Peter's Feet” (1851-1856), o pintor inglês Ford Madox Brown (1821–1893) sensivelmente encarnou a cena em óleo sobre tela. Na pintura, vemos Jesus de joelhos e ao lado, jogadas e esquecidas, as sandálias parcas de Pedro. As cores são sóbrias. No centro, com vestes cinza, o mestre enxuga o pé destro pedrino com a toalha amarrada em sua cintura. Mesmo em destaque mais claro, o pano torna-se extensão do corpo fazendo de Jesus parte do ato. É o mestre inteiro cobrindo dedos e calcanhar de seu impetuoso discípulo. Todos estão em silêncio e desconsertados. A fala precipitada do impulsivo Simão deu lugar ao compenetrado olhar absorto em direção às mãos divinas molhadas com a água, as quais sustentam seus pés envoltos em pano. Há contrição na cena. O pescoço do discípulo dobrado e rígido aperta sua barba branca ao peito, enrugando-lhe a testa, com a mesma força  que suas mãos se entrelaçam. Pedro está totalmente rendido, não pode fazer absolutamente nada. Resta-lhe somente ser consumido pela pedagógica humildade do mestre. Ao fundo estão os outros personagens da narrativa evangélica. Imóveis, todos olham as mãos de Jesus. Os restos da ceia ainda estão na mesa. No canto, talvez com os pés já doutrinados, Judas amarra suas alparcas. Ao lado do seu braço descansa o saquinho com as moedas do conluio, colocando lado a lado amor e traição, desejo de poder e serviço, ganância e desprendimento, morte e ressurreição.

Ao mesmo tempo em que Pedro se encolhe, apequenando-se, seus companheiros de seguimento parecem não acreditar no que veem. Entre eles, quase oculto, alguém segura a cabeça como se estivesse contemplando algo assustador. Talvez, seja João ao lembrar-se envergonhado do pedido agora claramente ridículo. Enquanto ele e seu irmão desejam assentar-se à direita e esquerda da glória, Jesus bebe o cálice intragável da encarnação, serviço e humildade. No mesmo plano, outros se consolam do choque e escândalo. À direita, boquiaberto, um dos discípulos parece ser absorvido por aquela visão. Estão todos acuados e não há como escapar de Jesus: “assim façais vós também”. Com a áurea na cabeça do Senhor, Madox Brown expõe o paradoxo do lava-pés: mestre serve, Deus esvazia-se, o maior se dobra, eternidade encarna-se, a força se fragiliza. A reação dos personagens da pintura de século XIX revela o espanto do novo caminho instaurado, do qual a comunidade de Jesus não pode se furtar.

A partir da memória do messias lava-pés, no enquadramento da semana santa, devemos trocar todo projeto de poder, qualquer arrogância institucional, expressão de superioridade, falsa piedade ou preconceito excluidor por bacia, água e pano.

(imagem: Ford Madox Brown, Jesus Washing Peter’s Feet, séc. XIX)



sexta-feira, 12 de abril de 2019

80 tiros da nossa omissão!



Omitir é deixar de agir ou se furtar da denúncia por conveniência ou insensibilidade. É relativizar ou justificar com o silêncio quando urge a necessidade da Palavra. É legitimar com a naturalização ou despreocupação relações e fenômenos historicamente estabelecidos, como se não houvesse causas identificáveis e passíveis de enfrentamento. A omissão é, então, o não profético, a “acriticidade” cínica.

A falta de empatia, o medo da exposição, a cegueira ideológica e tudo o que contribui para a inércia em tempos quando se exige o movimento, são instrumentos eficazes e perigosos na construção da cultura da omissão, cuja maior e mais terrível consequência é nos tornar coparticipantes, direta ou indiretamente, da barbárie. Por isso, também são nossos os oitenta tiros disparados contra aquela família no RJ, traumatizando pelo resto da vida os sobreviventes e matando o pai de família Evaldo Rosa. São tiros ensurdecedores da silenciosa omissão.

Convenientemente, permitimos a sacralização do símbolo da morte. Em uma nação onde só em 2017 mais de 59000 foram vítimas de assassinatos (uma a cada 9 minutos), a arma deveria ser vista como sinal de necessária vergonha e não tornada projeção eleitoral. Em vez de arrancar sorrisos jocosos, o instrumento da morte deveria ser lembrado somente quando seu uso fosse a última possibilidade – não se festeja a violência, não se ovaciona o mal. Contudo, mesmo quando crianças posaram, sob a motivação de adultos-monstros, seus dedinhos com sinal de armas nós rimos e nos omitimos. O Brasil achou graça, votou, elegeu e coroou o discurso da violência com o faixa da presidência.

Não me interprete incorretamente. Eu sei que a desgraça e morte não foram inventadas com os “oitenta tiros”. Por outro lado, quando a realidade é de guerra, devem-se promover narrativas de paz. Em espaços nos quais a linguagem é belicosa, o dicionário da sensibilidade e empatia precisa ser usado. Em tempos de desumanização e desrespeito com a vida, é necessário popularizar-se o discurso da solidariedade e do cuidado. Em contextos nos quais a injustiça materializa-se em mortes de inocentes, ao invés de legitimar a violência do Estado em nome do combate aos seus causadores, faz-se urgente pensar estratégias e ações cujo caminho não percorra a mesma lógica daquilo contra o que aparentemente se combate. É simples: não se vence a violência com outro tipo de violência, mas com gestão justa, inteligência, prevenção e políticas públicas. A cultura da morte ficou nua aos nossos olhos e fomos embriagados pela omissão.

Os oitenta tiros cumpriram a vocação do racismo estruturante e estrutural. Mataram sem perguntar, porque ser negro nesse país significa torna-se setenta vezes mais matável. E mesmo assim, seguimos negando a existência dessa histórica chaga. Obstinadamente, insistimos em fingir serem inexistentes as estatísticas e experiências cotidianas e continuamos, em passos largos, corroborando com a naturalização da injustiça racial. Temo, porque a proteção dos bens e dos “cidadãos de bem”, guiada pela estratégia do “atirar para depois averiguar”, fará dos “já matáveis” potenciais candidatos a defensores mortos de sua inocência. Por isso, e tantas outras coisas, ao ouvirmos falar e acompanharmos a defesa do “excludente de ilicitude” sem críticas ou posicionamentos colocamos juntos nossos dedos no gatilho dos oitenta tiros. Em nossa nação, a cultura do extermínio é legitimada pelo Estado, aplaudida pelo povo, santificada pela fé na brutalidade, justificada pela apologia da família, tratada como inevitável pelos discursos simplistas e alimentada pelo ódio. Tudo sob nossos narizes, olhos e ouvidos omissos e pouco críticos.

Esses são os oitenta tiros da nossa omissão. Nosso pão amargo de cada dia. Contra o qual oramos: livra-nos do mal. Amém!

quarta-feira, 27 de março de 2019

Pentecostalismo e Método Gramatical-histórico: vamos com calma...



É muito comum ouvirmos ali e acolá o uso do termo, por vezes relaxadamente, “hermenêutica pós-moderna” ou preconceituosa desqualificação do possível diálogo entre essa perspectiva e a hermenêutica pentecostal. Parece-me que os principais ruídos surgem porque se acredita que os métodos filhos da Modernidade, especialmente o gramatical-histórico, sempre foram o lugar através do qual os pentecostais leram a bíblia. Então, farei algumas ponderações:
1. O uso dos métodos histórico-gramatical e histórico-crítico entram na história da hermenêutica pentecostal especialmente quando a Assembleia de Deus dos EUA é integrada ao National Association of Evangelical (NAE), cujos traços são neo-ortodoxos e barthianos, especialmente pelo uso construtivo e piedoso das ferramentas exegéticas modernas, um tipo de “criticismo moderado”. Antes disso, havia um vácuo no movimento pentecostal em relação à discussão sobre a maneira mais plausível para leitura do texto. Inicialmente, encontramos entre os pentecostais à leitura bíblica dos movimentos de santidade, conhecida com “Bible Reading Method e perspectivas mais pragmáticas de leitura. Stronstad chama esse período inicial de “hermenêutica pragmática”, Oliverio trata como “Original Clássica” e o teólogo pentecostal coreano Chang-Soung Le nomeia-a de “pré-moderna, pré-crítica e continuísta”. A hermenêutica de Parham e Brumback, segundo este último autor, era contrária à Alta Crítica e continuísta, na contra mão do cessacionismo. Nesse sistema interpretativo, constrói-se a inter-relação das três experiências: (a) a experiência de Jesus e seus discípulos, anterior ao texto bíblico; (b) a experiência escrita no texto; (c) a experiência das comunidades contemporâneas. Por isso, antes das primeiras discussões entre os acadêmicos pentecostais, a reexperiência carismáticas era o lugar hermenêutico.
2. Os pentecostais eram acusados pelos evangélicos dependentes dos métodos desenvolvidos e usados em horizonte neo-ortodoxo de irresponsável alegorização e espiritualização dos textos. G. Fee tenta resolver essa querela defendendo o sentido histórico e o uso da crítica do gênero literário para a leitura pentecostal – tal trilha metodológica levará Fee a ler Atos, por exemplo, como livro histórico, não didático e pouco apropriado para a construção teológica. W. Menzie e R. Menzie, por sua vez, defenderão o uso das críticas da redação e das fontes do método histórico-crítico. Robert Menzie, por exemplo, seguirá os neo-evangélicos (neo-ortodoxos) William W. Klein, Craig L. Blomberg e Robert L. Hubbard Jr., os quais estão inseridos no “criticismo moderado”. H. Ervin, na esteira do uso dos métodos históricos e críticos, como a NAE fazia, acrescentará a fenomenologia. No Brasil, popularizaram-se as obras de Stronstad e Craig Keener que defendem o uso do método histórico, mas numa perspectiva menos crítica. Contudo, o próprio Stronstad admite, como fez Ervin e outros, a impossibilidade da anulação dos pressupostos, para o leitor em geral, e da experiência carismática, para o leitor pentecostal. Contudo, como são devedores dos métodos racionalistas modernos, como eram os evangélicos da NAE, eles defendem a leitura histórica do texto, a intenção do autor real e o sentido gramatical.
3. Como se percebe, os métodos históricos (gramatical ou crítico, moderados ou não) não devem ser tratados como “os” verdadeiros caminhos da hermenêutica pentecostal, mas parte de sua história, especialmente por suas relações como os reformados e evangélicos. Como no Brasil livros e textos popularizados estavam e estão sob essa égide, fica a impressão de que o MHG representa “a” hermenêutica pentecostal.
4. É preciso diferenciar pedagogicamente os termos “hermenêutica” e “exegese”. O primeiro se refere à teoria do sentido, às discussões epistemológicas e ao processo de compreender e explicar o texto. Como ciência do sentido, a hermenêutica é mais filosofia da interpretação do que ação interpretativa. Exegese, por sua vez, seria prática e caminho metodológicos, o ato de interpretar. Dessa forma, os métodos de interpretação são filhos e encarnam as epistemologias e perspectivas hermenêuticas. Por exemplo, o MHG e MHC são ferramentas com pressupostos próprios do paradigma da Modernidade racionalista. Por isso, pretendem anular as influências da experiência do leitor ou da tradição para acessarem direta e objetivamente o sentido original dos textos. Esse triunfalismo da razão é o que alimenta o lugar epistemológico desses métodos. Por isso, esses caminhos geraram leituras cessacionistas e críticos. Por que ao usá-los os pentecostais romperam o criticismo liberal e o fundamentalismo cessacionista evangélico? Simples, por conta da experiência pneumático-carismática dos leitores e biblistas pentecostais. Stronstad, defensor do método HG, ao falar da melhor leitura de Atos seguida pelos pentecostais, o que significa vencer o cessacionismo e aceitar a ação carismática de Deus, admite: “isso é principalmente porque os pentecostais trazem um pressuposto experiencial válido para a interpretação de Atos e não porque fazem uma exegese histórico-gramatical superior de Atos”.
5. O que caracteriza a leitura pentecostal não é o método “a” ou “b” (caminho ou instrumentos usados para interpretação), mas a maneira como se aproxima do texto e os resultados dessa apropriação. Antes de qualquer coisa, a perspectiva da “(re)experiência” é o que caracteriza a interpretação pentecostal: os carismas experienciados nas comunidades cristãs originárias (glossolalia, batismo com o Espírito Santo, profecia, empoderamento do Espírito etc.), especialmente em Atos, são os mesmos das comunidades pentecostais contemporâneas. E, consequentemente, como mesmo admitem alguns exegetas pentecostais histórico-gramaticais, é exatamente essa experiência que permite ao fiel pentecostal ser capaz de perceber no texto a realidade dos carismas. Por isso, precisamos admitir que a experiência carismática precede a leitura pentecostal dos textos bíblicos. E mais do que isso, é necessário levar em consideração as implicações disso para a identidade teológica do (s) pentecostalismo (s) e sua hermenêutica.
5.1. Os métodos são instrumentos e estão sob a orientação de pressupostos epistemológicos. Mesmo que os biblistas pentecostais leiam a Bíblia de maneira não cessacionaista ao aplicar os métodos HG ou HC, a perspectiva hermenêutica desses métodos é, antes de qualquer coisa, racionalista e historicista. Eles são devedores do paradigma do sujeito cujo projeto é eliminar todas as interferências subjetivas e experienciais no processo interpretativo. Logo, uma pergunta precisa ser feita: é possível usar outros caminhos exegéticos que sejam mais adequados à identidade da experiência pentecostal sem ser uma simples alegorização, espiritualização, polissemia infinita ou violação não exegética do texto?
5.2. Um caminho foi pensado por John Christopher Thomas e K. Archer. A partir do modelo de At 15, segue-se a relação dialética entre Espírito, texto e comunidade. Assim, a experiência não somente individual, mas afinada e analisada em comunidade possibilita iluminar o texto, o qual, na mesma mão, serve como fonte para criticar e perscrutar a experiência. Consequentemente, a experiência é admitida e modela uma leitura não neutra e não racionalista do texto.
5.3. Além dessa intuição, várias metodologias podem ser usadas para o acesso ao texto, inclusive as ferramentas do MHG ou MHC. Contudo, os instrumentos tais quais narratologia, semiótica, as análises literárias, a estética da recepção, a nova retórica, a análise do discurso etc. podem ser instrumentos que rompem com as perspectivas metodológicas da Modernidade, sem desqualifica-las ou excluírem totalmente, mas podem ajudar na formulação de perguntas e caminhos interpretativos mais adequados aos horizontes hermenêuticos pentecostais. Como método de interpretação, e mesmo que sejam conhecidos como pós-metafísicos ou “pós-modernos”, eles servem para enclausurar os múltiplos sentidos do texto – ou seja, não permitem qualquer interpretação ou não validam propostas não plausíveis –, mas, ao mesmo tempo, valorizam ou consideram, desde suas bases epistemológicas, o que é importantíssimo para a hermenêutica e teologia pentecostais: a não neutralidade da experiência do fiel. Assim como Fee e outros acessaram as ferramentas modernas para resolverem seu desafios de sistematização e defesa da fé pentecostal, hoje há outros e outras biblistas pentecostais dialogando com as demandas impostas pela contemporaneidade, a qual tem nos mostrado a derrocada do paradigma no sujeito moderno-iluminista.
6. Por fim, seriam erros históricos (a) tratar a hermenêutica pentecostal como sinônimo de MHG (ou MHC), (b) defender a ideia moderno-racionalista da intenção do autor como a principal preocupação da leitura pentecostal, (c) dizer que usar os métodos não metafísicos (pós-modernos) é defender a possibilidade de qualquer sentido no texto ou ser relativista (e, para alguns, “liberal”).




sábado, 9 de março de 2019

Para você escolher um lado a respeito da Reforma da Previdência.




1. Sim, há um problema conhecido como deficit. No INSS é de 268 bilhões; dos servidores, 195 bilhões; militares, 43 bilhões; Fundo Constitucional do DF (FCDF), 4 bilhões. Como resolver isso? Com a Reforma proposta por Temer ou esta "renovada" pelo atual governo? NÃO. Realmente, não!
Vamos analisar:
1.1. Entre 2007-2017, segundo o CONAMP, o Brasil abriu mão de 2,265 trilhões através de isenções previdenciárias. Só em 2017 o governo abriu mão de 354 bilhões com isenções. Na fala do Guedes-Bolso, com a tal Reforma em dez anos economizaremos 1 trilhão. No entanto -- sem tirar direitos ou mexer, por exemplo, no Benefício de Prestação Continuada (BPC) [valor pago a idosos pobres] --, se o governo não desse isenções irresponsáveis economizaria um pouco mais do que isso em três anos! Entendeu?
1.2. 4% do PIB bruto no Brasil é para benefícios fiscais! Em 2013 a certa básica teve o imposto zerado. Ótimo. Contudo, Itens como Caviar, filé mignon, salmão e queijos importados foram colocados na mesma categoria! Como estão fora do orçamento, não entram na disputa quando são avaliadas as prioridades. Pasme: esses produtos "populares" não são contabilizados! Em suma, sem avaliação os produtos consumidos pela elite brasileira são insetos de impostos mesmo que isso custe o mesmo valor gasto com a educação pública!
1.2. Além disso, há empresas em atividade com dívidas não cobradas: das 32 mil empresas, 82% ainda está atuando. São 426 bilhões não repassados!
1.3. Outro ponto é há a DRU (Desvinculação das Receitas da União) que tirou da Seguridade Social -- onde estão Saúde, Previdência e Assistência Social -- 92 bilhões em 2016 cuja maior parte serviu para pagar juros e amortizar a dívida pública. A DRU foi criada na década de 90 por causa da hiperinflação. No entanto, ela vem sendo renovada e ficará por aí até 2023.
1.4. A Receita Federal não tem uma estimativa da dívida causada pela sonegação fiscal e previdencial causada pelo descumprimento da legislação trabalhista. Como podemos falar em reforma da previdência sem termos os dados de quem está produzindo, ou ajudando a produzir, o deficit?
2. O governo diz: "sem a reforma da previdência o Brasil quebra, não há outro caminho"! Mentira! Há outro caminho sim. No mínimo algumas ações anteriores à radicalização. Primeiramente, antes de qualquer coisa, sem tirar direitos ou diminui-los (o caso da BPC é um absurdo!), é necessário expor e investigar urgentemente a sonegação. Depois, mexer nas isenções. No combate a esse último, teríamos em 3 anos (!) a economia de 1 Trilhão!
3. Há outro grave problema. Os deputados, inclusive a bancada evangélica, já estão exigindo negociatas para a aprovação da PEC da Reforma. Ou seja, o povo está à mercê de um engodo retórico que servirá de moeda de troca aos vampiros!
De que lado você está? Não apoie antes de cuidadosa avaliação.
A nós, povo do Evangelho, cabe-nos o discernimento do Espírito, cujo produto ético alicerça-se sobre as bases do projeto do Reino!

quinta-feira, 7 de março de 2019

Reexperiência e a Hermenêutica Pentecostal




Desde Benjamin H. Irwin, C. Parham, Seymour e outros, a grande reivindicação pentecostal da leitura bíblica em geral e de Atos em especial se estabelece na reexperiência da experiência das primeiras comunidades cristãs. Entre esses e movimentos corolários, a ação do Espírito, visibilizada tanto pelo novo nascimento quanto pelos dons e sinais, é fenomenologicamente revivenciada na contemporaneidade. Com Parham, por exemplo, afirma-se a inter-relação estabelecida na tríade “experiência vivida antes do texto”, “experiência presente no texto” e a “experiência estabelecida e observada hoje nas comunidades pentecostais”. Howard M. Ervin, discutindo sobre a relação entre o saber sensorial e racionalista, afirma que “quando um leitor é confrontado pelo Espírito através da mesma experiência dos apóstolos, ele pode compreender melhor o testemunho apostólico”. Por isso, “esse fenômeno é a pneumática continuação entre os leitores de hoje e a fé apostólica comunicada na Bíblia” (“Hermeneutics: A Pentecostal Option”, in: Pneuma 3/2). Esse autor defende ser a experiência no Espírito o lugar de encontro entre passado e presente, histórico e vivencial.


Assim, os sinais, glossolalia, a pregação da realidade dos milagres etc. contrariaram a Modernidade racionalista e iluminista, porque criaram espaços discursivos para a reexperiência sobrenatural na comunidade, considerada igual à fundante, tornando o passado realidade presente. Conseguintemente, o Pentecostalismo apresentou-se como um grito contra o cessacionismo e criticismo, os quais são filhos do mesmo racionalismo moderno. Com isso, entendemos a afirmação de Margaret M. Poloma: “o Pentecostalismo é um antropológico protesto contra a Modernidade porque propõe uma mediação para o encontro com o sobrenatural”. Contudo, não é totalmente “pós-moderno”, pois preserva as metanarrativas de salvação, verificação dos milagres, usa o termo “evidência” (linguagem das ciências modernas) e preserva afirmações dogmáticas. No entanto, mesmo surgindo na Modernidade e sendo sua linguagem mais ou menos científica, o Pentecostalismo abre a porta para a irrupção sobrenatural diagnosticada na experiência/reexperiência dos carismas, os quais não se enquadravam (enquadram) no logocentrismo científico dos séculos em torno do seu surgimento. Essa é a razão de alguns autores qualificarem-no como “paramoderno” (K. Archer). Na questão hermenêutica, com sua perspectiva ahistórica (porque afirma ser suas experiências atuais as mesmas das comunidades cristãs antigas), os pentecostais fundem as imagens do texto e o presente, reconhecem-se na Bíblia, encontram a si mesmos nas narrativas e, naturalmente, reivindicam continuidade entre comunidades das origens e a fé vivenciada carismaticamente nas igrejas atuais. Em termos epistemológicos, isso rompeu com os pressupostos dos dois horizontes metodológicos do protestantismo dos sécs. XVII-XIX: cessacionista/fundamentalista e historicista/crítico


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Olavo de Carvalho, Bernardo Küster e Yago Martins: na terra de cego quem tem um olho só é...




Acompanhei, por indicação de um amigo, a discussão travada entre os youtubers Yago Martins (Yago Martins - Dois Dedos de Teologia) e Bernardo Küster. Tudo começou quando Yago “refutou” o texto “Por que não sou evangélico” escrito pelo grotesco (usando um termo bakhtiniano) Olavo de Carvalho cujo principal ponto é a disputa entre as perspectivas protestantes e católicas sobre a Ceia/Eucaristia. Por ser um assunto que me interessa, prender a atenção de tantos leitores e estar ligado à leitura de textos bíblicos, farei algumas considerações tanto a respeito da querela entre os nobres debatedores quanto ao tema em discussões.

1. O tal Bernardo é declaradamente discípulo do Olavo e o embate com Yago foi motivado por tomar as dores de seu mestre. Até aí tudo bem. Contudo, ele abre o vídeo com uma série de desrespeitos, desonestidade intelectual, arrogância patológica e, talvez, mentiras. A maneira indelicada quando se refere ao seu adversário me pareceu muito “esquisita”. Para desqualificar seu interlocutor, afirma ter estudado um período na mesma instituição onde Yago terminou seus estudos teológicos. Bernardo diz (acredite!) ser a Faculdade Teológica Sul Americana academicamente fraca e ideologicamente contaminada. Tentando ilustrar, conta que os professores não sabiam nada a respeito da Patrística a ponto de irem até ele em busca de conteúdo. Contudo, a loucura não fica só nisso. Ele diz conhecer todo o corpo docente da instituição, inclusive o prof. Julio Zabatiero, a quem, como afirma no vídeo, humilhou intelectualmente depois de difícil discussão. Segundo o “grande ex-aluno”, Julio, envergonhado pelo nocaute teológico, nunca mais voltou para a mesma sala de aula. Perdoem-me o juízo de valor, mas para quem conhece o brilhantismo do Julio e sua capacidade argumentativa, ouvir isso é risível: esse rapaz além de hiperconservador é tão arrogante que se aproxima da loucura. No fundo, acho ser ele um grande mentiroso. Mesmo que isso tenha acontecido, o que acredito ser impossível, não é honesto desmontar o argumento do seu oponente de debate desqualificando seus professores ou sua instituição. Se for assim, onde seu guru formou-se? Seu doutorado foi defendido em que Universidade, mesmo? Outra coisa, Küster diz ser um ex-teólogo protestante muito estimado cuja reputação foi jogada ao ostracismo depois de se tornar católico. Confesso: nunca ouvi falar do "grande teólogo" Bernardo Küster.

2. Realmente, o texto do idiocrático Olavo é recheado de generalizações, imprecisões históricas e erros teológicos. O paladino do saber diz que Jesus nunca nos recomendou “a leitura do grande livro”. Ora, se Olavo interpreta como uma recomendação à leitura da Bíblia como a temos hoje, isso seria um equivoco óbvio, porque só havia a Bíblia Hebraica, a LXX e os pseudepígrafos. Ainda, ele diz: “O que Ele diz, isto sim, e com palavras inconfundíveis, é que a salvação, o ingresso na vida eterna, só vem por um único meio: comer o Seu Corpo e beber o Seu sangue”. Não, Jesus não diz isso! Se ele for literalista como exige em sua refutação ao Yago ou na maneira como tenta fazer, nem Lc ou 1Co fazem essa firmação. O pior vem na mesma argumentação: “Nem mesmo um retardado mental pode confundir essas duas ações com a leitura de um livro, por santo e sublime que seja”. Se no texto ele deseja indicar o equívoco do "biblismo" (biblicismo?) protestante, seria um erro simplório afirmar que os protestantes, representados por Lutero e Calvino, citados no texto, acreditam que lendo a Bíblia serão salvos ou entrarão na vida eterna. Se lermos isso com as outras partes do seu texto, perceberemos que Olavo coloca lado a lado duas possíveis opções para a salvação: a. por meio da leitura bíblica ou b. mediante a participação no sacramento da Eucaristia. Essa interpretação desvairada sobre a Teologia da Palavra de Deus em Lutero ou alguns protestantes, confirma-se na seguinte afirmação: “Recusando-se a obedecer a ordem explícita de Jesus Cristo, Lutero, Calvino e tutti quanti instituíram em lugar dela o biblismo, o culto do texto bíblico, fazendo deste, em vez da Eucaristia (...).” Quem conhece um pouco da teologia de Lutero, por exemplo, sabe que Palavra de Deus e texto bíblico não são a mesma coisa, o que não o colocaria entre os literalistas bíblicos. E, pior, qualquer protestante ligado às reformas europeias sabe que salvação, em suma, é pela Graça mediante a fé, em Cristo, e não por qualquer outro mediador. A Bíblia, nesse sentido, seria o lugar no qual se acessa a revelação sobre Jesus e sua graça. Por isso, Olavo e Bernardo demonstram total desconhecimento a respeito da teologia ou teologias protestantes. E sobre “comer o Seu Corpo e beber o Seu sangue” como “único” meio para “vida eterna”, não é uma clara proposição da tradição católica. Mesmo que seja intuído pela teologia do sacramento, essa afirmação rápida feita por Olavo não dá conta de uma série de problemas e necessárias explicações. Além disso, em Rm 10.9 temos uma afirmação paulina a respeito de salvação que não se enquadra na mediação proposta por Olavo de Carvalho: “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo”. A bíblia tem muitas vozes, entre as quais não está a olaviana.

3. A respeito dos textos usados por Olavo de Carvalho e os termos gregos, creio que transliterar o “úpsilon” com “u”ou com “y” não seja o grande problema, mesmo que o Yago tenha indicado outra possibilidade à proposta do Olavo de Carvalho. Infeliz, na verdade, é a maneira como os textos de Lc 22.19 e 1Co 11.24-26 são lidos. No primeiro, diferentemente dos outros sinóticos, depois de partir o pão e dizer que “toûtó estin tó soma mou tó húper humôn didómenon” (“este é o corpo meu o qual por vós (foi) dado” – traduzindo de maneira mais próxima da estrutura original), Jesus diz que “toûto poieîte eis tén emén anámnesin” (“isto fazei para a minha memória/lembrança”). O “isto” que deveriam fazer (poieîte) se refere não ao pão se tornar em corpo ou vinho em sangue, numa espécie de primeiro ato de transubstanciação, mas ao rito que será tratado como uma lembrança (“anamnesin”). No outro texto, Paulo segue a tradição lucana, deixando de lado os textos de Mt e Mc, e afirma ser esse rito um memorial (1Co 11.25) o que servirá de “anúncio” da morte até que “Ele venha” (v.27). Mesmo respeitando a legitimidade da tradição em torno da transubstanciação, nos textos citados, pelo menos para os protestantes, não podemos pressupor sua presença somente pelo uso do “isto”, como insiste Olavo de Carvalho e seu “pequeno gafanhoto”. E mais improvável seria afirmar que Jesus esteja dizendo ser esse rito o “único” caminho para a salvação, como afirma o texto olaviano. Depois desse arrazoado, fica claro o equívoco em colocar lado a lado “salvação pela Bíblia” e/ou “salvação mediante a eucaristia” como caminhos opostos do Protestantismo e Catolicismo. Então, a afirmação “É meu direito e meu dever considerar isso uma heresia, um escarnio e um escândalo, temendo pelo destino eterno de todos os que se deixaram enganar por tão grosseira patifaria” não passa de preocupação desnecessária e caricatura simplista do pseudoteólogo Olavo de Carvalho.

4. Tanto a leitura do Bernardo quanto a do Olavo são infantis e não levam em consideração até mesmo as indicações da Encíclica Divino Afflante Spiritu que critica leituras fundamentalistas e literalistas, defendendo a importância da compreensão dos gêneros literários e seus contextos histórico-culturais. Percebe-se isso, por exemplo, quando Olavo de Carvalho e seu pupilo confundem as palavras de Jesus com a redação dos evangelistas. Ou seja, a imagem deixada é de total ignorância a respeito das pesquisas neotestamentárias.

5. Se essas forem as razões da negação de legitimidade do Protestantismo a ponto de Olavo se afirmar um católico convicto, está provado que suas certezas são muito frágeis. No entanto, isso é bom, porque gera humildade diante das afirmações sobre a fé ou Tradição. Por outro lado, como a humildade não está entre as características do Bernardo e Olavo, talvez, só lhes resta a obtusa ignorância.

Opa, não poderia me esquecer. Como gostam de fazer, permitam-me chamar vocês dois, Olavo e Bernardo, de idiotas, burros, ignorantes etc. Tenho a liberdade de tratá-los assim, reproduzindo a maneira como vocês se reportam aos seus “mortais” interlocutores. Desculpe-me, é só uma brincadeira. Quis somente dar a vocês um pouco do próprio elixir.

Não tem jeito, na terra de cego quem tem um olho é... olavete (kkk)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

"Diabo e Satanás: Pequena ajuda para os professores da EBD - CPAD" .






Um amigo pediu-me que falasse um pouco a respeito desse tema por ser professor de EBD em uma Assembleia de Deus. Pelo que parece, esse é o assunto do trimestre. Como tenho outros interessados aqui no assunto, disponibilizarei minha resposta.
Sobre a discussão em relação à origem do (s) demônio (s) no NT, há alguns pontos:
1. A imagem do demoníaco, ou seja, a forma narrativa como são descritos no NT tem sua origem em textos do AT e, especialmente, ou quase totalmente, na literatura do Segundo Templo (livros pseudepígrafos e apócrifos - especialmente na literatura conhecida como “apocalíptica”). O AT não fala de demônios contrários a Deus ou de algum líder de um exército maligno contra os planos divinos, como Belzebu ou Satanás do NT. Por exemplo, Satã no AT é o termo usado para quaisquer adversários históricos (Sl 71.13; 1Sm 29.4), em Jó ele está entre os Ben Elohim (filhos de Deus), em Zc está na corte celestial. Por exemplo, o "espírito" que possessa Saul em 1Sm 16.14 vem da parte de Deus e o espírito de mentira na boca dos profetas tem origem, também, “da parte de Javé” (2Cr 18). Com esses e outros exemplos, percebemos que a ideia do "diabo", como vemos no NT, não está presente no AT, o que não poderíamos dizer em relação à literatura pós-AT (literatura judaica e cristã do Segundo Templo).
2. As narrativas do NT, especialmente os sinóticos, constroem seus textos pressupondo que eles existam e atuam na vida das pessoas. Não há nenhuma explicação de sua origem ou fonte de poder. Contrariando algumas interpretações, Lc 10.18 não é uma descrição de anjos que caem, mas a vitória dos discípulos quando Jesus os enviou. A ideia de um ser expulso da região celestial (“Lúcifer”) por arrogância é uma interpretação patrística a Is e Ez para a origem do diabo. Além disso, foi a Vulgata (tradução para o Latim) que traduziu Helel Ben-Shahar (Helel, filho da manhã) por Lúcifer, que seria o mesmo termo usado pelos romanos para se referir a uma estrela visível nas manhãs mediterrâneas. Na literatura profética, essa expressão em hebraico foi usada como metáfora para descrever a grandeza de um rei que cairia (Is 14). Por isso, em Is 14 – como também em Ez 28 – não há referência a anjo ou ser celestial. No entanto, é possível encontrar indícios em Is da narrativa ugarítica a respeito da queda de Attar, mas no profeta refere-se ou é aplicada à queda do rei da Babilônia, como o próprio texto já informa. Basta ler contexto e isso fica claro.
3. Contudo, há um livro muito importante para os Judaísmos e Cristianismos das origens no qual encontramos, sim, a relação entre a origem dos demônios com a queda de anjos: 1 Enoque (séc. III-II a.C). Nesse texto é narrado que os anjos (Vigilantes) se apaixonaram pelas mulheres, desceram, tiveram filhos com elas (chamados de Gigantes - releitura de Gn) e, depois do dilúvio, uma vez que seus pais (os vigilantes) são presos, os Gigantes são mortos. Dos seus corpos, segundo o texto (1En 19), saem seus espíritos, chamados de "espíritos imundos" cujas ações são aterrorizantes e malignas. No decorrer dos séculos, essa obra influenciou outros livros judaicos e, também, cristãos (1Pd 3.19; Judas etc.). Entre eles o livro de Jubileus (obra judaica do séc. II a.C.), no qual se afirma que esses espíritos que saíram dos corpos dos Gigantes tinham um líder, Mastemas, e causavam males aos homens. Em Qumran (manuscritos encontrados a partir de 1947 perto do Mar Morto) há textos de exorcismos nos quais são citados os "espíritos imundos". Essas imagens são bem próximas do imaginário demonológico neotestamentário. Então, podemos dizer que aqui há uma tentativa judaica para explicar a origem dos demônios e de um chefe entre eles. Possivelmente, com objetivos diferentes, Ap 12 esteja ecoando essas narrativas.
4. Por isso, não temos na tradição bíblica uma explicação substancial a respeito da origem do diabo e dos demônios. O NT antes pressupõe a existência desses seres do que explica sua origem.
Mais informações você pode encontrar no livro que escrevi (resultado da minha dissertação) e alguns artigos que publiquei.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Arma nossa de cada dia dá-nos hoje! A Flexibilização do Estatuto do desarmamento











O decreto de flexibilização do Estatuto do Desarmamento, segundo o presidente, resolveu especialmente o subjetivismo da exigência de comprovação da “efetiva necessidade” na obtenção de arma de fogo, prevista no artigo 12 do Estatuto. Agora, além dos agentes públicos (inclusive os inativos) da área de segurança, militares (ativos e inativos), colecionadores e caçadores, as famílias residentes em área rural e em cidades que tenham taxas acima de dez homicídios por cem mil habitantes também poderão possuir armas em casa. Como dizem seus defensores, seria mais um passo ao direito de defesa, luta contra os criminosos impunes e a possibilidade de proteção da família.

Mesmo com aparência de legitimidade (quem não concordaria em proteger sua família?), essa nova regulamentação precisa ser vista a partir de duas desconfianças: (1) os interesses corporativos e (2) possível “tiro no pé” (para usar um trocadilho).

Quem imediatamente ganha com esse decreto são as empresas de armas e seus tentáculos de mercado. Dados do ano passado mostram que mesmo sob o antigo estatuto há mais de 600 mil armas nas mãos de civis brasileiros. Com o novo decreto, o empreendimento da Taurus, por exemplo, lucrará assustadoramente. Os negócios melhorarão para essas corporações também porque a canetada presidencial permitiu a compra de 4 armas por titular, com possível acréscimo desse número caso o interessado tenha, por exemplo, mais de uma propriedade rural. Consequentemente, antes mesmo do interesse público, essa mudança já é celebrada pelo mercado das armas, talvez o maior beneficiado. Lembrando que o referendo de 2005 era em relação à comercialização e não posse de armas e pesquisas atuais mostram que 61% são contra a liberação. Outra parte importante da mudança é que o Brasil inteiro se encaixa nos dados apresentados pelo Atlas da Violência de 2018! Ou seja, o mercado terá grandes tendas. Mais um detalhe, somando a compra e procedimentos para aquisição da arma, o gasto chegaria a 10 mil reais! “O direito de defesa” seria um bem acessado por quem? Sinceramente, a serviço de quais interesses essa mudança está?

Outro ponto, e chamo de “tiro no pé”, desse decreto é a visão de funcionamento social das suas bases. Se morar em cidade violenta legitima armar a população, então, significa que cidadão armado em casa garante proteção, inibe crimes (furto de casas etc.), coloca nas mãos do “pai de família” o direito de defender seu lar (“se um criminoso tem armas, por que um cidadão de bem não pode ter”?) e, naturalmente, resolve de maneira imediata a violência – bingo! No entanto, esse raciocínio é, no mínimo, simplista, para não dizer irresponsável. Veja alguns dados. Pesquisas mostram que parte das armas de fogo utilizadas em ocorrências criminosas foi originalmente vendida de forma legítima a cidadãos autorizados, os quais tiveram a arma desviada ou roubada. Se a questão é rivalizar com os meliantes, saiba que o tiro pode sair pela culatra. Outra coisa, estar armado em casa não diminuirá a violência na cidade. Daí você diria: – “então melhor mesmo seria o porte”. Claro que não (!), até a Bancada da Bala é contra esse absurdo. Como mostram pesquisas expostas no Fórum de Segurança Pública, mesmo com os procedimentos necessários para o registro, legítimo agora por 10 anos, estar armado significa mais risco e os dados reais de violência por questões torpes ou fúteis (brigas de trânsito, discussões em etc.) provam isso. Não se iluda, mesmo sendo somente a posse, como já acontece hoje, o número de armas em carros e na cintura vai aumentar.

Mais um dado, metade das mulheres mortas em 2016 foi por arma de fogo e contra essas, como é comum no feminicídio, grande parte dos crimes aconteceu no espaço doméstico. Contrariando o que se imagina, família com armas em casa não inibe o furto (ladrões adoram roubá-las) e coloca o lar em maiores perigos externos e internos. Dessa forma, estar armado, inclusive na rua, não representa defesa contra o criminoso ou diminuição da violência. Nos nove anos anteriores ao Estatuto do Desarmamento, de 1995 para 2003, a taxa de homicídios aumentou 21,4%. Nos nove anos seguintes, de 2003 para 2012, a taxa de homicídios aumentou somente 0,3% (Revista Época). Continuando os exemplos, nós acompanhamos assustados a quantidade de policiais assassinados em assaltos, enquanto estavam de folga, ao serem identificadas as suas armas. Talvez, esse pode ser um doloroso tiro em nosso próprio pé!

Não é clichê, o caminho para diminuirmos a violência nas cidades não é armando as pessoas, mas com políticas públicas, combate (especialmente nas fronteiras) ao mercado ilegal de armas e promoção da cultura da paz. Países como Japão e Cingapura, onde a posse é proibida, há 0,3 homicídios por 100 mil habitantes. Ou seja, ter posse de armas não diminuirá a violência e nem produzirá segurança, mas intensificará o problema. O princípio da renúncia do exercício da violência em favor de uma autoridade maior é fundamental no processo civilizatório. É simples: ao cidadão cabe contribuir com seus impostos e ao Estado garantir a proteção e os demais direitos. Continua sendo mais inteligente, mesmo parecendo fraqueza, o não enfrentamento durante um assalto ou crime; e nem isso é garantia de preservação da vida.

Por fim, com a ariscada multiplicação de pessoas armadas, a Igreja precisa promover o cultivo de práticas pacificadoras, abrir seus espaços institucionais para discussões a respeito do combate à violência e intensificar o anúncio do valor da vida, os quais são assuntos tão caros ao Evangelho de Cristo .

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Os dois discursos de posse do Bolsonaro




Ao ouvir os dois discursos do Bolsonaro fiquei com a impressão de que o novo presidente ainda está em campanha. Por várias vezes repetiu as frases e slogans da caminha presidencial, voltou a falar sobre o “fim do socialismo no Brasil”, citou a nomenclatura “cidadão de bem”, criticou os direitos humanos e até decretou o encerramento do “politicamente correto”. O pior foi ouvi-lo afirmar que libertará o povo do jugo da submissão ideológica. Será que somos tão irresponsavelmente desinformados a ponto de não percebermos o quanto isso é contraditório? Como explica Hall, "ideologia é uma estrutura mental – as linguagens, os conceitos, imagens do pensamento e os sistemas de representação – empregada por diferentes classes e grupos sociais para dar sentido, definir, figurar e dar inteligibilidade à maneira como a sociedade funciona". De maneira mais direta: ideologia é uma forma de compreender o mundo de determinados grupos sociais. Por isso, não existe discurso que não represente uma compreensão de mundo; não há projeto político que não seja ideológico. Entendeu? Então, o pronunciamento de Bolsonaro ecoa perspectivas ideológicas. Quando desqualifica o que chama de "politicamente correto", afirma a lógica meritória (preciso lembrar: não há mérito quando não há equidade de oportunidades), quando fala de "nossos valores",quando defende o livre mercado e a competitividade ou diz que o povo começou a se libertar do socialismo, ele está falando a partir de um lugar ideológico! Em suma, as suas falas carregam um tipo de ideologia política. As escolhas dos ministros, por exemplo, mostram como suas perspectivas ideológicas modelarão as políticas econômicas, tributárias, sociais, ecológicas do Brasil em seu governo. A pergunta é simples: as perspectivas ideológicas de Bolsonaro e dos seus colegas de governo favorecerão a quais grupos deste país?

Para construirmos uma nação livre, como o presidente defendeu, a pluralidade deve ser respeitada. O Estado não é regido por horizontes e interesses morais religiosos, mas pela Constituição. Sou pastor e evangélico, mas não posso cair na tentação posta pelo discurso bolsonariano. Sei que estamos em um Estado Democrático de Direito e não numa oligarquia cristã fundamentalista. Por isso, não devo me empolgar com esse tipo de fala, porque favorece somente uma parte da população.

“Nossa bandeira jamais será vermelha”, disse o Presidente, apresentando-se como um tipo de libertador contra o “comunismo”. Seria, segundo ele, o fim do “socialismo no Brasil”. O que ele está chamando de socialismo? O Brasil nunca foi socialista! Essa fala somente aprofunda a guerra vivida nas eleições de 2018, não gera conciliação nacional e corre o risco de demonizar as discussões sobre justiça social, direitos, políticas sociais e cria desconfiança contra os que fazem leituras mais críticas a respeito dos sistemas político-sociais. O seu discurso é preocupante por ser ele o presidente de um país democrático e a presença da oposição é fundamental e saudável.

Em seus pronunciamentos ele usou novamente a frase de efeito “contra a corrupção”. Contudo, estamos acompanhando de perto as histórias com pouca lisura de alguns de seus ministros, o seu envolvimento e de seus filhos com políticos e assessores suspeitos (o caso Coaf-Queiroz ainda não está resolvido) e suas relações já postas com políticos e partidos imersos na velha e profana política. Por último, Onyx Lorenzoni, o mesmo que pediu desculpas por receber dinheiro não declarado para campanha, admitiu ter usado verba da Câmara para voar pelo país em campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro, o que não é permitido e oneroso para os cofres públicos. Não pode haver seletividade no combate à corrupção ou ao uso indevido de dinheiro público.

As eleições acabaram e Bolsonaro venceu. Frases de efeito e jargões contra o socialismo não resolverão questões econômicas. Ainda, temo que ele esteja chamando de “socialismo” as políticas púbicas de combate à pobreza, a luta por direitos trabalhistas, as políticas de enfrentamento ã violência ou as conquistas sociais. Preocupa-me, também, caso esteja insinuando que o super cuidado com os  interesses de grupos mais ricos do Brasil seja essa tal luta contra os comunistas ou socialismo. Se for isso, espero encontrar no povo de Deus, seguidores de Jesus, uma voz profética e testemunho de fé.

Ah, e o discurso carismático e sensível da primeira-dama? Espero que sua empatia e bonita preocupação não entorpeçam o senso crítico dos brasileiros, especialmente o povo da fé, tornando a Michele Bolsonaro um jardim que cubra correntes.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Na manjedoura: como lhes havia sido dito...





De repente, na penumbra comum das noites bucólicas, enquanto pastores davam conta dos afazeres cotidianos, o céu poetizou boas-novas em lábios-eternidade: “Não temas”, disse-lhes o anjo, “trago alegria sem fronteiras. Desde as memórias da pequena cidade de Davi vem o menino-Cristo, o bebê-Salvador”.  Paradoxalmente, o sinal para os pobres trabalhadores não seria o pináculo do templo, ou barulho de festins dos luxuosos palacianos, nem mesmo o som de ação de graças dos anciãos sinagogais. A solenidade aconteceria em uma manjedoura e ornamentada por panos improvisados, simples como seus pais. Os espectadores não sabiam, mas faltava a coroação da visão. O coral celestial se organizou sobre suas cabeças, extasiados ouviram admirados o cântico da comunidade angelical: “as alturas estão em glória e paz escorre imprevisível no chão da Terra. Viva, há boa-nova aos homens e mulheres que sejam terras férteis e germináveis”.

Tal qual a irrupção, o palco se desfez, fincado a estupefação e o vislumbre dos receptáculos belemitas. Agora não eram mais pastores, tornaram-se poetas. Assim como Alberto Caeiro, são guardadores de novos rebanhos. Aquele, “seus pensamentos”; estes, sonhos. Contudo, todos dariam conta das sensações. Transformados, foram em busca do sinal. Não seria difícil encontrá-lo, quem cuida do campo conhece o cheiro de manjedoura. Tão Emanuel quanto o cotidiano das pessoas simples, a encanação da esperança era-lhes reconhecível.

Ansiosos e corrigidos pela pressa, encontraram José, Maria, o menino-Deus e a manjedoura. Mal chegaram e logo recantaram as cantigas dos anjos, rimaram o espanto, narrativizaram o poema sagrado e testemunharam as vozes ouvidas do céu. Como se recriassem a cena, novamente o tablado onde os seres celestes contracenaram foi montado. No entanto, as palavras fizeram-se personagens, os verbos atores e as frases o campo. Contextos diferentes, mas reações irmãs: em êxtase ouviam-nos e juntos contemplavam o porvir. Assim, as imagens coladas nos corações dos pastores cobriram novos celebrantes. Maria, acostumada com a sombra do Espírito Santo, rapidamente arrumou chaves mnemônicas, porque se eterniza tudo quanto a memória ama.

Aos pastores restou-lhes a poesia. Poderia ter sido de outra forma, mas nada recompensaria a maneira “como lhes havia sido dito” (Lc 2.20)!               

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA: ENTRE O ARQUIVO E O SÍMBOLO




Os símbolos nacionais, além de artefatos/arquivos da história, são agentes de estímulo e integração. Essa é a razão para destacarmos datas, personagens, situações e conquistas, sem os quais não seria possível formar a identidade nacional. O Brasil é Brasil por sua história! Então, a Proclamação da República é antes data-símbolo do que oportunidade de descanso para os que ainda têm emprego que lhes permita tal desfrute.

15 de Novembro para nós brasileiros e brasileiras é marca temporal de transição da Monarquia Parlamentarista para a República, realizada em 1889. Contudo, esse dia memorável é espuma do mar maior de perspectivas político-econômicas e movimentos contrários ao antigo regime. Na década de 1870, por exemplo, foi assinado por alas intelectuais brasileiras, nas quais estavam também alguns protestantes, o Manifesto Republicano cujas linhas alimentavam o desejo democrático, a luta por liberdade e a cumplicidade com a ideia de que a vontade do povo deveria conduzir o país. No histórico texto é denunciada a realidade brasileira e expressava-se, com bravura, o enfrentamento ao sistema marcado por injustiças. Cito: “O privilégio, em todas as suas relações com a sociedade – tal é, em síntese, a fórmula social e política do nosso país –, privilégio de religião, privilégio de raça, privilégio de sabedoria, privilégio de posição, isto é, todas as distinções arbitrárias e odiosas que criam no seio da sociedade civil e política a monstruosa superioridade de um sobre todos ou de alguns sobre muitos” (Manifesto Republicano, 1870).

Na época, as “novas idéias” republicanas desaguavam entre as classes letradas, pelas esquinas e quintais da terra brasilis. O país era efervescência de sonhos e revoltas; lágrimas e risos; forças conservadoras e revolucionárias. Sagazmente, Rui Barbosa, em 10 de Julho de 1889, percebeu o clima no ar e escreveu: “É inenarrável o aspecto que, há dois dias, apresenta a capital do império. Nunca se estamparam mais vivamente na fisionomia de uma cidade o pasmo, a reprovação, o protesto. Sente-se, nos espíritos, o rumor da grande vaga humana, que cresce das consciências, e se aproxima, surda e misteriosa, nas crises morais de uma nação. As ruas borbulham de alvoroto. A política invadiu todos os colóquios, emudeceu todas as preocupações. Não se crê no que se acredita. Essa mesma espuma das alegrias interesseiras, que efervescem a cada mudança ministerial, à ascensão de cada partido, mal sobrenada, indecisa e silenciosa. Ainda não acertamos com um liberal satisfeito” (Queda do Império, vol. XVI, tom. III, p. 243.). O “alvoroto” (revolta) que borbulhava era o sinal do desgaste. Desejava-se, nas palavras de Raimundo Correia, que o Futuro, archote incendiário, queimasse os báculos e os cetros. Ou seja, a famigerada relação dos poderes católico e monárquico já não passaria desapercebidamente ilesa às críticas das consciências esclarecidas. Tanto quanto se sentia o dissabor pela dureza do autoritarismo, das crises econômicas, do obscurantismo e da desigualdade de direitos, crescia o desejo pelo progresso social.

O 15 de Novembro de 1889 seria, então, a erupção dos muitos interesses vulcânicos instalados desde o seio da monarquia. Machado de Assis, em “Esaú e Jacó” (1904), infere a respeito da desgastada monarquia no diálogo entre os personagens Aries e Custódio. Este, no romance machadiano, é dono do estabelecimento chamado “Confeitaria do Império”. Na conversa com Aries, Custodio fala sobre a restauração da tábua onde estava o nome de sua confeitaria. O decepcionado confeiteiro lamenta: “Ontem, à tarde, lá foi um caixeiro, e sabe V. Exª o que me mandou dizer o pintor? Que a tábua está velha, e precisa outra; a madeira não aguenta tinta. Lá fui às carreiras. Não pude convencê-lo de pintar na mesma madeira; mostrou-me que estava rachada e comida de bichos. Pois cá de baixo não se via. Teimei que pintasse assim mesmo, respondeu-me que era artista e não faria obra que se estragasse logo”. Não tem restauração, diria a mensagem do livro, o sistema monárquico estava aos bichos e não teria artista que desse jeito!

Por outro lado, mesmo glorioso em valores, o sonho libertário não foi o único motivo de adesão à causa. O ressentimento dos ex-proprietários de escravos, despossuídos pela Lei Áurea (1888) do perverso bem sem serem ressarcidos, impulsionou a cooperação dos grandes ruralistas. Ainda – e a honestidade histórica exige indicar – os ideais republicanos foram traídos na Primeira República. Contudo, a luta pela Liberdade, Igualdade, Dignidade Humana, Justiça (valores tão caros para o futuro Estado Democrático de Direito) integravam essencialmente as diretrizes dos militantes republicanos do séc. XIX.

Por conseguinte, essa data é memória de denúncia e enfrentamento a sistemas que legitimem a “superioridade de alguns sobre muitos”. Aponta para um projeto de nação plural cujo governo está a serviço da legalidade, democracia e estabelecimento de direitos. Comemorar a Proclamação da República, dessa forma, é reafirmar os valores da justiça para todos e todas, o estabelecimento do acesso à educação e aos subsídios necessários para o bem estar social. E para nós evangélicos, vinculados à história do protestantismo brasileiro, 15 de Novembro é a afirmação indiscutível da separação entre Estado e Igreja, o que exige respeito à diversidade, o diálogo e a não imposição de valores individuais ou teológico-institucionais sobre os interesses nacionais, evitando o mal do privilégio religioso denunciado já pelo Manifesto de 1870. 

Assim, a Proclamação da República lança os olhos do povo brasileiro para o passado, mas torna-o símbolo de valores imprescindíveis e civilizatórios, projetando-nos, por sua vez, para o futuro.



sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Experiência e Hermenêutica Pentecostal". Novo Livro pela CPAD











Acaba de sair pela Casa Publicadora das Assembleia de Deus (CPAD) o meu novo livro, em parceria com David Mesquiati, "Experiência e Hermenêutica Pentecostal. Reflexões e propostas para a construção de uma identidade teológica". A obra reuni diversas reflexões e discussões realizadas em ambientes acadêmicos a respeito da teologia pentecostal e, especialmente, o lugar privilegiado da experiência para interpretação bíblica e da fé. O livro é dividido em 10 capítulos e provoca uma série de questões: o que seria um hermenêutica pentecostal? É possível falar em teologia pentecostal? Qual a relação histórico-teológica do Pentecostalismo com a Reforma? Que tipo de método exegético poderia ser melhor aplicado à leitura bíblica pentecostal. 

Abaixo, um pequeno trecho da obra: 


"Algumas coisas nos preocupam em relação à produção teológica pentecostal no Brasil. Um dos riscos é a neocalvinização do pentecostalismo ou as teologias protestantes estabelecidas tornarem-se o único ou o melhor caminho para a sistematização teológica. No entanto, precisamos explicar o que queremos dizer com isso. Antes de qualquer coisa, essa crítica não é aos calvinistas e demais protestantes, mas aos nossos irmãos pentecostais. Acreditamos que o diálogo com a teologia e com os teólogos reformados é de fundamental importância para a promoção do Reino de Deus em nossas terras. Contudo, para que o diálogo aconteça, nós pentecostais precisamos fazer o dever de casa e articular uma identidade teológica que seja propriamente pentecostal. E, podemos afirmar com toda segurança, que isso já vem sendo feito, especialmente por nossos irmãos norte-americanos e europeus, como Amos Yong, Kenneth Archer, Veli-Matti Karkkainen, Harold Hunter, entre outros; não nos esquecendo de pentecostais latino-americanos, como Bernardo Campos, Daniel Chiquete, entre outros, que há algum tempo têm enfrentado essa realidade e feito propostas importantes. Por isso, nosso texto fará ensaios seguindo esse mesmo interesse, de uma construção de identidade teológica pentecostal, que exige a releitura da história, uma proposta hermenêutica e articulação na e para a experiência" (MESQUIATI; TERRA, 2018, p.2).

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Pela Democracia. Pela Nação. Pelos 501 anos da Reforma


A vitória do Bolsonaro foi conquistada democraticamente. E se desejamos preservar e respeitar o Estado Democrático de Direito, precisamos nos dobrar, sob a égide da Constituição, à vontade do povo, porque dele deve emanar o poder, sempre! Pronto, isso agora nos convoca a atitudes democráticas, tanto dos eleitores como não eleitores do novo presidente – confesso que meu olhar para essa reflexão aponta em especial às comunidades de fé, pois é o lugar de onde falo.

Antes de qualquer coisa, é urgente evitar qualquer atitude idólatra. A aceitação acrítica das propostas, movimentos e interpretação da realidade de qualquer projeto político é idolatria, porque acaba dando valor eterno a poderes históricos. Por isso, espero que os seguidores de Cristo, especialmente os pastores que o apoiaram e estão por perto, sejam capazes de vencer o vislumbre ou interesses pessoais e façam a devida e democrática oposição a qualquer sinal de prejuízo coletivo, políticas equivocadas ou ataque à democracia.

Os eleitores que deram seu voto de confiança ao vitorioso presidenciável não podem deixar a alegria da conquista cegá-los diante de ações suspeitas. E pelo visto, já estamos acompanhando algumas articulações preocupantes. Entre elas podemos citar a possível presença de Alberto Fraga no gabinete em 2019. Esse deputado do DF foi condenado em primeira instância a quatro anos, dois meses e 20 dias de prisão, em regime semiaberto, sob a acusação de pedir 350 mil reais em propina a cooperativas de transporte, em 2008, quando era secretário de transportes do governo José Roberto Arruda. Esse mesmo levou outros 30 parlamentares que poderão apoiar o afrouxamento do Estatuto do Desarmamento. O nome disso é toma lá da cá! Outro nome citado, esse para a casa civil, é Onyx Lorenzoni, também do DEM. Ano passado Lorenzoni admitiu ter recebido dinheiro para caixa 2 da JBS. O que o uniu a Bolso foi seu posicionamento a respeito da revogação do mesmo Estatuto. Tanto na relação com este como com aquele, o futuro presidente coloca em primeiro lugar o apoio à revogação da lei do desarmamento em detrimento do histórico político. Será que ninguém está vendo que isso pode significar o mesmo erro do PT? Já se ventila na câmara a troca de apoio entre Bolso e Rodrigo Maia (DEM) tendo como moedas de troca a presidência da câmara e a mesma flexibilização do Estatuto do Desarmamento. Não podemos permanecer achando que corrupção foi inventada por membros do PT. Esse tipo de ideia isenta os demais partidos de suas responsabilidades.

Outro movimento que precisa ser observado com muito cuidado por todos é a proposta da fundição do Ministério da Agricultura com o Meio Ambiente. Essa ação pode se tornar um grande equívoco para toda a nação, porque, por um lado, obrigaria alguns países importantes e grandes parceiros do Brasil deixarem de comprar nossos produtos por conta de seus compromissos internacionais e, por outro, colocaria sob os interesses irresponsáveis do agronegócio políticas públicas para o meio ambiente, o que ameaçaria instituições e políticas públicas que guardam as riquezas naturais do país, base da qualidade de vida e desenvolvimento econômico. Até mesmo grupos ligados ao agronegócio estão preocupados com essa possibilidade. Além disso, a democracia precisa da oposição partidária que seja voz de limite e crítica. Por isso, o discurso de que quem critica é “comunista” precisa dar lugar ao saudável e necessário contraditório, sem estigmatizarão ou pechas precipitadas.

Em especial aos pastores que estão lado a lado do Bolsonaro e conhecem bem a tradição protestante, desejo que não percam de vista a transitoriedade de qualquer governo. Sejam consultores da sabedoria, amabilidade, preservação da pluralidade e responsabilidade nos discursos. Já que ele tem falado tanto em Deus e sua vontade, sejam sempre possibilidades de conselhos sensatos em relação às suas políticas públicas. Não o deixem, sem que ouça de vocês uma mínima exortação à luz do Evangelho, tomar decisões que firam os mais necessitados ou beneficiem somente um grupo ou classe. Em algumas de suas falas ele demonstrou muita insensibilidade a violências estatisticamente comprovadas. Sejam, já que estão tão próximos, iluminação coerente a respeito desse risco. Sei que durante a campanha muitos dos colegas pastores apoiaram-no, de perto e de longe, por encontrarem nele um defensor da família. Sempre entendi essa leitura por temerem algum tipo de imposição de agendas nas escolas e às crianças. Contudo, sejam sensatos e olhem sempre com muita acuracidade cada discussão sobre esses temas para haver razoabilidade e não excessos, o que poderia gerar um tipo de “caças às bruxas” ou maior intolerância em nome da preservação de uma perspectiva de sexualidade. Ainda aos pastores, levando em consideração nossa tradição protestante, tenham o equilíbrio necessário para não diluírem a separação fundamental entre Igreja-Estado em nome da moral e bons costumes, porque vocês devem ser antes aptos para proclamar e ensinar sobre esses princípios do que os impor via Estado.

Por fim, não podemos deixar, principalmente nós protestantes que carregam as memórias de 501 anos, de nenhuma forma, qualquer projeto político retalhar, fatiar, retroceder, diminuir ou desqualificar direitos adquiridos em nossa recente democracia. Espero que sejamos capazes de unir o Brasil e agora olharmos para frente sonhando juntos por uma nação para todos e todas.