sábado, 2 de outubro de 2010

“Independente de qualquer coisa, obrigado Marina Silva”

Quero deixar de lado por um instante a exposição da Carta aos Gálatas, para pincelar aqui algumas considerações sobre uma assembleiana que tem me dado orgulho de fazer parte da mesma denominação dela. Refiro-me à Marina Silva.

Há alguns meses, logo nas primeiras postagens, escrevi um texto (Cf. Que venha o Centenário da Assembleia de Deus... O que comemoraremos?) sinalizando o rumo tomado por nossa denominação – mais tarde percebi que não era o único assembleiano indignado. Na ocasião focalizei meu olhar – demasiadamente crítico, eu sei, mas bem intencionado – somente no “podre”, no “não Reino”, nos “lobistas” dentro da instituição. Talvez parecesse, para alguns, que deixei meu dedo muito em riste. Para outros, só se cumpriu a conhecida interpretação para o vigor subversivo da juventude: “antes dos trinta todos somos comunistas...”. Independente dessas afirmações estarem certas ou não, a verdade é que minha valoração não foi feita à luz de observações neutras e frias, mas com suor, sangue e fúria. A melhor palavra para o que ainda sinto é frustração, e não indignação, porque aquela está muito mais próxima da esperança. Esperança de mudanças estruturais e substanciais ainda não alcançadas.

Por que a lembrança amarga desse texto indesejado? A razão está na satisfação paliativa de saber que Marina Silva é também assembleiana, ou melhor, “mulher assembleiana”. Esses dois detalhes importantes precisam estar juntos para mostrar a grandeza dela. Por ser mulher – de origem marcada pelo analfabetismo (ela foi alfabetizada aos 17 anos), seringal e pobreza – e superar estatísticas negativas das relações de gênero e chegar aonde chegou, prova ser um exemplo de coragem e força. Como assembleiana, coisa que nunca usou para se favorecer nas urnas, bem diferente de alguns que usam a boa fé pentecostal para cultivar currais de eleitores, mostrou com a vida e com seu discurso – o qual, como bem mostra José Luis Fiorin (Linguagem e Ideologia. 8 ed. São Paulo: Ática, 2007), também é ação por ser legitimação – ser possível ter uma fé que não esmoreça a dedicação às causas do meio ambiente e questões humanitárias.

Talvez tu indagues: “ela não é a única!”. Sim, eu sei. Mas é uma das poucas! Ou não é comum ouvirmos em lábios pentecostais discursos que negam a vida e que desqualificam as militâncias sociais, por acharem desnecessárias e focalizam apenas a existência além-mundo? Quantas vezes ouvimos, pelo menos nos púlpitos pentecostais, nos quais também falo e me incluo entre os devedores, sermões sobre a luta do Reino contra as injustiças sociais? Ou sobre as questões climáticas e nossos pecados ambientais? Quantos congressos ou encontros convencionais participamos que tinham textos como Isaías 5, 8 ou 10,1-2 como tema? – Os temas dos profetas e as suas preocupações parecem não estar na nossa agenda. Diferente de muitos de seus colegas de denominação, Marina Silva consegue viver uma fé que inclui as questões ambientais, a luta social e os direitos humanos na sua agenda; assuntos esquecidos, mas verdadeiramente cristãos. Marina Silva, a começar pela maneira como pensa sua religião, deve ser ouvida, pelo menos por nós assembleianos.

Mesmo que não vença, e eu gostaria muito que vencesse, e fiz e farei o possível para isso (a começar votando nela), ela já me deu grandes alegrias e revigorou minha esperança da possibilidade, como alguns poucos fazem, e reconheço a existência deles, de ser protestante e pensar política ou pleitear cargos políticos sem usar o discursinho medíocre e desonesto “crente vota em crente”. Marina poderia ter se submetido à “esqueminhas” com as lideranças de sua denominação (seria isso difícil, caro leitor, se ela quisesse?), mas não o fez. Pelo contrário, nunca usou seu pertencimento à maior Igreja Pentecostal do Brasil para favorecer-se. As únicas vezes em que a vi e ouvi tocar no assunto, mostrou muita coerência com seu discurso sobre ética; e coerência é uma qualidade que ela claramente possui como bem escreveu o Pr. César Moisés em seu Blog.

Fico extremante entusiasmado e orgulhoso ao ouvi-la falar sobre aborto, direitos civis dos homossexuais e outros assuntos desse tipo, porque não confunde Estado e Igreja. Sei que essa relação é muito complexa, mas simplesmente admiro como o seu discurso, ao mesmo tempo, carrega princípios democráticos e valores do grupo religioso que faz parte. Sei que democracia e religião (ou fé cristão) não são duas coisas antagônicas, mas poucos conseguem aproximá-las com tanta sensibilidade.

Sem temer a perda do prestígio dos evangélicos, que em muitos momentos são realmente implacáveis, e nem levantar bandeiras motivadas por impulsos supostamente apologéticos, que às vezes – repito, “às vezes” –, acobertam o desejo de poder ou legitimação de statu quo, ela mostra a clara necessidade de governar sem achar que o Brasil é obrigado a aceitar a moral cristã ou de qualquer outro grupo que compõe a múltipla e plural Terra Brasilis.

Há uma ideia que em essência tem coerência, mas sua aplicabilidade é falaciosa. Refiro-me à afirmação de que a Igreja precisa de políticos para ser defendida. Sim, como todas as instituições, a Igreja precisa de representantes que a protejam de possíveis danos, em questões institucionais. No entanto, primeiramente, isso não será feito necessariamente por um político evangélico; alguns fazem até o contrário. Segundo, proteger de perjúrios não é o mesmo que defender os interesses. Quais interesses tem a Igreja além da proclamação e expansão da justiça do Reino de Deus ? Para precisamos de deputados, senadores, governadores? Acho que não. A Igreja precisa ser política, no sentido de se preocupar e se posicionar em relação às questões do desenvolvimento e realidade sociais. Precisamos educar os donos do voto, especialmente os de casa, de que representantes honestos, capazes e bem intencionados, crentes ou não, cuidarão do bem coletivo. Desta forma, a Igreja e os demais serão beneficiados.

Precisamos ter na cabeça que o Estado não pode e não deve aprovar ou deixar de aprovar alguma coisa segundo nossas perspectivas teológicas. Os que consciente ou inconscientemente defendem a não aprovação de leis que ferem ou não ressoam os dogmas da Igreja, esquecem que sobre cada um dos assuntos em pauta existem diferentes perspectivas teológicas. Por exemplo, o aborto ou homossexualismo. A quem o Estado deveria ouvir? Uma teóloga cristã feminista ou uma conservadora? O exegeta que lê 1 Co 6,9 de forma mais tradicional ou o crítico? Exigimos uma postura do Estado sempre pressupondo que a nossa leitura bíblica e a teologia são as mesmas para todos os cristãos (ãs) e teólogos (as).

Os que governam precisam preservar, na verdade, a liberdade, com o objetivo de sempre afirmar a democracia e os direitos civis em todos os níveis. Com isso todas as instituições serão protegidas e como disse, inclusive a Igreja.

Ufa! Por que esses parágrafos? Para mostrar como Marina Silva sabe muito bem disso, e ao ser questionada sobre temas polêmicos ela conseguiu fazer um equilibrado diálogo entre seus pressupostos de fé e as prerrogativas do Estado. Eis aí outro motivo que me enche de prazer ao saber que estamos na mesma denominação! Sobre os temas polêmicos atuais, a história nos mostra o quanto a Igreja errou quando se achou no direito de impor suas verdades ou empurrar seus pressupostos teológicos a todo custo na cabeça do povo. Proclamamos e testemunhamos um euangélion que no seu nível mais básico fala em amor. Por isso as discussões sobre a moral cristã precisam sempre passar nessa peneira, como Paulo fez ao falar da liberdade e até mesmo sobre os dons (1 Co 8-11; 1 Co 12-14).

Aconteça o que acontecer, dia três de outubro estarei em paz com minha consciência. Agradeço a oportunidade de ter Marina Silva como uma possibilidade de voto. Espero que milhares sejam da mesma opinião. “Imaginemos a possibilidade, mesmo que pareça fraca, pobre, louca ou insensata, porque Deus escolhe as coisas...”

2 comentários:

  1. Caro Kenner:

    Passei por aqui para ler a sua postagem e apoio integralmente o que escreveu. Marina Silva é a grande vencedora desta eleição, não importa se estará ou não no segundo turno. Soube mostrar, como você bem expressou que fé e política (a verdadeira!) não são incompatíveis. E também permitiu revelar ao Brasil que não é só de crises que vive a Assembleia de Deus. Há vida dentro dela.

    Abraços!

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  2. Olá Pr. Geremias do Couto,
    é uma honra encontrar-te aqui.

    Obrigado por seu perspicaz comentário. O senhor captou perfeitamente o imo do texto. A Marina é um exemplo de que temos políticos honestos, coerentes e ao mesmo tempo com propostas aplicáveis, pena que menos de 20% da população tenha percebido isso. Mas uma coisa com certeza ela nos sinalizou, como o senhor bem disse: sim, há vida... e em abundância!

    abraços!

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