sábado, 7 de julho de 2018

CRIVELLA E A IRRESPONSÁVEL REUNIÃO COM PASTORES


Na última quarta-feira, o prefeito do Rio de Janeiro convidou pastores para uma reunião na qual apresentou benefícios públicos que seu governo disponibilizará, tais quais cirurgias de cataratas e varizes. Na mesma lista de benesses, relembrou a imunidade tributária para “Templos de qualquer culto” – mesmo que em sua fala o termo “qualquer culto” tornou-se “igreja” –, garantiu quebra-molas em frente dos templos evangélicos e pontos de ônibus nas proximidades das igrejas, os quais ajudariam na chegada aos cultos. E mais, ofereceu a disponibilidade dos assessores “Márcia” (?) e “Dr. Milton” (?) para o auxílio do acesso a esses benefícios. Ao encontro, o prefeito deu o nome de “café da comunhão” e conseguiu reunir 250 ministros do evangelho. Quando questionado, sua assessoria justificou dizendo ser uma prática comum, porque o prefeito “recebeu os mais diversos representantes da sociedade civil, para tratar dos mais variados assuntos, tanto em seu gabinete quanto no Palácio da Cidade”. No entanto, como justificar a presença, no mesmo contexto, do pré-candidato pelo PRB, Rubens Teixeira, a quem, segundo reportagens, Crivella exaltou diante de todos? Desculpe-me, mas isso é no mínimo irresponsável! Que tipo de comunhão é essa? Avalie bem o quadro. O prefeito, que é bispo licenciado da Igreja Universal, oferece benefícios públicos para um grupo de pastores, ao lado de um pré-candidato (antes do tempo permitido pelo TRE), em reunião “às escondidas”. Estranho ou não?

Não é por essa via que nós pastores e comunidades cristãs deveríamos nos envolver na arena pública brasileira. Esse tipo de mecanismo é a pior face da presença política dos evangélicos em nosso país. Mesmo que estivesse divulgando programas e benefícios, não seria em uma reunião com pastores o melhor lugar. Nas entrelinhas, o prefeito da cidade estava, com representantes do evangelho, trocando votos e apoio por auxílios públicos e voluntariedade política. Lembrou-me a antiga lógica do tijolo pelo voto sob a égide sagrada do “crente vota em crente”. Leia esta frase lançada na reunião e avalie: “vamos aproveitar esse tempo que nós estamos na prefeitura para arrumarmos nossas igrejas”. Que isso, corporativismo evangélico? Sei dos direitos da Igreja, mas aqui temos outra coisa!

É comum entre colegas pastores a ideia de que ser convidado por lideranças políticas significa reconhecimento ministerial ou honra. Talvez, essas tenham sido as motivações que impulsionaram o comparecimento na reunião. Contudo, nós pastores precisamos entender que políticos demonstram reconhecimento ministerial quando cumprem, honesta e responsavelmente, sua função de representantes do povo e não ao auxiliarem um grupo específico. Eles estarão honrando nossa mensagem ou serviço não com placas ou ajudas pessoais, mas ao usarem com equidade e inteligência os bens públicos, a ponto de melhorarem a vida da população. Por outro lado, precisamos entender, de uma vez por todas, que os políticos identificados como evangélicos cumprirão seu papel de representantes da fé cristã na política partidária não por beneficiarem suas igrejas locais, mas ao serem bons gestores públicos e agirem pela causa do povo, especialmente os mais fragilizados. O prefeito da cidade não demonstrará ser amigo dos pastores por colocar quebra-molas na frente das igrejas, mas organizando a mobilidade pública do município. Não é oferecendo lobby na saúde pública aos pastores que Crivella provará sua parceria com as igrejas, mas apresentando programas relevantes que melhorem e fortaleçam esse setor tão sucateado e ofereça soluções reais ao povo.

O Rio de Janeiro vive crises em diversos setores e depende da sensatez e boa vontade de seus representantes. Os pastores, por sua vez, como vocacionados no Reino deveriam se preocupar menos com o IPTU das igrejas e mais com a cidade; precisariam disponibilizar menos sua representatividade para propósitos personalistas e mais aos interesses populares. Por isso, essa reunião foi infeliz e todos os presentes, enganados ou desinformados, tornaram-se cúmplices de crime eleitoral e de má administração pública, se deixaram usar por interesses políticos e se permitiram contracenar uma peça infame e ridícula.

No final do “café da comunhão", anunciaram outro encontro do mesmo tipo. Espero, de verdade, que para esse não tenha quórum.

sábado, 26 de maio de 2018

A greve dos Caminhoneiros e o Governo Temer



Entre tantas coisas ensinadas a duras penas nesta semana, a mais surpreendente foi saber da dependência rodoviária da nação. Para muitos, os caminhões nas estradas, por vezes excomungados pelos motoristas de veículos menores, eram só um detalhe indesejado. Saiba, o setor de transporte de carga cobre 60% da movimentação de tudo que é produzido e consumido no país! Ou seja, os produtos mais básicos e os mais essenciais dependem das rodas dos caminhões nas estradas para circularem no Brasil. E pior, desses sessenta por cento, 62% do setor está sob o domínio da iniciativa privada e das cooperativas. Em suma, o Brasil está nas mãos, ou nas rodas, de interesses de setores econômicos muito suspeitos e com o poder quase divino de implantação do caos. Quer dizer, então, que a paralisação é uma articulação dos interesses privados e de grandes empresas? Ou, não são legítimas suas reivindicações e essa luta não nos interessa? Não, não é isso que estou afirmando. Desejo simplesmente observar um horizonte que pode tornar menos simplista nossa avaliação. Para termos ideia da complexidade do tema, ontem, em entrevista, um caminhoneiro ao ser questionado sobre cartazes pedindo a intervenção militar em muitos postos de protesto respondeu ser essa a “única solução para nosso país”. Segundo ele, os “cidadãos de bem” seriam beneficiados. Não está fácil interpretar essa movimentação! Então, vamos para o outro lado da margem para depois tentarmos entrar na terceira via.

O problema central – além de outras questões ligadas ao pedágio – é o preço do combustível. Todos nós sabemos como é a composição do preço do diesel e da gasolina (se não sabíamos, agora todos sabemos): 9% é para “distribuição e renda”; 12% é o “custo de etanol e Anidro” (gasolina) e 07% “Custo Biodiesel” (diesel); 29% (gasolina) e 15% (diesel) para ICMS; 16% (gasolina) e 13% (diesel) para CIDE e PIS/PASEP e Confins; 34% (gasolina) e 54% (diesel) para “Realização Petrobras”. Ou seja, 45% do preço da Gasolina e 28% do diesel é resultado da presença de tributos estadual (ICMS) e Federais (CIDI e PIS/PASEP e Confins). Além disso, não podemos nos esquecer da mudança no governo Temer para os preços da gasolina e diesel. Desde junho de 2017, o preço do combustível receberia reajustes diários à luz do valor internacional do barril e cotação do dólar. No governo Dilma a variação dos preços internacionais era repassada de forma defasada aos valores praticados no país, um mecanismo usado para tentar segurar o aumento da inflação. Agindo assim, o governo evitava que a elevação do preço dos combustíveis se disseminasse pela economia afetando os outros produtos que dependem diretamente de transporte rodoviário e de insumos derivados do petróleo, capitalizando o impacto na inflação geral. Ou seja, o valor no consumo depende da política de preços e reajustes do governo; e como estatal sua lógica não é somente o lucro, mas o melhor preço e benefícios para o povo, mesmo que interfira no lucro.

Ainda, um absurdo que poucos sabem é a chamada política “American First" (América Primeiro). Felipe Coutinho, presidente da associação dos engenheiros da Petrobras, explica o que isso significa. Segundo ele, essa é uma nociva política de preços que, na prática, beneficia os Estados Unidos antes do que o Brasil: “Essa prática adotada pelo governo Temer tira mercado da Petrobras e faz com que o Brasil importe derivados de outros países, especialmente dos EUA”. Ou seja, A Petrobras exporta o petróleo cru e importa os derivados refinados dos EUA. O diesel importado dos EUA que em 2015 respondia por 41% do total, em 2017 superou 80% do total importado pelo Brasil. Dessa forma, geramos um lucro gigantesco aos EUA e altos preços aqui no Brasil. É no mínimo uma loucura! As empresas internacionais e as concorrentes privadas ganham e os/as brasileiros/as perdem. A associação alertou que os principais beneficiados nesse período foram os "produtores norte-americanos, os traders multinacionais, os importadores e distribuidores de capital privado no Brasil".

Sem tocar nessas questões citadas, Temer promete mexer no CIDI, a Petrobras nos preços e os deputados aprovaram zerar o PIS/Confins do diesel. A previsão é de 14 bilhões a menos nos cofres públicos. De onde retirarão para cobrirem isso? É um tipo de política do “cobre pés e destapa peito”. O que adianta retirar os tributos se a política “American First” continua? E a reforma tributária, não deveria ser o caminho necessário? E a Dívida Pública? Ninguém fala disso? A Dívida Pública é um valor que o Governo paga aos investidores com quem pega dinheiro emprestado para sanar suas dívidas. Como faz isso? Por meio de Títulos de Dívidas? Quem pode “emprestar” ao Governo? Qualquer um que comprar esses títulos. E os que mais compram são os fundos de investimento e bancos. Adivinha, então, a quem o governo deve mais? Ou seja, mais uma vez vamos ficar discutindo questões da superfície e não das estruturas. E os caminhoneiros? Bom, em emergências, medidas emergenciais são inevitáveis. Contudo, se não houver mudanças profundas e sistêmicas teremos outros setores “parando tudo”.

sábado, 5 de maio de 2018

Tardei





Nestes dias, ouvi com amigos da pastoral poética a música "Tardei" de Rodrigo Amarante. Canção densa e leve, com letra polissêmica e capaz de levar cada ouvinte, a partir do lugar de escuta, às memorias, caminhos e escolhas mais íntimos. As palavras da canção são como teias de ferro, aparentemente frágeis, contudo duríssimas! A letra é cercada pelo dedilhar despretensioso do violão triste. No fundo, como coro nebuloso ouvem-se vozes femininas soprando "uuh" monossilábico.

No clipe, Amarante anda por lugares montanhosos e o mar revolto faz o enquadramento das imagens. Sinuosamente, como um rio, o músico aparece sentado em um cômodo antigo e cheio de coisas velhas, de onde olha-nos nos olhos, no fundo, sem nos permitir fingir ou disfarçar que não seja conosco.

O compositor, ao comentar sobre a obra (pecado imperdoável), diz ser uma caminhada pelas lembranças da infância. Tudo bem, eu entendo. Mas é mais, muito mais! A música fala para e a respeito de qualquer alma desejosa por um lugar.

A canção abre o primeiro verso confessando "tardei". O substantivo comum para falar do atraso, torna-se verbo e explica-nos a respeito de sua chegada tarde. Há na estrofe celebração por ter enfim atracado sua nau. No entendo, certeza de ter encontrado onde deveria estar é relativizada quando pergunta "onde está meu lugar?".

Amarante cita alguns instrumentos religiosos trazidos nas mãos, aos quais banha no rio em um tipo de rito. Contudo, o compositor avança no limiar da linguagem e admite ser só agora, na volta dessa caminhada, o tempo oportuno para perceber a senda por onde passou para ir aonde de onde chegou. Somente na volta pode saber como saiu e o que foi deixando. A canção celebra a maturidade do retorno. Ir por vezes é impulso, mas a volta é tempo de prestação de contas: para cada filho pródigo, um pai por quem precisará ser abraçado. Para o ex-membro do Los Hermanos, seu retorno é o encontro com aquelas memorias sinalizadas pelo fio de conta e rosário banhados. Se para ele essa é a razão, cada ouvinte encontrará às suas.

Mesmo afirmando ter chegado e pela primeira vez nunca mais partir, "desceu pelo rio/ da terra pro mar/ um fio de prata que me leva". É chegada tal qual um objeto jogado no rio cuja permanência é instável. Por mais tarde a volta, sempre cedo será a partida para todo/a aquele/a com coragem para vencer a segurança das afirmações inquestionáveis ou dogmatismos intolerantemente estabelecidos, as vezes, por nós mesmos. Não partir acaba nos impendido de aprendermos um pouco mais, simplesmente porque elimina as voltas, através das quais percebemos as sendas.

A imagem de fechamento do vídeo é o mar com ondas fortes. Ele encontrou o lugar, "tardando", mas o caos ainda está lá, mesmo na segurança da chegada. Que bom! Muito bom! Não tenho vocação para chegadas, gosto mais das voltas. Aprendi isso com o mestre de Nazaré, pois ele sabe bem sobre a transitoriedade dos lugares fixos, preságios da cruz.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O CRISTO MORTO





"Cristo morto", Hans Holbein, 1521/22.


Quando Dostoiévski, em 1867, viu pela primeira vez o quadro “O corpo de Cristo morto no túmulo”, 1521/22, de Hans Holbein, o Jovem, ficou estático por quinze ou vinte minutos ininterruptos. Em seu livro “Meu marido Dostoiévski”, sua esposa Ana Grigorievna testemunha que o encontrou impressionado e estupefato diante da obra exposta na cidade de Basiléia a ponto de dar reações taisquais os sintomas iniciais de uma epilepsia. O realismo cadavérico da obra do pintor amigo de humanistas como Erasmo de Roterdã, tocou profundamente as intuições estéticas de Dostoiévski influenciando a produção de seu (livro) “O Idiota”, cujo personagem principal, Príncipe Liev Míchkin, ao contemplar sua cópia e em diálogo com Rogójin exclama preocupado: “Ora, por causa desse quadro outra pessoa ainda pode perder a fé!”. 


O impacto diante do “Cristo morto” de Holbein é inevitável. A expressão crua e dura da realidade humana perpassa todo seu corpo horizontal, cujas medidas e forma remontam uma tumba invencível. No centro, entre a base e o teto apertado, o corpo preserva as marcas causadas pela violência. Não há beleza, nem triunfo e as memórias do ressurreto vitorioso perdem-se no esquelético e pálido corpo com as marcas dos pregos, golpeado lateralmente pela lança e na pele ressequida em seus ossos. Julia Kristeva, em “Sol Negro”, onde enfrenta o tema da melancolia, descreve com exatidão os traços e impressões do quadro: “O quadro de Holbein representa um cadáver estendido num pedestal coberto com um lençol mal dobrado. De tamanho humano, este cadáver pintado é representado de perfil, com a cabeça ligeiramente inclinada para o espectador, os cabelos espalhados sobre o lençol. O braço direito, visível, acompanha o corpo descarnado e torturado e a mão ultrapassa ligeiramente o pedestal. O peito saltado esboça um triângulo no interior do retângulo muito baixo e alongado do nicho que constitui o plano do quadro. Esse peito apresenta o traço sangrento de uma lança, e na mão veem-se os estigmas da crucifixão que endurecem o dedo médio esticado. Os traços dos pregos marcam os pés do Cristo. O rosto do mártir traz a expressão de uma dor sem esperança, o olhar vazio, o perfil aguçado, a tez verde-azulada são os de um homem realmente morto, do Cristo abandonado pelo Pai (‘Pai, por que me abandonastes?’) e sem promessa de Ressurreição”. Em “O Idiota”, o personagem Hippolit, assustado com a lúgubre e terrível imagem do quadro, pergunta-se, beirando à profanação, “se o Mestre tivesse podido ver a sua própria imagem, na véspera do suplício, teria Ele próprio podido caminhar para a crucificação e para a morte, como Ele o fez?”. 


“O Cristo morto” do pintor renascentista é solitário, como explica Kristeva. Diferente de seu antecessor “Lamentação sobre o Cristo Morto”, 1475-78, de Andea Mantegna, cercado por três mulheres em pranto diante do corpo erotizado e robusto do mestre sem vida, o de Holbein não tem discípulos lamentando sua morte, nem anjos cantando o presságio da ressurreição. Por isso, neste trocamos o lugar de espectadores do pranto e nos tornamos as carpideiras! Eis ai a razão da reação desesperada de Dostoiévski. O autor de “Irmãos Karamazov”, diante do quadro, experimentou a realidade gritante da morte em sua radicalidade naquele que se revela como maior símbolo da vida. É a sensação da irredutibilidade do fim, das margens, do precipício. Agonizante e terrível, o corpo do Cristo morto é nosso. É o tempo quase interminável e insuportável entre a cruz e ressurreição. Tempo do medo, agonia, incertezas, descrença. “A representação sem disfarce da morte humana, o desnudamento quase anatômico do cadáver, comunica aos espectadores uma angústia insuportável diante da morte de Deus, aqui confundida com nossa própria morte, de tanto que está ausente a menor sugestão de transcendência” (Julia Kristeva). 


A revolta torna-se parte do quadro aos olhos do espectador: “como foram capazes”! Não há explicação para tamanha barbárie. A morte parece vencer a vida; o mal-limite ao bem-eternidade. É o mesmo convite dos goliardos na monumental “Carmina Burana” ao cantarem “Ó Fortuna”: “mecum omnes plangite!” (“Chorai todos comigo!”). O grito de consternação é eco para todos/as nós. E, como movimento natural, viramo-nos para o lado e lamentamos as demais mortes. Pranteamos a morte nossa de cada dia, os corpos esqueléticos do mundo, as violências cotidianas, a imagem e semelhança da humanidade frágil dos muitos sem nome. Holbein nos coloca um espelho. Por isso, a insensibilidade dilui-se e choramos o corpo e a vida. Revoltamo-nos. Quanto mais violenta e injusta, mais nos consterna, porque vemos as mesmas marcas. A morte ganha maior peso e sua imagem torna-se insuportavelmente inaceitável. Somente uma expressão estética pode acalmar a alma diante do estrago desse quadro. A agonia do corpo morto de Holbein eleva-nos à expectativa do seu contrário – sem isso, morremos sem horizonte dentro daquele belo-horrível túmulo de Basileia. Na vivacidade da morte, paradoxalmente, emana, como necessidade existencial, a ressurreição.


O “Cristo morto” de Holbein é o germe do domingo da ressurreição! O domingo-esperança de todos/as nós.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

CARNAVAL, RISO E SUBVERSÃO

"Demócrito", óleo sobre tela, Johannes Moreelse (1602-1634) 

A história cultural do Carnaval mostra-nos a sua riqueza subversiva e a força protestante da festa popular. Sei que essa afirmação não parece ser compatível com a opinião da maioria de brasileiros/as, foliões ou não. Os etimólogos de esquina, por exemplo, aplicando seus conhecimentos históricos sofisticados, traduzem-na como “festa da carne”, e “carne” para esses não seria o lugar sagrado da vida, mas símbolo de explosão da promiscuidade, permissividade e devastação dos bons costumes religiosos ou burgueses. Por outro lado, há a ala da intelectualidade conservadora, clássica, de esquerda ou direita, cuja opinião é o desdém ou ódio, porque fere sua sensibilidade crítica, não pela possível obscenidade (sua mente liberal não permitiria tal denúncia), mas por ser interpretada como festa-ópio, alienadora ou sem a simetria permitida pelos estatutos estéticos de seus padrões hiper-sofisticados. Para outras pessoas, talvez a maioria, é tempo de feriado prolongado para se divertirem ou oportunidade de trabalho momentâneo.

Buscando mais luz a essa discussão, seria interessante citar M. Bakhtin. O teórico russo fez uma interessante e influenciadora análise das diversas expressões carnavalescas da cultura popular medieval e renascentista, a partir das obras de François Rabelais. Nessa e em outras obras, Bakhtin desenvolveu o conceito de carnavalização. Para ele, o carnaval, além do conjunto de festas no Medievo e Renascença, era uma maneira de interpretar, criticar e subverter o mundo e suas hierarquias. 

Segundo as intuições do pesquisador russo, a máscara, a fantasia e seus adornos carnavalescos desconfigurantes serviam como diluidores de identidade, inserindo a individualidade no espaço fluido do coletivo sem rosto, plural e livre formando uma unidade concreta. Analisando festas importantes da Europa como a festum stultorum, festa dos loucos ou festa do burro, quando se satirizava ritos e liturgias diante de um burro ou consagravam seres grotescos, o filósofo da cultura mostrou como a expressão carnavalesca desmontava a aparência aceitável, criticava as hierarquias e colocava simbolicamente no centro os marginais, loucos ou descredenciados. Para Bakhtin, as expressões carnavalescas serviam como denúncia satírica da ordem estabelecida, materializada em figuras monárquicas, eclesiásticas ou jurídicas. Como bem explicou Claudiana Soerensen, em um bonito artigo, “é o locus privilegiado da inversão, onde os marginalizados apropriam-se do centro simbólico, numa espécie de explosão de alteridade, onde se privilegia o marginal, o periférico, o excludente”. Nesse sentido, as expressões carnavalescas seriam uma crítica cômica ao mundo e suas injustiças. Para essa perspectiva, o estrato simbólico mais básico da intervenção carnavalesca é o riso, expressão coletiva e denunciadora das estruturas sérias e formais. É O riso subversivo, desestabilizador, por vezes proibido. Então, mais do que tempo de entretenimento ou alienação, a história do carnaval mostra-nos seu radical poder de carnavalização cômica do mundo e suas contradições. Ele é, em última instância, manifestação profética da alegria recheada de insurreição. Nesse sentido, o carnaval brasileiro deveria perceber-se e tornar-se lugar de denúncia direta ao funcionamento risível do Brasil. 

Talvez, para muitos brasileiros e brasileiras desumanizados/as e tolhidos/as de seus direitos o riso carnavalesco seja a única possibilidade de desestabilização, mesmo que simbólica, da seriedade de magistrados hipocritamente insensíveis, políticos de corrupta austeridade ou líderes religiosos de piedade pervertida e aliciadora. Por isso, o povo precisa rir, rir às escarradas, até seus algozes e suas estruturas injustas tornarem-se pó!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

REFORMA DA PREVIDÊNCIA, O CONVITE DE TEMER AOS PASTORES E A IRA DE JAVÉ

Provavelmente, não tenhamos a noção das consequências desastrosas da aprovação da Reforma da Previdência, cuja intenção é reformular as regras da aposentadoria. Para piorar, a questão tornou-se, também, teológica. Segundo notícias, Temer, maior interessado, marcou uma conversa com pastores evangélicos em busca de apoio, especialmente porque alguns desses líderes têm ovelhas e amigos na lista dos deputados. E mais, seus púlpitos e mídias, ou púlpitos midiáticos, são muito úteis. Por isso, cabe, antecipando a ignomínia, abrir as discussões e estabelecer as disputas teológicas. Para avaliarmos a partir da fé, lugar que Temer deseja preencher ao chamar esses líderes evangélicos, é preciso uma rápida averiguação da questão e suas manobras discursivas, especialmente por parte dos apoiadores das reformas.
Para os defensores do presidente, afirma-se que há um déficit no caixa da Previdência: “o país está em crise, os gastos previdenciários são altos, logo, não temos nenhuma alternativa senão mudarmos o sistema de arrecadação e disponibilização dos valores destinados aos aposentados”. Essa justificativa e suas estratégias argumentativas não são integralmente honestas. A maior razão do déficit não é o que se paga aos aposentados, o tempo de contribuição ou o custo para Previdência. O principal problema é a desoneração e os benefícios ficais concedidos pelo Governo às grandes empresas. Como dizem os especialistas, “mais 60 bilhões de reais que teriam de ser recolhidos por meio das contribuições previdenciárias aos cofres públicos desaparecem em razão dessas políticas de incentivo ao setor privado”. A União não cobra das empresas sonegadoras e ainda entrega a elas a possibilidade de pagarem menos tributos legalmente. Como dizem os avaliadores técnicos, “é o próprio governo que provoca o déficit e não o aumento dos gastos”! Segundo uma pesquisa do Ministério da Fazenda, o rombo da Previdência seria 40% menor sem as renúncias fiscais das empresas. Por causa disso, com os benefícios concedidos às empresas o INSS deixou de arrecadar R$ 57,7 bilhões em 2016! Ainda, como explica a economista Denise Gentil, “o déficit foi provocado pelo pagamento de juros, o maior gasto do orçamento do governo. Enquanto o déficit anunciado da Previdência pelo governo é de 149,7 bilhões de reais, o governo entrega ao setor privado algo em torno de 501 bilhões ao ano, ou seja, 8% do PIB. A conta não fecha, principalmente, pelo gasto com a dívida pública. O ajuste fiscal que pretende cortar os gastos da Previdência não vai resolver o problema das contas do governo porque, para isso, é preciso corrigir a política monetária. A verdadeira reforma teria que ser na política monetária e cambial do Brasil, porque é responsável pelo crescimento da dívida pública”. Então, para combater “a crise” não seria aumentando o tempo de contribuição, diminuindo valores ou dificultando o acesso à aposentadoria, mas mudando a política monetária, diminuindo benefícios dos mais poderosos, suas grandes corporações e as irresponsáveis iniciativas privadas [perceba que eu disse “as irresponsáveis”]. Olha a ironia do destino. O próprio presidente da câmara, antigo amiguinho do Temer, o mesmo que aceitava suas tramoias, afirmou num encontro nos EUA que o setor privado brasileiro se beneficia do Estado e as isenções e incentivos a empresários inviabilizam as contas do governo e uma agenda social séria no Brasil. Interessante isso!
No entanto, a coisa não para por aí. Há uma informação que nos é negada e pode desmontar o alarde da Previdência estar quebrada. O governo não calcula como receita previdenciária a arrecadação gerada pela Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (Cofins), PIS-Pasep e loterias, embora o sistema de seguridade preveja a contabilização dos impostos. Então, é preferível meter a mão no bolso e prejudicar o futuro dos mais vulneráveis, isentando empresários e iniciativas privadas, escondendo informações e criando narrativas de “mal necessário”! “Imagine, mesmo contribuindo por 25 anos, o trabalhador não terá direito à aposentadoria integral. Por exemplo, se um trabalhador contribuir com uma média de 2.000 reais durante 25 anos, ele receberá uma aposentadoria de apenas 1.520 reais quando chegar aos 65 anos de idade. Caso queira receber um valor superior, o brasileiro deverá continuar no mercado formal após os 65 anos ou começar a trabalhar aos 16 anos. Na prática, para ter acesso à média integral do valor contribuído, será preciso trabalhar formalmente por 49 anos”, afirmou em 2016 Renan Truffi. E isso poderia ser evitado caso os verdadeiros causadores não recebessem alguns benefícios e isenções, possibilitando regularizar a balança. No fim, quem vai gostar muito disso? Como dizem especialistas: “A reforma também tem outro objetivo: achatar os gastos públicos. Ao fazer isso com a Previdência e com a Assistência Social, ela também vai liberar mais recursos para pagar juros. E os grandes proprietários de títulos públicos no Brasil são os mesmos dos fundos de previdência, que são os fundos dos bancos”. Perde o povo, ganham os vampiros! Temos noção das futuras consequências? Além do empobrecimento na velhice, alguns, ao perceberem que no fim da vida não receberão um valor minimamente digno, não contribuirão, os quais cairão, quase coagidos, de mãos beijadas na iniciativa privada, esvaziando os cofres da Previdência!
Por conta disso, temo o Temer instrumentalizar esses pastores, com grandes audiências e influências na mídia e no congresso. Sob a égide da fala teológica, eivada de interesses pessoais, esses líderes religiosos podem viabilizar na consciência dos nossos irmãos e de seus colegas do legislativo a proposta dessa Reforma. Contudo, a partir desse lugar/questão, podemos ler Is 1, 10ss e usarmos como óculos de discernimento para não cairmos nisso.
No texto, o profeta, em 1,10, abre um novo conjunto de discussões convocando seus interlocutores a ouvirem a voz do Senhor, ao mesmo tempo que os chama de Sodoma e Gomorra. Pelo que parece, algo de muito sério estava estabelecido na nação, a ponto da memória dessas duas cidades serem aplicadas aos cidadãos, em especial à liderança. No decorrer do anúncio, somos informados sobre a causa do descontentamento profético. O profeta denuncia o discurso dissimulado dos operadores da religião, os quais tornavam as práticas rituais instrumento mascaradores da opressão e falta de compromisso com a justiça (v.11-15). Os sacríficos, os cânticos, as ofertas e incensos tornaram-se objetos de blasfêmia, porque serviam como ocultadores das condições desumanas e odiadas por Deus. Por isso, “quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei” (v.15). O discurso religioso estava a serviço da ocultação de perversidades! Isaías, no sopro de Javé, percebe o esquema dissimulado e descortina o funcionamento dessa perversão e anuncia, como uma escolha irrevogável: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas”! (v.16-17).
A voz do profeta precisa ser ouvida hoje. A questão da narrativa de déficit previdenciário e Reforma escondem detalhes importantes e ocultam interesses impiedosos. O apoio religioso de pastores e líderes evangélicos tornaria, mais uma vez, a tradição de fé e suas práticas instrumentos dissimuladores dos verdadeiros problemas e impiedades, inclusive com falsa imagem de aprovação divina. Certamente, restaria somente a ira de Javé e sua impaciência com tamanha irresponsabilidade.
Esses convidados de Temer necessitam da iluminação das Escrituras e o temor a Javé para não servirem seus corpos e influências aos interesses anti-Reino/evangelho de grupos ladeados pelo presidente da República. Esperamos que Deus ajude a igreja brasileira no discernimento, impedindo-nos de cairmos nessa armadilha.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Como assim “essa gente incômoda”? Sobre o artigo da Veja.


Nestas últimas semanas, as mídias sociais foram bombardeadas por uma enxurrada de respostas ao artigo “Essa gente incômoda”, publicado pela revista Veja e assinado por J.R Guzzo. Ao lê-lo e, ao mesmo tempo, acessar as críticas, inclusive de instituições denominacionais (A CGADB publicou uma nota oficial a respeito), fiquei me perguntando se estavam falando do mesmo texto. Pensei: nossos irmãos não leram o texto inteiro ou temos sérios problemas de interpretação morfossintática! A primeira opção não deve ser descartada, pois o artigo só foi disponibilizado para assinantes, e é possível que isso tenha gerado manifestações apologéticas precipitadas. Se a segunda for a melhor opção, infelizmente, necessitamos dar a mão à palmatória e avaliarmos o nosso nível de leitura, compreensão de texto ou, até mesmo, enrijecimento destemperado, típico de “gato escaldado com medo de água” – e não sem motivos, porque, como o próprio texto mostra, por vezes há generalizações rasas em relação ao multifacetado movimento evangélico brasileiro. Independentemente das possíveis razões para esse frenesi, desejo interpretar o tal artigo rapidamente (para não ser, também, mal compreendido, porque quem fala muito acaba não sendo lido integralmente).
Antes de qualquer coisa, precisamos entender que o autor do artigo usa a ironia, a interdiscursividade (ecoa os discursos dos quais critica) e aplica uma linguagem ambígua, para tornar o texto mais atrativo, polêmico e vendável (não se esqueçam de que a revista, mesmo online, é paga!). Fazendo isso, correu o risco de ser interpretado precipitadamente, especialmente ao usar (entre aspas) as falas dos preconceituosos que ele mesmo satiriza, abrindo portas para confundirem o discurso dos interlocutores com o dele – aqui está o principal ponto de tensão com os evangélicos ofendidos. Sem mais delongas, vamos ao conteúdo da reportagem.
O artigo é dividido nitidamente em duas partes. Os dois primeiros parágrafos são introduzidos por uma afirmação cujo desenvolvimento acontece logo em seguida. Guzzo vaticina, mesmo que sem muitas bases acadêmicas, que os evangélicos brasileiros são alvo de preconceito e isso revela a fragilização da liberdade religiosa brasileira. Para um país democrático e laico, confessar esse tipo de postura é vergonhoso, mesmo porque os por ele denunciados dessa ardil perspectiva se acham o mainstream da intelectualidade nacional. Em suma, quem são esses contrários à liberdade religiosa? Guzzo os chama de “classes mais altas” e “consideradas as mais civilizadas”. Perceba, quando ele diz “consideradas” não está confirmando tal afirmação, mas indica o que pensam sobre si mesmos. A partir daí ele começa uma série de ironias zombando da arrogância desses paladinos da intelectualidade brasileira. Guzzo apresenta como essa classe trata os evangélicos: desprezo, irritação e antipatia. Por favor, entenda, o autor não está dizendo que os evangélicos sejam isso, mas refere-se aos supostos intelectuais como portadores dessa percepção. O artigo, mesmo sendo mal interpretado, denuncia esses supostos “civilizados” como ignorantes e preconceituosos. Basta continuar a leitura para compreendermos sua ironia. Essa classe arrota que são “mais ricos, mais instruídos, mais viajados, mais capacitados a discutir política, cultura e temas nacionais”. Por isso, ele usa ironicamente as expressões “sabe-se” e “são geralmente descritos assim”. Leia com cuidado, porque a imagem descrita dos intolerantes é uma caricatura arrogante deles mesmos e quando se refere aos evangélicos o texto usa a mesma estratégia literária: apresentar caricaturas. Ou seja, quando ele fala desse “povo, em grande parte do ‘tipo moreno’, ou ‘brasileiro’, vem sendo visto com horror crescente pela gente de bem do Brasil”, e coloca entre aspas “moreno” e “brasileiro”, está ecoando a maneira como essa suposta elite interpreta os evangélicos. Aqui, mostra-se o racismo desse grupo preconceituoso, o qual descredencia os evangélicos não somente por serem vistos como retrógrados, mas, também, por serem identificados como pobres e negros. Além disso, o texto revela esse preconceito como um sintoma de ódio ao próprio Brasil, porque o país é multicultural e mestiço. Essa elite é, consequentemente, à luz da argumentação do texto, negadora da própria brasilidade, cujo desejo é uma nação inexistente, a imagem e semelhança deles mesmos. Primeiramente, o autor com essa fala não diz concordar com essa imagem, mas é a elite preconceituosa que assim o faz. E mesmo que seja, no fundo, a sua opinião, o autor esconde discretamente e é hipócrita o bastante para criticar os preconceituosos por ele apontados. Por isso, não é possível, com justiça, acusá-lo disso. Segundo, os evangélicos serem em sua maioria pobres e negros não é um demérito na perspectiva do autor, mas para a elite preconceituosa. A canção As Caravanas (2017) de Chico Buarque faz o mesmo, descreve criticamente usando a linguagem dos preconceituosos, a caricatura das elites cariocas em relação às comunidades que descem dos morros para partilharem os espaços nas praias da cidade maravilhosa. Guzzo afirma que “nada é tão fácil de perceber quanto um preconceito que se pretende bem disfarçado”. Ele chega a denunciar a própria mídia como parte desse grupo: “Os meios de comunicação, por exemplo, raramente conseguem escrever ou dizer a palavra ‘evangélico’ sem colocar por perto alguma coisa que signifique ‘ameaça’, ‘medo’ ou ‘perigo’”.
O texto mostrará, ainda, as outras razões do preconceito enraizado na leitura desses que se acham “povo de bem”. Novamente, entenda, Guzzo não diz que ele e/ou esse grupo seja/am o povo de bem. Isso é uma ironia! Como às vezes dizemos para um amigo arrogante: “diga ai sabichão“. Quando usamos essa estratégia discursiva não estamos afirmando que ele seja sábio (“sabichão”), mas o contrário. Se esse grupo preconceituoso trata os evangélicos como minoria conservadora, o autor deixa claro que hoje em dia eles são uma grande parcela do povo brasileiro. Por isso, a bancada evangélica, alvo das duras críticas desses intelectuais citados no artigo, não representa uma minoria fora de lugar, como querem os satirizados pelo autor na revista. O artigo fala duas coisas sobre isso. Primeira, os parlamentares são tratados como um corpo estranho e unitário. Quando se afirma “São tratados como uma coisa só — e ruim”, critica-se a pouca informação dos acusadores preconceituosos, porque pensam que os políticos evangélicos são todos iguais e ruins. Segunda coisa, para o autor o Brasil de primeiro mundo, e ele coloca entre aspas, progressista e bem avançado nas pautas citadas (“matéria de família, sexo, crime, polícia, drogas, educação, moral, propriedade privada e mais umas trezentas outras coisas”) é uma ilusão de ótica desses grupos preconceituosos. Em suma, o conservadorismo evangélico – para o autor nem todos são assim e tratar de maneira generalizada é um dos erros dessa elite –, não é coisa de evangélico, porque em geral a nação é conservadora em relação a esses temas. Para tais intelectuais progressistas, segundo o autor, os evangélicos são inconvenientes, porque atrapalham o bom andamento do Brasil por eles idealizado. Contudo, Guzzo coloca-os na realidade e diz: o brasileiro é assim, pensa dessa forma, vota dessa maneira. Consequentemente, o próprio Brasil, então, é inconveniente. Como o texto diz, “[...]. Ou seja: o problema dos evangélicos está nas suas convicções como cidadãos. No fundo, é a mesma história de sempre. O que atrapalha o Brasil, na visão das pessoas que se consideram capacitadas a pensar, são os brasileiros. O povo brasileiro, de fato, é muitas vezes inconveniente — principalmente quando vota. Os intelectuais, preocupados, lamentam o crescimento da bancada evangélica — mas raramente se lembram de que ela só cresce porque cresce o número de eleitores evangélicos”. Esses evangélicos, na verdade, diria o autor, compõem o Brasil, querendo eles ou não. Quando usa a expressão “pode ser uma pena”, está mais uma vez jogando com a maneira desses supostos intelectuais tratarem as coisas. Como se dissesse: sendo bom ou não, os evangélicos representam uma grande parcela do Brasil. Desta forma, para o autor, o Brasil é isso também, ou mais isso do que qualquer outra coisa. Não dá para saber se Guzzo se sente incomodado com essa força evangélica. Isso é ir muito além do texto. A única coisa deixada para nossa leitura é a afirmação da necessidade de aceitação da realidade do crescimento evangélico, dado incômodo não para ele, mas para esses criticados no artigo. É como se os intelectuais indicados esperassem ingenuamente outra realidade. Aqui podemos fazer uma pequena crítica. O autor se esqueceu de dizer com mais exatidão a respeito da presença de políticos e pastores progressistas. Contudo, entendo que ele deseja gastar tempo mostrando a pouca habilidade democrática desses preconceituosos. E, se querem um país plural precisam aceitar a presença de grupos com posturas não progressistas. Aqui, pelo histórico da revista Veja, essa parte do mundo evangélico se adequa mais à pauta editorial do que as elites criticadas na postagem.
Na segundo parte do artigo, para dar ar de imparcialidade, Guzzo expõem alguns problemas públicos do mundo evangélico. Com exemplos, ele indicará como, por vezes, as igrejas evangélicas se portam de maneira estranha e repreensível. Para isso, cita algumas fraudes: “Pastores, bispos e outros peixes graúdos tomam dinheiro dos fiéis, sob a forma de donativos, em troca de ofertas a que obviamente não podem atender: desaparecimento de dívidas, expulsão de demônios, cura de doenças, enriquecimento rápido, eliminação do alcoolismo, dependência de drogas e outros vícios — enfim, qualquer milagre que possa ser negociado. Diversas igrejas se transformaram em organizações milionárias, e muitos dos seus líderes são charlatães notórios — alguns deles, aliás, já chegaram a ser presos por delitos variados em viagens ao exterior. Estão acima do Código Penal e da Lei das Contravenções em matéria de fraude, trapaça e quaisquer outras formas de estelionato”. Como pastor e inserido entre os evangélicos, sei que todas essas acusações, em vários casos, são verdadeiras; ou você nunca leu no jornal ou presenciou alguma ação desonesta em ambiente eclesiástico? Mas isso é afirmar que todas as igrejas são assim? NÃO, claro que não! É exatamente esse cuidado que o texto tem. Guzzo indica alguns vacilos históricos midiaticamente conhecidos de líderes e instituições, mas afirma que “[...]. São o joio no meio do trigo”. E, ainda, querendo ou não, os privilégios jurídicos das instituições religiosas facilitam essas manobras. No entanto, ele, novamente, discreto o bastante para não mostrar-se contra tais conquistas jurídicas, somente afirma, por ser um assunto complexo, que “ninguém realmente sabe o que fazer de prático a respeito disso”. Talvez, você se incomode com a frase “há tanto joio nas igrejas evangélicas que fica difícil, muitas vezes, achar o trigo”. Avalie, ele não é evangélico e nos conhece superficialmente. Seja por preconceito ou por precipitação, alguém de fora chegar a essa conclusão deveria gerar em nós reflexão e descontentamento em relação a alguns erros cometidos. Infelizmente, e digo com consternação, a imagem criada publicamente por nós evangélicos não é muito oportuna. E ele, mesmo vivendo para além dos muros do arraial evangélico, conclui ser uma escolha pessoal ir ou não a igreja, dar ou não dinheiro, aceitar ou não as promessas por vezes mirabolantes de pregadores apoteóticos etc. Achei isso democrático e responsável. Os que são “trigo” e não podem ser contados entre essa lista de ações desonrosas não se sentirão caluniados. Pelo contrário, farão coro e denunciarão tais mazelas.
Por fim, Guzzo novamente ironiza essa classe preconceituosa. Mesmo supostamente progressista e democrática, seus componentes são capazes de desejarem o sumiço daqueles que desagradam. Para ser ainda mais duro, ele deixa de lado as meias palavras e faz uma amarga crítica: “É duro, mas o fato é que, num momento em que apoiar a diversidade passou a ser a maior virtude que um cidadão pode ter, fica complicado sustentar que no caso dos evangélicos a diversidade não se aplica”. Assim, o artigo joga na cara dos preconceituosos sua hipocrisia, porque desejam ser aceitos em suas expressões por vezes vistas com incômodas, e chamam de conservadores seus antagonistas, mas quando é a vez desses serem tolerantes e democráticos, mostram sua face nitidamente intolerante. E, para terminar como começou, zomba com a paciência desses grupos preconceituosos: “Em todo caso, para quem não gosta dessas realidades, é bom saber que os evangélicos, muito provavelmente, são um problema sem solução”. Esses são um problema para quem? Para o autor? Claro que não! Eles são incômodos para essa elite intelectual citada pelo artigo.
Ao contrário da interpretação rápida de alguns, o texto está zombando não dos evangélicos, mas da elite supostamente intelectualizada. Para os evangélicos conservadores, essas palavras não são desrespeitosas, porque garantem a eles o direito de pensarem, defenderem e votarem do jeito que desejarem. Por outro lado, os evangélicos mais progressistas poderiam se ofender por pelo menos duas razões. Não serem lembrados no texto e, talvez, colocados entre as elitistas intolerantes. Na verdade, o grande problema nesse rebuliço todo foi a má interpretação do gênero ironia, uma estratégia literária muito difícil de ser discernida e cheia de labirintos semânticos, os quais tornam-se insuperáveis quando estamos com pressa ou complexados.
Ainda, é preciso destacar que a publicação não está falando dos progressistas abertos ao diálogo ou até mesmo dos evangélicos filiados às pautas não conservadoras; nem sei bem se ele conhece esse outro lado da moeda. Além disso, com um olhar mais acurado, é possível perceber que os progressistas são os mais atacados no texto. Ainda, é possível encontrar indícios no artigo que denunciam, inclusive, sua filiação conservadora e não o contrário. No entanto, essa é outra discussão...   
      
                    


terça-feira, 4 de abril de 2017

Análise do documentário “O Diálogo Entre Fé Cristã e Ciência no Brasil” (ABC²)

Assisti esta semana, mais de uma vez, ao documentário “O Diálogo Entre Fé Cristã e Ciência no Brasil”, produzido pela Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²). Estava ansioso para vê-lo, porque ao ouvir alguns dos membros da ABC² a respeito do lançamento do vídeo, vislumbrei uma proposta que trataria desse tema já privilegiado com diversos livros e produções seguindo outro caminho, menos repetitivo. Fiquei muito curioso, especialmente, para saber como avaliariam os trabalhos, descobertas e realizações das ciências modernas e os estudos bíblicos. Esse meu interesse se deu porque imaginava um documentário que sairia do lugar comum da tentativa de adequar as informações, visão de mundo e compreensão das relações humanas encontradas na Bíblia às expectativas da (s) ciência (s) – inclusive, esse caminho é seguido para se confirmar a dignidade e confiabilidade das Escrituras. Por isso, posso afirmar, sem cinismo, que minhas expectativas eram as melhores.

Quando acessei o vídeo, logo no primeiro contato fiquei um pouco decepcionado com o tempo do documentário, um pouco mais de 29min – se esse não é o documento todo e há outra versão completa, não leve em consideração a maioria das ponderações a seguir. Pelo que tenho acompanhado das falas e textos de alguns dos responsáveis pelo documentário, ou ao menos daqueles com presença constante no vídeo, o diálogo “ciência e fé” é parte importante das suas preocupações. Por essa razão, esperava um material mais denso e com menos divagações. Talvez, o uso do gênero vídeo de youtube tenha forçado produzir um documentário com conteúdo menos enfadonho e curto pensando nos consumidores com pouco tempo.

Deixando de lado as minhas primeiras impressões, quero apresentar algumas reações ao documentário, as quais podem ser consideradas como questões iniciais:

1. No final do documentário fica uma sensação estranha de que o vídeo não chega (ou não trata de maneira direta) ao centro de sua maior questão: o (danado) diálogo entre “ciência e fé”. É repetido por diversos entrevistados que há uma necessidade urgente da aproximação, do diálogo, da ponte etc. Mas, no frigir dos ovos, não se indica, nem se rascunha, como seria esse diálogo, os espaços para sua realização, quais tipos de dificuldades devem ser vencidas em termos de método e aplicação de referenciais teóricos etc. Não há sequer um exemplo prático dessa tentativa. E, pensando no discurso do texto, seguindo a escola francesa de Análise do Discurso , percebe-se, pelo menos em dois ou três momentos do vídeo, a identificação (defesa) dos membros do ABC² como personagens aptos para serem os protagonistas do diálogo indicado no título do documentário. É possível se ler isso quando a voz narrativa do vídeo repete por várias vezes o mote da atual necessidade de cientistas e/ou pensadores cristãos capacitados e proeminentes cumprirem a missão do diálogo “ciência e fé”, e, concomitantemente, no mesmo enquadramento voz-imagem, aparecerem os membros desde grupo falando ou em performance de reunião. Essa minha intuição não desqualifica a afirmação que subjaz dessa análise das imagens e narrador. Creio, inclusive, na capacidade do grupo, mas me parece que se gastou menos tempo com a maneira como esse diálogo poderia ser feito do que apontando aqueles com as condições aprovadas para realização de tal tarefa.

2. Outro ponto que me levou a pensar foi o recorte para caracterizar o “científico”. Fiquei com a impressão de que para o diálogo com a fé somente as ciências naturais, ou duras (para usar uma expressão sem unanimidade), podem entrar na roda da conversa, deixando-se de lado as ciências humanas e sociais. Isso não é periférico, porque muitas pesquisas relacionadas ao comportamento humano, formação e funcionamento da cultura, relações de gênero etc. são espinhos para algumas percepções religiosas e, especialmente, quando tentam aproximá-las às perspectivas bíblicas com suas propostas, por vezes, vinculadas ao imaginário, compreensão de mundo e relações sociais do Mundo Antigo. Aqui chegamos ao link para a discussão relacionada às Escrituras e a maneira como o documentário trata esse assunto.

3. Uma afirmação que perpassa o conteúdo do vídeo – afirmação que gosto muito, especialmente por sua beleza poética – é de que as descobertas a respeito do funcionamento do cosmos, dos movimentos da natureza e o descortinar da dinâmica da vida natural revelam a grandeza e sabedoria de Deus, que é o Arquiteto de tudo isso. Nesse sentido, compreender a criação é ver a beleza do seu Criador. Ótimo, fiquei muito tocado. Contudo, essa concepção só é possível com o pressuposto criacionista e cristão, o que talvez não tocaria muito ou faria sentido para um cientista que está mais disposto em compreender o movimento dos astros e seu funcionamento do que saltar para o reconhecimento de que a divindade é causa de tudo isso. Mesmo que revele uma Inteligência original, não sei bem se nossos pares de discussão teriam sensibilidade ou isso estaria em sua agenda. Claro que para os homens e mulheres da fé esta proposta faria muito sentido e contribuiria com sua experiência de Deus, o que seria difícil esperar de cientistas não religiosos.

4. Seguindo o raciocínio do ponto 3, que é continuidade do link do ponto 2, brota-me uma pergunta: e quando essa compreensão do funcionamento natural for de encontro ou não se adequar exatamente à maneira como a Bíblia pensa o mundo ou imagina a organização do cosmos? Um dos entrevistados responde que a “ciência é o que se sabe até aqui, e o que se sabe até aqui parece estar em contradição com a Bíblia, mas a ciência avançando pode ser surpreendida”. Ou seja, ele afirma que há na ciência um espaço do “não saber” que agora, aparentemente, contradiz à Bíblia, mas no futuro terá (poderá) que se retratar por conta de novas descobertas, as quais se adequarão ou mostrarão que a Bíblia era compatível às suas afirmações. Destaca-se também na fala acima a ideia de que na ciência há um saber do “até aqui”, pois esse ainda não está completo. Sim, concordo. Mas é quase uma inocência querer que as afirmações bíblicas, em relação ao conhecimento sobre o funcionamento da natureza, já esteja no “lá”, naquele nível ao qual ainda a ciência não chegou e quando chegar dará à mão a palmatória para admitir como a Bíblia sempre foi o manual que a ciência precisou consultar, mas por rebeldia não consultou. Não sei bem se tal perspectiva seja inteligente. É um tiro no próprio pé. Creio ser muito mais honesto e piedoso admitir que os textos bíblicos foram escritos em um tempo em que a visão de mundo, a compreensão do funcionamento do cosmos e a percepção da phisis (natureza) eram outras. Não vejo como produtivo, por exemplo, tentar adequar às ciências da natureza em geral as afirmações das Escrituras, pois, obviamente, pertencem ao Mundo Antigo, que possuía outro paradigma de conhecimento e diferentes mediadores de acesso à realidade. Isso não quer dizer que a Bíblia seja falsa, mentirosa, ultrapassada ou não sirva para nossa vida hoje, mas simplesmente não precisa corresponder ou se adequar às expectativas das ciências modernas. Além disso, o texto bíblico, para defender sua importância, não tem o dever de compreender o mundo como as ciências compreendem. A garantia do valor de inspiração das Escrituras não se estabelece através da compatibilidade com as afirmações sobre o mundo expostas à luz do paradigma de conhecimento da Modernidade, mas por sua potencialidade de revelar Deus e sua Palavra.

5. No mesmo enquadramento do vídeo, outro entrevistado, logo depois do citado no ponto 4, afirma que “nós precisamos aproximar a Bíblia da ciência, mas não juntar as duas coisas (...). (...) Devemos tratar como trilhos, próximos o suficiente para que o trem da existência passe sobre eles, mas não tão próximo ou tão distantes que o trem descarrile”. Com uma perspectiva diferente à fala anterior, estaria essa metáfora defendendo que tanto a Bíblia como as ciências modernas exercem seus saberes cada qual em seu espaço de conhecimento? Ele intentou afirmar que o ser humano tem nas ciências e na Bíblia duas possibilidades de explicar a realidade sobre as quais a humanidade segue seu caminho dando sentido à vida? Se sim, as duas me parecem interessantes, porque revela como os dois saberes possuem traços que não se misturam, e são possibilidades separadas/diferentes de compreensão do mundo. Isso impediria fazer com que uma se rendesse a outra ou as duas se misturassem como se estivessem falando da mesma coisa, mas com palavras diferentes (Deixe-me fazer uma divagação neste ponto. Dizer que a ciência e a Bíblia falam da mesma coisa com palavras diferentes é deixar de lado a grande obviedade: as ciências modernas funcionam sobre um paradigma de compreensão da realidade totalmente outro daquele que está nas bases de qualquer texto e discurso produzidos no Mundo Antigo, inclusive da Bíblia).

6. Seguindo a discussão do ponto 2, desdobrada nos pontos subsequentes, é inegável que as ciências humanas, há algum tempo, servem às ciências bíblicas para compreensão dos textos. Muitas pesquisas são realizadas com referencias teóricos desses campos disciplinares, os quais dão luz aos contextos da Bíblia e promovem diversas releituras. Por outro lado, a Bíblia cristaliza relações e lugares sociais, concepção a respeito do corpo etc. que as ciências da cultura demonstram sua transitoriedade histórica.

7. Ao pensar, a partir do documentário, a respeito do diálogo entre ciência e fé, aqui especificamente entre a Bíblia e as ciências humanas, eu faria algumas perguntas ao pessoal da ABC²: até que ponto as perspectivas modernas a respeito das relações de gênero, funcionamento social etc. poderão “dialogar” com textos bíblicos que se revelam, em vários lugares, incompatíveis aos horizontes das propostas dessas ciências desenvolvidas para o estudo do dado social? Como as ciências sociais, por exemplo, comportar-se-iam nesse diálogo diante de textos bíblicos com propostas contrárias aos estudos culturais a respeito de formação étnica, questões de gêneros etc.?

Acho que as ciências (duras ou moles) foram, são e sempre serão úteis aos estudos bíblicos e à fé cristã. No entanto, depende muito da maneira como tratamos Bíblia, fé e ciência. Definitivamente, interesses apologéticos de quaisquer dos dois lados dos pares resultará em pouca contribuição.

Como seria, então, esse diálogo na prática? Esperava alguma indicação no documentário. Eu, pelo menos no trato com a Bíblia, não espero que o texto sagrado responda aos anseios das ciências modernas, e a tenho como uma proposta de olhar sobre o mundo, a qual precisa de procedimentos interpretativos equilibrados para produzir vida e salvação.

terça-feira, 7 de março de 2017

Não venha com conversa fiada! Sim, no Brasil, o preconceito ainda mata e silencia!


Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no artigo 4º, é dever, e não opção, da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público (resumindo: É responsabilidade de todos/as nós!) assegurar (ou seja: tornar possível, fazer acontecer, efetivar) à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade (!), os direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. E, ainda, em Parágrafo único, o ECA determina para todos nós o dever de priorizar a efetivação da proteção e socorro, em quaisquer circunstâncias, a preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas e a destinação privilegiada de recursos públicos relacionados à infância e à juventude. No entanto, esse lindo texto de promoção de direitos e exigências de deveres não se aplica, na prática, às crianças pobres e deixadas às margens. Isso ficou bem claro no caso do menino João Vitor, de apenas 13 anos, morto em Vila Nova Cachoeirinha, em frente de um Habib’s da zona norte de São Paulo. Esse crime escancara a face mais cruel da lógica preconceituosa do nosso país. Vitor foi arrastado, agredido, violentado, desumanizado e morto, no meio da rua, como se fosse um lixo dispensado na sarjeta. A barbárie é ainda maior, porque João Vitor (e faço questão de repetir seu nome em todo texto!) estava naquele Habib’s mendigando o que lhe era de direito: alimentação!

O júri informal e imoral foi estabelecido imediatamente. Ali, na rua mesmo, o Habib’s e seus funcionários, usando do princípio do preconceito, decretaram para Vitor a pena máxima – a mesma que é aplicada diariamente a outras crianças pobres e jovens negros do nosso país –, o veredito de morte. Qual o crime? – Ser catador de recicláveis, ser pobre! Nas palavras de seu pai, Marcelo Fernandes de Carvalho: “Ele teve uma morte que não se faz nem com animal. Meu filho era humilde igual eu, catador de lixo. Ele pedia, mas não roubava nada de ninguém. O moleque foi espancado por causa que estava pedindo um real para comer um lanche”.

Depois, tornando o caso ainda mais trágico e vergonhoso, a informação da Sra. Sílvia Helena, testemunha ocular, foi desdenhada e desacreditada. Mesmo sabendo detalhes do crime, ela não foi ouvida. A razão? Ora, a mesma que matou João Vitor: ser catadora de recicláveis, ser pobre. Neste país, onde se torna culapado/a o violentado/a, se naturaliza o sistema de má distribuição dos bens, se valoriza o sucesso de poucos à custa da ocultação do de-sucesso de muitos e se defende a lógica social darwinista/meritória, catar papel e pedir comida é crime inafiançável e prova irrefutável de culpa. Então, não venha com conversa fiada! Sim, no Brasil, o preconceito ainda mata e silencia!
O sacrifício do João Vitor é símbolo da nojenta, indigna e maligna/diabólica naturalização da discriminação contra pobre, preto, mulher, índio, nordestino, homossexual e outros grupos desumanizados, os quais, por vezes, são violentados e mortos por causa de sua cor, gênero, etnia ou orientação sexual.

Contudo, a fé que anima minha caminhada e ajuda-me interpretar meus dias, é alimentada por narrativas a respeito do Deus que nasce entre excluídos e lançados às margens. Ele é testemunhado por pastores, os mesmos que não teriam voz em um júri romano. Ou seja, o Nazareno recém-nascido foi proclamado por “Silvias”, catadores de resíduos. Nele, silenciados ganham voz. O Mestre, aquele que vigora a esperança e dá vida e razão à experiência pastoral, exige-nos indignação, compaixão e movimentação diante dessa “patologia social”, para que usemos nossa influência, força relacional, articulação política, presença pública e contados na criação de espaços conscientizadores e transformadores, os quais promovam ações preventivas e estruturantes contra a violência, o preconceito e desumanização. 

Bem-aventurados são os que têm fome e sede de justiça. Bem-aventurados os que não aceitam passivamente o tenebroso enredo da morte de João Vitor!

terça-feira, 8 de março de 2016

Até que seja um dia de comemoração... dia Internacional da Mulher!


No primeiro livro da Bíblia Hebraica (Gn 1,27), o projeto das relações de gênero, com linguagem originária, já é apontado. Homens e mulheres, sem desequilíbrio de direitos e valor, partilham a dignidade da imagem da eternidade: “à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”! O incidente de 8 de março, um dos mais vergonhosos da nossa história, que gerou esta memória em nosso calendário, foi um exemplo claro de descaminho de Gn 1,27. Infelizmente, as justas reivindicações das mulheres operárias de Nova Iorque, que geraram a intervenção assassina no fatídico episódio de Nova Iorque, em 1857, ainda não se efetivaram inteiramente. Impressionante, as mulheres ainda hoje amargam, segundo alguns dados, a realidade de ganharem 30% a menos do que os homens, mesmo que tenham em média melhor formação. O caso das operárias da fábrica da Duloren, em Vigário Geral, no Rio de Janeiro, só reafirma essa condição. A costureira Silvana, que trabalhava há quatro anos na fábrica carioca, testemunha que “em caso de doença, se a gente pegar atestado por mais de três dias, perdemos o direito à cesta básica”, que era de 100 reais! As pesquisas nos mostra, nos dez primeiros meses de 2015, do total de 63.090 denúncias de violência contra a mulher, 31.432 corresponderam a denúncias de violência física (49,82%), 19.182 de violência psicológica (30,40%), 4.627 de violência moral (7,33%), 1.382 de violência patrimonial (2,19%), 3.064 de violência sexual (4,86%) e 3.071 de cárcere privado (1,76%). E pior, dos atendimentos registrados pelo Ligue 180, 77,83% das vítimas possuem filhos (as) e que 80,42% desses (as) filhos(as) presenciaram ou sofreram a violência. Os exemplos e dados de negação de direitos poderiam ser empilhados, os quais demonstram que não é uma data para ser festejada, porque os desmandos, impropérios e violações desumanizadoras continuam escancarados diante de nossos olhos.

Enquanto as filhas do criador não tiverem seus direitos garantidos ou forem vítimas de violências, o dia internacional da mulher não será uma celebração, mas significará impulsão para luta. E, como povo de fé, não podemos nos acomodar e deixar de lado a pulsão profética. O profeta Isaías, ao ler o seu tempo e perceber as arbitrariedades dos membros da cidade, os quais se escondiam atrás de ritos frios da religião, denunciou: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? [...]quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue [...]”. E com voz estridente ele afirma o que deseja o Deus do Éden: “Aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas”. Por isso, não podemos descansar enquanto a justiça, desde os salários até o respeito público, seja feita para nossas irmãs!

Temos, minha esposa e eu, uma menininha de quatro anos. Seu sorriso e seu abraço são mais terapêuticos do que qualquer outra expressão de beleza que o mundo possa proporcionar. Ela e todas as meninas precisam viver em um mundo onde seus sonhos não sejam tolhidos por não serem meninos, nem suas intimidades expostas por aqueles que desejam mais uma cena de ridicularização. Precisamos construir um lugar onde ela e as demais poderão ter sua dignidade garantida e não estejam à mercê do vexame cotidiano das piadinhas desumanizadoras. Minha filha e todas as filhas precisam sentir que seus corpos não são objetos e independentemente da cor, classe ou etnia terão igual acesso aos bens que lhe são de direito. Enquanto isso não for garantido, não haveremos de celebrar, mas militar, para a glória Daquele que as criou.

Por aquilo que 8 de março proclama, até que seja realmente um dia de comemoração!

sábado, 2 de janeiro de 2016

Receita para o Ano Novo!


Receitas não servem para facilitar nossa vida. Pelo contrário, instigam-nos a tornarmos “coisa” o indicado no papel: o bolo tradicional, guardado de geração em geração pela matriarca e chefe da cozinha das nossas memórias; o doce incomparavelmente delicioso, como o qual não há outro qualquer igual; ou o prato que se aprende com uma anotação rápida plagiada de qualquer fonte do Google. Receita, com certeza, mais nos desafia do que afrouxa.
Desta forma, falar de receita para algo na vida não poderia ser diferente, será sempre desafiador! Ela nos convida a percebermos melhor detalhes que nos passam despercebidos e esquecermos ou colocarmos nas extremidades da área de nossas preocupações alguns pontos que entronizamos. Ora, não seria exatamente isso que Jesus dos evangelhos sempre fez? Ele o tempo todo exortava seus ouvintes a observarem pessoas, práticas e escolhas não muito valorizadas; como, também, insistia para que deixassem de lado outras que lhes pareciam tão centrais. Rondava-os, na perspectiva do Nazareno, o tempo todo, a possibilidade de soprarem moscas e engolirem camelos.
Contudo, a receita do mestre não era recheada de expressões de autoajuda, como as verborragias dos “passos para a vitória”. O auxílio do receituário de Jesus estava exatamente em não facilitar a nossa vida (porta estreita, caminho apertado etc.). É nesta perspectiva que acredito poder apresentar uma receita para o ano que está às portas e batendo – e mesmo que não abramos ele dará um jeito de entrar.
Para isso, convido o poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade, para me ajudar nesta tarefa. Ele define que o ano que chamamos de novo precisa ser belíssimo, sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido), cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser. 
Ele aponta que deve ser novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior), novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha. Este novo, para o escritor mineiro, é sem precedentes, único e transcendente!

Felizmente, o texto não somente coloca água em nossa boca, ao descrever este Ano que desejamos ter. Pelo contrário, ele lista um conjunto de detalhes em sua receita que devem ser descartados ou colocados em segundo plano por aqueles que esperam esse abençoado 2016: “não precisa fazer lista de boas intenções, para arquivá-las na gaveta; não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas; nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver”.
Para o poeta é muito simples, “para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo”. Ele ainda adverte: “É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”. 
Para que 2016 seja realmente um ano novo, não adiantam afirmações triunfais de que as coisas serão diferentes, nem resolve fazermos ritos e gritos de empoderamento. Nós é que devemos tornar o próximo ano a realização do Novo que cochila e espera desde sempre em nós. E para isso, basta-nos levarmos a sério a afirmação de Jesus de que odres velhos não suportam vinho novo!

Por isso, crie espaços para novos procedimentos e renovados modos de operação, desde a arte do falar às estratégias das escolhas. Não permita que as mesmas más experiências sejam vivenciadas por caminhos diferentes. Abra sua vida para o que realmente vale a pena, e o evangelho é um (o) indicador excepcional. Perdoe sem reservas, para que novos relacionamentos surjam de antigas relações. Olhe menos para as limitações das pessoas e deixe que suas qualidades te proporcionem momentos de crescimento e aprendizado. Destrone-se e destrua o reino das vontades pessoais (vontade de poder?), porque são odres velhos, e permita que o Senhor e o Seu Reino sejam sempre a novidade e o devir na tua história.
Que 2016 seja um ano Feliz e realmente Novo! 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

NATAL


Natal é o Deus que nasce de mulher pobre, em berço não esplêndido e nas extremidades de uma terra sem expressão. Confundem-se as expectativas apoteóticas quando o sinal para seu reconhecimento descredencia a pompa das belas roupas e mostra-se em panos simples. É estranho aos desejosos por poder, quando as primeiras testemunhas e arautos de sua chegada são pastores e ovelhas. O Deus-menino, nas linhas dos evangelhos, não se adéqua às convenções e esperadas feições da chegada de um rei. Pelo contrário, não se preocupa com as muitas honrarias comuns aos monarcas, muito menos faz questão do tumulto e do alarde das trombetas. A sua glória manifesta-se na fragilidade de um bebê.

Interessante como a simplicidade de Belém é presságio das suas futuras decisões. A manjedoura acolheu um Deus que acolheria àqueles sem acolhimento; cedeu espaço ao único imperador que as extensões de suas terras não seriam percebidas pelos vassalos acumulados, mas pelos homens e mulheres que aceitassem um projeto chamado Reino dos Céus.

O nosso Deus não se dá a conhecer com o espetáculo. Pelo contrário, escolhe traduzir a eternidade nas amarras da vida. Eis aí o milagre, o infinito na finitude, o inefável nas teias da linguagem, o imensurável na fronteira humana, o Senhor dos céus e da terra existindo em um menino. 

O anjo, especialista das coisas celestiais, confirma o paradoxo: aquele pequeno ser é o salvador, o Cristo, o Senhor. O coral da eternidade deu as boas-vindas anunciando a paz na terra e o Seu favor para com os homens. O céu e a terra se misturam, fazendo do mundo palco para o encontro da humanidade com a divindade. Assim, na história, Deus se tabernaculou e sua glória foi contemplada.

E o que faremos, pois? Resta-nos tornar nossa vida, escolhas e história uma manjedoura!

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Vinho velho em odres velhos: os evangélicos e o ano eleitoral






A parábola do vinho novo em odres velhos é citada em todos os evangelhos sinóticos. Ela é tão comum que também está no evangelho de Tomé, um texto dos cristãos gnósticos, não canônico, que para alguns é até mais antigo do que os canônicos (Crossan) – mas isso é outra história. Nesta parábola, sendo bem sucinto para não ser cansativo, Jesus mostra – usando no mesmo texto a imagem de retalho novo em roupa velha – a não adequação de seus discursos e propostas à estrutura religiosa na qual estavam os líderes judeus: não é possível vinho novo em odres velhos. O vinho novo, por conta de sua fermentação, estouraria o recipiente antigo feito de pele de animal, o qual não poderia mais dilatar. Vinho novo não cabe em odres velhos! Ou muda o odre ou não tem como receber a deliciosa e importante bebida do Mundo Antigo. A maneira como a Lei era interpretada, vivida, aplicada; o modus operandi da política, do sistema religioso, das relações Roma e Jerusalém vivido pelo judaísmo palestino não comportariam/suportariam o novo vinho do reino anunciado por Jesus.


Bom, o que isso tem a ver com a questão das eleições deste ano e os evangélicos? Em uma postagem escrevi que “tenho a sensação de que a participação do mundo evangélico, na caminhada para as eleições deste ano, será uma das mais desastrosas e vergonhosas desde a redemocratização!”. Por isso, disse que “já estão me dando arrepios as falas na mídia de algumas lideranças gospels a respeito das alianças ensaiadas e dos nomes lançados”. Em minha modesta opinião, a desastrosa e infeliz participação será o resultado natural do como estão entrando no processo, porque usam os mesmos instrumentos da velha política: lógica do “toma lá da cá”, que têm em suas bases o mais chulo do clientelismo. Além disso, algumas lideranças chamam de “presença evangélica” ou “grupo de defesa da família” o que é na verdade é uma espécie de criação de oligarquias evangélicas. Os evangélicos, que por um bom tempo, especialmente os pentecostais, disseram que política é coisa do diabo, estão agora preenchendo espaços utilizando-se do “jeito velho”, da conhecida velha política. Aquela carreirista, que se movimenta pelas brechas das leis eleitorais, quando não as burlam. A mesma, que troca favores com empresários e no fim precisa pagar pelo serviço/apoio. A tão conhecida, que alimenta projetos pessoais e não interesses ideológico-partidários. A tal da “representação de nós mesmos”, na qual o “nós” são sempre os “mesmos”. A velha política dos que buscam aliados não por sua postura e capacidade de representação dos interesses do povo, mas pelo seu poder de financiamento, sua influência, suas relações com quem tem mais acessos, pelo seu lobe! Por isso, com facilidade você encontra líderes evangélicos comprando votos; usando espaços não ilegais, mas imorais; prometendo assessoria parlamentar, secretarias, cargos de gabinete em troca de apoio; vendendo favores futuros; usando caixa dois para campanhas; comprando santinhos com dinheiro indevido; filiando-se aos partidos por conta da legenda e não por seus projetos etc. É vinho velho em odres velhos. Sei que não são todos. No entanto, se é difícil separar o joio do trigo – sendo uma tarefa para anjos –, pior é o vinho velho de vinho novo! 

Por isso, como é vinho antigo em odres já dilatados, as coisas acontecem sem muita tensão. Os projetos ganham votos, são eleitos, os interesses realizados, a vontade de poder alimentada e tudo fica intacto e do jeito que sempre esteve. E assim, o povo vai bebendo dos velhos odres o velho vinho, e os irmãos tendo a sensação de que Deus está abençoando a nação com crentes no congresso nacional. 

Infelizmente, como acerta o Evangelho de Lucas, quem prova do velho, especialmente o que se beneficia dele, diz: “o velho é que é bom!”.