sexta-feira, 16 de novembro de 2018

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA: ENTRE O ARQUIVO E O SÍMBOLO




Os símbolos nacionais, além de artefatos/arquivos da história, são agentes de estímulo e integração. Essa é a razão para destacarmos datas, personagens, situações e conquistas, sem os quais não seria possível formar a identidade nacional. O Brasil é Brasil por sua história! Então, a Proclamação da República é antes data-símbolo do que oportunidade de descanso para os que ainda têm emprego que lhes permita tal desfrute.

15 de Novembro para nós brasileiros e brasileiras é marca temporal de transição da Monarquia Parlamentarista para a República, realizada em 1889. Contudo, esse dia memorável é espuma do mar maior de perspectivas político-econômicas e movimentos contrários ao antigo regime. Na década de 1870, por exemplo, foi assinado por alas intelectuais brasileiras, nas quais estavam também alguns protestantes, o Manifesto Republicano cujas linhas alimentavam o desejo democrático, a luta por liberdade e a cumplicidade com a ideia de que a vontade do povo deveria conduzir o país. No histórico texto é denunciada a realidade brasileira e expressava-se, com bravura, o enfrentamento ao sistema marcado por injustiças. Cito: “O privilégio, em todas as suas relações com a sociedade – tal é, em síntese, a fórmula social e política do nosso país –, privilégio de religião, privilégio de raça, privilégio de sabedoria, privilégio de posição, isto é, todas as distinções arbitrárias e odiosas que criam no seio da sociedade civil e política a monstruosa superioridade de um sobre todos ou de alguns sobre muitos” (Manifesto Republicano, 1870).

Na época, as “novas idéias” republicanas desaguavam entre as classes letradas, pelas esquinas e quintais da terra brasilis. O país era efervescência de sonhos e revoltas; lágrimas e risos; forças conservadoras e revolucionárias. Sagazmente, Rui Barbosa, em 10 de Julho de 1889, percebeu o clima no ar e escreveu: “É inenarrável o aspecto que, há dois dias, apresenta a capital do império. Nunca se estamparam mais vivamente na fisionomia de uma cidade o pasmo, a reprovação, o protesto. Sente-se, nos espíritos, o rumor da grande vaga humana, que cresce das consciências, e se aproxima, surda e misteriosa, nas crises morais de uma nação. As ruas borbulham de alvoroto. A política invadiu todos os colóquios, emudeceu todas as preocupações. Não se crê no que se acredita. Essa mesma espuma das alegrias interesseiras, que efervescem a cada mudança ministerial, à ascensão de cada partido, mal sobrenada, indecisa e silenciosa. Ainda não acertamos com um liberal satisfeito” (Queda do Império, vol. XVI, tom. III, p. 243.). O “alvoroto” (revolta) que borbulhava era o sinal do desgaste. Desejava-se, nas palavras de Raimundo Correia, que o Futuro, archote incendiário, queimasse os báculos e os cetros. Ou seja, a famigerada relação dos poderes católico e monárquico já não passaria desapercebidamente ilesa às críticas das consciências esclarecidas. Tanto quanto se sentia o dissabor pela dureza do autoritarismo, das crises econômicas, do obscurantismo e da desigualdade de direitos, crescia o desejo pelo progresso social.

O 15 de Novembro de 1889 seria, então, a erupção dos muitos interesses vulcânicos instalados desde o seio da monarquia. Machado de Assis, em “Esaú e Jacó” (1904), infere a respeito da desgastada monarquia no diálogo entre os personagens Aries e Custódio. Este, no romance machadiano, é dono do estabelecimento chamado “Confeitaria do Império”. Na conversa com Aries, Custodio fala sobre a restauração da tábua onde estava o nome de sua confeitaria. O decepcionado confeiteiro lamenta: “Ontem, à tarde, lá foi um caixeiro, e sabe V. Exª o que me mandou dizer o pintor? Que a tábua está velha, e precisa outra; a madeira não aguenta tinta. Lá fui às carreiras. Não pude convencê-lo de pintar na mesma madeira; mostrou-me que estava rachada e comida de bichos. Pois cá de baixo não se via. Teimei que pintasse assim mesmo, respondeu-me que era artista e não faria obra que se estragasse logo”. Não tem restauração, diria a mensagem do livro, o sistema monárquico estava aos bichos e não teria artista que desse jeito!

Por outro lado, mesmo glorioso em valores, o sonho libertário não foi o único motivo de adesão à causa. O ressentimento dos ex-proprietários de escravos, despossuídos pela Lei Áurea (1888) do perverso bem sem serem ressarcidos, impulsionou a cooperação dos grandes ruralistas. Ainda – e a honestidade histórica exige indicar – os ideais republicanos foram traídos na Primeira República. Contudo, a luta pela Liberdade, Igualdade, Dignidade Humana, Justiça (valores tão caros para o futuro Estado Democrático de Direito) integravam essencialmente as diretrizes dos militantes republicanos do séc. XIX.

Por conseguinte, essa data é memória de denúncia e enfrentamento a sistemas que legitimem a “superioridade de alguns sobre muitos”. Aponta para um projeto de nação plural cujo governo está a serviço da legalidade, democracia e estabelecimento de direitos. Comemorar a Proclamação da República, dessa forma, é reafirmar os valores da justiça para todos e todas, o estabelecimento do acesso à educação e aos subsídios necessários para o bem estar social. E para nós evangélicos, vinculados à história do protestantismo brasileiro, 15 de Novembro é a afirmação indiscutível da separação entre Estado e Igreja, o que exige respeito à diversidade, o diálogo e a não imposição de valores individuais ou teológico-institucionais sobre os interesses nacionais, evitando o mal do privilégio religioso denunciado já pelo Manifesto de 1870. 

Assim, a Proclamação da República lança os olhos do povo brasileiro para o passado, mas torna-o símbolo de valores imprescindíveis e civilizatórios, projetando-nos, por sua vez, para o futuro.



sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Experiência e Hermenêutica Pentecostal". Novo Livro pela CPAD











Acaba de sair pela Casa Publicadora das Assembleia de Deus (CPAD) o meu novo livro, em parceria com David Mesquiati, "Experiência e Hermenêutica Pentecostal. Reflexões e propostas para a construção de uma identidade teológica". A obra reuni diversas reflexões e discussões realizadas em ambientes acadêmicos a respeito da teologia pentecostal e, especialmente, o lugar privilegiado da experiência para interpretação bíblica e da fé. O livro é dividido em 10 capítulos e provoca uma série de questões: o que seria um hermenêutica pentecostal? É possível falar em teologia pentecostal? Qual a relação histórico-teológica do Pentecostalismo com a Reforma? Que tipo de método exegético poderia ser melhor aplicado à leitura bíblica pentecostal. 

Abaixo, um pequeno trecho da obra: 


"Algumas coisas nos preocupam em relação à produção teológica pentecostal no Brasil. Um dos riscos é a neocalvinização do pentecostalismo ou as teologias protestantes estabelecidas tornarem-se o único ou o melhor caminho para a sistematização teológica. No entanto, precisamos explicar o que queremos dizer com isso. Antes de qualquer coisa, essa crítica não é aos calvinistas e demais protestantes, mas aos nossos irmãos pentecostais. Acreditamos que o diálogo com a teologia e com os teólogos reformados é de fundamental importância para a promoção do Reino de Deus em nossas terras. Contudo, para que o diálogo aconteça, nós pentecostais precisamos fazer o dever de casa e articular uma identidade teológica que seja propriamente pentecostal. E, podemos afirmar com toda segurança, que isso já vem sendo feito, especialmente por nossos irmãos norte-americanos e europeus, como Amos Yong, Kenneth Archer, Veli-Matti Karkkainen, Harold Hunter, entre outros; não nos esquecendo de pentecostais latino-americanos, como Bernardo Campos, Daniel Chiquete, entre outros, que há algum tempo têm enfrentado essa realidade e feito propostas importantes. Por isso, nosso texto fará ensaios seguindo esse mesmo interesse, de uma construção de identidade teológica pentecostal, que exige a releitura da história, uma proposta hermenêutica e articulação na e para a experiência" (MESQUIATI; TERRA, 2018, p.2).

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Pela Democracia. Pela Nação. Pelos 501 anos da Reforma


A vitória do Bolsonaro foi conquistada democraticamente. E se desejamos preservar e respeitar o Estado Democrático de Direito, precisamos nos dobrar, sob a égide da Constituição, à vontade do povo, porque dele deve emanar o poder, sempre! Pronto, isso agora nos convoca a atitudes democráticas, tanto dos eleitores como não eleitores do novo presidente – confesso que meu olhar para essa reflexão aponta em especial às comunidades de fé, pois é o lugar de onde falo.

Antes de qualquer coisa, é urgente evitar qualquer atitude idólatra. A aceitação acrítica das propostas, movimentos e interpretação da realidade de qualquer projeto político é idolatria, porque acaba dando valor eterno a poderes históricos. Por isso, espero que os seguidores de Cristo, especialmente os pastores que o apoiaram e estão por perto, sejam capazes de vencer o vislumbre ou interesses pessoais e façam a devida e democrática oposição a qualquer sinal de prejuízo coletivo, políticas equivocadas ou ataque à democracia.

Os eleitores que deram seu voto de confiança ao vitorioso presidenciável não podem deixar a alegria da conquista cegá-los diante de ações suspeitas. E pelo visto, já estamos acompanhando algumas articulações preocupantes. Entre elas podemos citar a possível presença de Alberto Fraga no gabinete em 2019. Esse deputado do DF foi condenado em primeira instância a quatro anos, dois meses e 20 dias de prisão, em regime semiaberto, sob a acusação de pedir 350 mil reais em propina a cooperativas de transporte, em 2008, quando era secretário de transportes do governo José Roberto Arruda. Esse mesmo levou outros 30 parlamentares que poderão apoiar o afrouxamento do Estatuto do Desarmamento. O nome disso é toma lá da cá! Outro nome citado, esse para a casa civil, é Onyx Lorenzoni, também do DEM. Ano passado Lorenzoni admitiu ter recebido dinheiro para caixa 2 da JBS. O que o uniu a Bolso foi seu posicionamento a respeito da revogação do mesmo Estatuto. Tanto na relação com este como com aquele, o futuro presidente coloca em primeiro lugar o apoio à revogação da lei do desarmamento em detrimento do histórico político. Será que ninguém está vendo que isso pode significar o mesmo erro do PT? Já se ventila na câmara a troca de apoio entre Bolso e Rodrigo Maia (DEM) tendo como moedas de troca a presidência da câmara e a mesma flexibilização do Estatuto do Desarmamento. Não podemos permanecer achando que corrupção foi inventada por membros do PT. Esse tipo de ideia isenta os demais partidos de suas responsabilidades.

Outro movimento que precisa ser observado com muito cuidado por todos é a proposta da fundição do Ministério da Agricultura com o Meio Ambiente. Essa ação pode se tornar um grande equívoco para toda a nação, porque, por um lado, obrigaria alguns países importantes e grandes parceiros do Brasil deixarem de comprar nossos produtos por conta de seus compromissos internacionais e, por outro, colocaria sob os interesses irresponsáveis do agronegócio políticas públicas para o meio ambiente, o que ameaçaria instituições e políticas públicas que guardam as riquezas naturais do país, base da qualidade de vida e desenvolvimento econômico. Até mesmo grupos ligados ao agronegócio estão preocupados com essa possibilidade. Além disso, a democracia precisa da oposição partidária que seja voz de limite e crítica. Por isso, o discurso de que quem critica é “comunista” precisa dar lugar ao saudável e necessário contraditório, sem estigmatizarão ou pechas precipitadas.

Em especial aos pastores que estão lado a lado do Bolsonaro e conhecem bem a tradição protestante, desejo que não percam de vista a transitoriedade de qualquer governo. Sejam consultores da sabedoria, amabilidade, preservação da pluralidade e responsabilidade nos discursos. Já que ele tem falado tanto em Deus e sua vontade, sejam sempre possibilidades de conselhos sensatos em relação às suas políticas públicas. Não o deixem, sem que ouça de vocês uma mínima exortação à luz do Evangelho, tomar decisões que firam os mais necessitados ou beneficiem somente um grupo ou classe. Em algumas de suas falas ele demonstrou muita insensibilidade a violências estatisticamente comprovadas. Sejam, já que estão tão próximos, iluminação coerente a respeito desse risco. Sei que durante a campanha muitos dos colegas pastores apoiaram-no, de perto e de longe, por encontrarem nele um defensor da família. Sempre entendi essa leitura por temerem algum tipo de imposição de agendas nas escolas e às crianças. Contudo, sejam sensatos e olhem sempre com muita acuracidade cada discussão sobre esses temas para haver razoabilidade e não excessos, o que poderia gerar um tipo de “caças às bruxas” ou maior intolerância em nome da preservação de uma perspectiva de sexualidade. Ainda aos pastores, levando em consideração nossa tradição protestante, tenham o equilíbrio necessário para não diluírem a separação fundamental entre Igreja-Estado em nome da moral e bons costumes, porque vocês devem ser antes aptos para proclamar e ensinar sobre esses princípios do que os impor via Estado.

Por fim, não podemos deixar, principalmente nós protestantes que carregam as memórias de 501 anos, de nenhuma forma, qualquer projeto político retalhar, fatiar, retroceder, diminuir ou desqualificar direitos adquiridos em nossa recente democracia. Espero que sejamos capazes de unir o Brasil e agora olharmos para frente sonhando juntos por uma nação para todos e todas.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

2018: a renovação da política brasileira?



Após os resultados de parte das eleições de 2018, o mote é de renovação política. Realmente, peças antigas foram retiradas do tabuleiro. No senado, das 56 cadeiras em disputa, 46 foram ocupadas por novos personagens – pelo menos novos nesse cargo, porque muitos deles não representam qualquer renovação. Figuras conhecidas como Magno Malta (PR – ES), Eunício Oliveira (MDB – CE), Lindbergh Farias (PT- RJ), Edison Lobão (MDB-MA), Roberto Requião (MDB), Romero Jucá (MDB-RR) amargaram inesperada derrota. Contudo, políticos desgastados como Ciro Nogueira (PP), Humberto Costa (PT) e, especialmente, Renam Calheiros (MDB) continuam cobertos pelo manto da “impunidade parlamentar” e permanecem no senado. Em relação aos partidos, MDB, PSDB e PT, considerados grandes, diminuíram representatividade tanto na Câmara quanto na “casa do Calheiros”. Na outra ponta, o PSL, por exemplo, agora ocupa 4 cadeiras. De certa forma, nomes antigos saíram e outros novos (ou nem tanto) chegaram. Mas nada inesperado, porque se aguardava algum tipo de renovação. E nessa dança das cadeiras, coisas estranhas e deprimentes aconteceram. Em SP, nomes como Alexandre Frota, Arthur “mamãe falei”, Kim Kataguiri e Janaína Paschoal receberam significativa porcentagem dos votos. No mesmo estado, Eduardo Bolsonaro se tornou o candidato a deputado federal mais votado da história do Brasil em números absolutos! Interessante, na eleição anterior os paulistas deram um título parecido ao palhaço Tiririca.

Pensando no quadro pintado na terra da garoa, confesso que fiquei muito frustrado quando li na lista dos eleitos o nome – para citar um (talvez, o mais absurdo) – de Alexandre Frota e, na mesma averiguação, não encontrar Carlos Bezerra Jr. Basta uma olhadinha em sua história e logo entenderá minha estupefação. Como vereador, ele ocupou o 1º lugar no ranking dos vereadores de São Paulo mais bem avaliados pelo levantamento da ONG “Voto Consciente”. Enquanto deputado estadual, foi autor da Lei paulista de Combate ao Trabalho Escravo, garantindo-lhe reconhecimento na ONU e no Ministério Público do Trabalho. O mesmo pastor, que nunca usou desse título para favores políticos, palestrou na Conferência do Alto Comissariado da ONU e, também, no International Bar Association (IBA), maior organização mundial de profissionais da justiça. Para termos ideia, o evento contou com a presença de grandes nomes mundiais da defesa de direitos como Kofi Annam e José Aznar. Ainda, na luta contra a desumanização, no mesmo espírito de Luther King, Wesley e Wilberforce, Bezerra Jr. presidiu a CPI do Trabalho Escravo na Alesp e criticou duramente a proibição da divulgação da chamada “lista suja” com os nomes das empresas flagradas em exploração do trabalho escravo. Além disso, este mesmo político evangélico atuou como principal mediador dos familiares das vítimas das chacinas de Osasco e Barueri. Bezerra Jr. é, também, autor dos Programas Mãe Paulistana e Mãe Paulista, responsáveis pela maior redução nos índices de mortalidade infantil e materna da última década. E não adianta dizer que ele é comunista, esquerdopata, etc., porque sua caminhada se dá no PSDB, contra quem, inclusive, por ocasião da crise política no Brasil, posicionou-se pedindo a saída do governo.

Minha consternação é especialmente com o eleitorado evangélico. Explico. Sou duro crítico ao “crente vota em crente”, mas se para alguns irmãos essa é a lógica, por que não a aplicaram ao Bezerra Jr.? Defesa por direitos e luta por justiça não importam? Simples, ele levou a sério a vocação pública da fé protestante, militou por princípios realmente dignos da tradição bíblica, não se vendeu para a bancada evangélica (uma vergonha nacional) e nem ao míope interesse de alguns líderes da igreja em SP.

Por isso, observando a conjuntura, sou obrigado a acreditar que SP é um espelho perigoso do Brasil e dos evangélicos brasileiros, marcado por analfabetismo político e sérios problemas teológicos. Mas como nem tudo é tragédia, podemos olhar aliviados para o Maranhão, estado com grande número de evangélicos (especialmente pentecostais), onde mais uma oligarquia, a família Sarney, foi derrotada. O povo maranhense viu Flavio Dino (PC do B) implantar projetos de saneamento básico, benefícios fiscais razoáveis, políticas de redução de mortalidade infantil, valorização salarial dos profissionais da educação e entendeu, comprovando com o voto, que políticas púbicas e desenvolvimento, olhando sensivelmente para os mais fragilizados, são indissociáveis.

E em relação à eleição para a presidência, segue minha opinião: “Pagaremos caro, com juros históricos, por nossa estupidez”!

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Eu tenho vergonha do Silas Malafaia!


Acabei de ver outro vídeo do Silas Malafaia no qual aparece convidando seus ouvintes a não votarem em Ciro Gomes. Com a impetuosidade de sempre, esbravejou acusações ao presidenciável afirmando ter ele "DNA esquerdopata", favorecido empresas quando governador para receber milhões, ser “desequilibrado”, promovedor de violência contra mulheres e amigo de corrupto por tentar visitar Lula na prisão. Não quero entrar nos méritos de suas acusações, especialmente em relação ao favorecimento de empresas no Ceará. Provavelmente, Silas tenha provas e poderá defender tal afirmação caso seja requerido em júri, pois falso testemunho, além de pecado, é crime. Na verdade, o que me intriga são suas constantes incoerências. Em certo momento, ele aparece afirmando que Bolsonaro não teria qualquer condição de ser presidente (está gravado em vídeo) e, um ano depois, Malafaia surge nas mesmas mídias com outra ideia e, como se nada tivesse dito antes, usando igual força (para não dizer estupidez), sarcasmo e gritos em apoio ao mesmo presidenciável. Como ele consegue acusar Ciro de usar palavras machistas e ser desequilibrado e, ao mesmo tempo, fazer campanha a alguém marcado exatamente por essas características?

Repito, não pretendo discutir aqui se o presidenciável acusado pelo pastor midiático é ou não boa opção de voto. Na verdade, incomoda ouvi-lo falando com tanta certeza e convicção a respeito de temas momentaneamente geradores de favorecimento pessoal e, em pouco tempo, encontrá-lo com a mesma certeza dizendo coisas tão diferentes. Ele grita contra os corruptos e seus colegas infames e depois me aparece convidando Pesão, parceiro e beneficiado de Sérgio Cabral, a subir no púlpito da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. A cena do Silas dando o microfone ao Pesão no culto é no mínimo um sacrilégio.

No show infindável de lambanças, por várias vezes Silas declarou amizade com Eduardo Cunha (condenado por corrupção) e afirmou ser ele um político de bem, da fé e enviado de Deus para a presidência da Câmara. Isso seria cômico se não fosse deplorável!

No mesmo nível de bestialidade e incoerência, Silas apareceu publicamente criticando e acusando Crivella e sua Igreja e, pouco tempo depois, o mesmo Crivella recebeu dele indicação de voto e elogios por conta de sua capacidade e grandeza política.

Como interpretar as malafalianas declarações em relação a Eduardo Paes? Silas, como todos sabem, sempre esbravejou que evangélicos não podem se aliar ou legitimar políticos que beneficiem, incentivem ou promovam qualquer coisa relacionada à agenda LGBTT. No entanto, quando Eduardo Paes apoiou a Parada do Orgulho LGBT, o mesmo Silas Malafaia fez um discurso abertamente democrático afirmando ser o então prefeito do RJ líder para todos e não somente dos princípios cristãos. Teria ele vivido um surto irruptivo de cidadania? Acho que não. Desconfio que a “doença” seja outra.

Além de me entristecer observá-lo levando de um lado para outro irmãos e irmãs sujeitos aos seus vaivéns discursivos, morro de vergonha porque Malafaia é acolhido e visibilizado como pastor e, mesmo não querendo admitir, é um colega de vocação.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Em quem votar para Presidente da República?


Qual o modelo deveria ser a régua para nossa avaliação na escolha do presidente do Brasil? Antes, permitam-me indicar um detalhe. Descriminalização do aborto, liberação das drogas, casamento entre pessoas do mesmo sexo e outros pontos tão caros para muitos dos evangélicos que falam em defesa da família e bons costumes não são assuntos a respeito dos quais o presidente da república tenha decisão prioritária ou possa impor sobre uma nação. Esses temas são geridos em outras instâncias. Por isso, meus apontamentos estão relacionados ao papel do chefe de governo. Sob sua competência está a administração federal, criação de políticas públicas, programas governamentais, etc. Como Chefe de Estado, o presidente é o representante internacional de uma nação, função importantíssima que exige diversas estratégias e sabres.

A partir disso, o Presidente da República, em minha opinião, deve ter estas características:

1. Aptidão comprovável para administrar um país, o que exige, no mínimo, conhecimentos básicos a respeito da nação e seus dilemas sócio-políticos;

2. Um bom histórico na política: quais projetos aprovados? Como foram seus votos enquanto parlamentar? Quais foram seus planos de governo ou a quais se aliou? Como foi sua atuação em ministérios ou outros cargos públicos? Algumas das perguntas só poderão ser respondidas caso tenha experiência política ou em qualquer cargo público;

3. Não esteja envolvido com nenhum esquema de corrupção, não tenha se aliado a ninguém envolvido em estratégias ilegais ou legalmente imorais. Não ter sua campanha dependente de nenhuma grande corporação ou setor privado e, também, não deve estar vinculado a nenhuma bancada ou frente parlamentar devedora ou defensora de interesses particulares ou suspeitos;

4. Tenha projetos realmente aplicáveis, saiba de políticas públicas, especialmente para alcançar às pessoas mais frágeis. O candidato precisa ter maior sensibilidade à pobreza, fome, desemprego, etc. e apresentar claramente como desenvolverá ações a curto e longo prazo em benefício dos cidadãos mais empobrecidos e em situação de exclusão social;

5. Possua conhecimento do funcionamento político, da economia brasileira e tenha coragem para fazer as reformas necessárias: tributária, política, previdenciária (não aquela prevista pelo Temer) e agrária;

6. Defenda o Estado Democrático e proponha políticas maduras de preservação de direitos e restrinja sua violação.

8. E, por fim, tenha condições para representação internacional, sabendo cumprir acordos, desenvolvendo autonomia para negociação, não se submetendo a interesses internacionais a ponto de ferir os nacionais e seja uma figura minimamente aberta e preparada para o diálogo com o mundo.

Com esses indicativos posso avaliar os pontos fracos ou fortes do presidenciável em quem votarei. Caso faltem-lhe muitos desses indícios, preciso repensar com calma a quem dispensarei minha confiança ou defenderei em espaços públicos.

sábado, 1 de setembro de 2018

Por que um cristão, especialmente evangélico, não deveria votar em Jair Bolsonaro?


Por que um cristão, especialmente evangélico, não deveria votar em Jair Bolsonaro?
O post pretende apresentar apontamentos diretos e objetivos com o intuito de ajudar na reflexão. Algumas explicações: a. são razões a partir do lugar da fé evangélica; b. não indico qualquer candidato/a específico/a, mas desestimulo o voto ao citado presidenciável. Ou seja, a ponderação é sobre em quem, entendo, NÃO deveríamos votar.
Comecemos:
1. A tradição protestante é historicamente ligada à formação do Estado Democrático de Direito. Para o surgimento da Modernidade, entre tantas outras coisas, a Reforma e seus desdobramentos foram fundamentais. Por isso, quaisquer discurso ou propostas políticas que insinuem perda de liberdade democrática, como ditaduras ou sistemas autocráticos, são totalmente contrários ao espírito da Reforma ou princípio protestante. Logo, as falas, honrarias a regimes e alguns personagens exaltados por Bolsonaro ferem a história do Protestantismo. Ainda nesse ponto, a maneira como o deputado, mesmo não sendo evangélico, pronuncia-se em relação a posições morais e religiosas sob as quais o seu governo se pautará, também, fere a separação radical entre Igreja e Estado como defendida historicamente pela tradição protestante. A eficiência de um político cristão, nesse sentido, não pode ser medida segundo sua defesa ou não de pontos como direitos homoafetivos, descriminalização do aborto ou qualquer outra questão de disputa na arena pública, mas à luz da sua capacidade de liderar com justiça, sabedoria, solidarização dos acessos e inteligência econômico-política, representando o povo e cumprindo sua obrigação nos limites do cargo (não há na democracia lugar messiânico, mas funções no Estado Democrático de Direito) para o bem comum e não em favor de um grupo específico – a igreja não precisa das benesses do Estado para sua sobrevivência. Cuidado: não podemos esquecer, ao discutirmos sobre família etc., que a Bíblia nunca exortou a respeito da falta de auxílio governamental para sua presença testemunhal no mundo, mas denuncia a respeito da mudança “para outro evangelho” (Gl 1.7).
2. Seguindo, não seria recomendável votar no presidenciável citado porque defende, mesmo indicando trâmites na distribuição, o armamento da população. A fé cristã não é compatível ao uso de armas de fogo geradoras de morte. Não cremos que seja a violência o caminho rumo à proteção do cidadão e para a paz social. O uso de armas significa a aplicação de violência em casos de conflitos e descontrole emocional. O armamento, e tudo o que ele representa, é radicalmente contrário à proposta do Evangelho. Mt 5.9 diz serem bem-aventurados os pacificadores.
3. A Bíblia mostra-nos em diversos pontos que a principal lei é o amor, o qual não está desassociado da justiça. Isso delimita as fronteiras da interpretação do cristão em relação ao seu voto. Bolsonaro tem uma postura extremamente violenta e seus discursos são, no mínimo, contrários às orientações cristãs. Por várias vezes, mostrou-se violento em relação às mulheres, homossexuais e outras minorias. Para quem já acompanhou pastoralmente pessoas homoafetivas sabe que respostas como “ter filho gay é falta de porrada”, usada por Bolsonaro, representam total desconhecimento. E, além disso, revela insensibilidade às famílias e pessoas com as quais caminhamos em nossas comunidades. Falas como essas representam, sim!, posturas homofóbicas. Mesmo os que discordam das práticas homossexuais devem, no mínimo, escandalizar-se com esse tipo de pronunciamento. O presidente sob o paradigma do Estado Democrático de Direito precisa governar para todos e lhes garantir seus direitos – esse princípio é profundamente protestante/evangélico.
              3.1. Ao lembrar as memórias de figuras como Ustra, o candidato filia seu discurso a pessoas que usaram a morte e tortura como meios de aplicação da justiça. Isso demonstra total incompatibilidade com as intuições do Evangelho. Ainda, a justiça e a equidade são dois princípios fundamentais no horizonte delineado por Jesus. Conseguintemente, uma nação que estatisticamente tem alto índice de violência doméstica, feminicídio, assassinato de homens e mulheres por causa de sua orientação sexual, onde o racismo não está erradicado, a pobreza é fruto de profunda injustiça e em um país cuja distribuição (renda, terra, moradia) é pecaminosamente desleal, as falas do candidato mostram-se insensíveis e, por vezes, legitimadoras. Observando os profetas do AT e as escolhas de Jesus, percebemos o gritante descompasso entre as perspectivas do presidenciável aqui citado e a fé cristã. Além disso, o Evangelho mostra-se como defensor da vida e é base, mesmo que indiretamente, para diversas proteções individuais previstas entre os Direitos Humanos. Por isso, não podemos compactuar com qualquer candidato que carregue ideias de morte ou punição fatal. Assim, precisamos avaliar e escolher pelo/a candidato/a com propostas de políticas públicas razoáveis para a segurança (superando à ideia superficial e pecaminosa de morte), o que significaria agir contra o pecado das estruturas. Não é compatível ao seguidor de Cristo achar normal um candidato usar as expressões e posturas violentas como as instrumentalizadas pelo deputado Bolsonaro e continuar tendo-o como opção.
                   3.2. A teologia da graça permite pensarmos uma sociedade vinculada a relações não somente meritórias, mas vislumbra horizonte nos quais terra, casa, saúde, educação e outros direitos são partilhados aos incapazes, ou seja, aos brasileiros/as sem “méritos” econômicos. Qualquer projeto político estabelecido sob bases não comunitárias e “graciosas” será anticristão.
4. Não podemos votar em candidatos com indícios de problemas éticos. Mesmo defendido por seus seguidores como político honesto e irrepreensível, suas relações com políticos marcados pela corrupção (Cunha e outros), o uso (“para comer gente” – palavras dele) do auxílio moradia e a possível utilização de assessoria fantasma balançam essa certeza e deveriam gerar desconfiança e crítica nos seguidores de Jesus. Além disso, percebemos nos pronunciamentos do candidato mudanças substanciais, beirando a instabilidade ou falta de consistência. Em relação aos poucos pontos econômicos e políticos por ele defendidos, notoriamente aparenta falta de coerência.
5. A Bíblia fala em governantes sábios, os quais possam liderar com temor e capacidade. Bolsonaro, mesmo depois de 27 anos na câmara, não se informou das questões básicas relacionadas à economia, desenvolvimento, dinâmica do sistema de governos etc. Ele representa o despreparo e a total falta de saber em relação aos pontos essenciais do funcionamento político-econômico do país. Mesmo com anos de mandato não demonstrou qualquer relevância. Por isso, as incapacidades teóricas e práticas desqualificam-no como possível governante à luz das expectativas bíblicas.
               5.1 Seus votos como deputado também denunciam claro despreparo e falta de consistência: votou contra o plano real, contra o projeto de proibição de nepotismo no setor público, votou contra o projeto de teto salarial no setor público, votou contra o projeto para o fim da aposentadoria especial dos senadores e deputados, votou contra o projeto que daria fim à pensão para filhos de militares, votou contra o fundo de combate à pobreza e a favor do aumento do salário dos deputados e senadores. Sobre essa história parlamentar se estabelece o perfil político desse presidenciável e, naturalmente, impede a escolha dos seguidores do Cristo por esse tipo de político.
Assim, à luz dos argumentos acima, sinto-me, como seguidor do Evangelho e pastor, impossibilitado de votar em Jair Bolsonaro.

sábado, 7 de julho de 2018

CRIVELLA E A IRRESPONSÁVEL REUNIÃO COM PASTORES


Na última quarta-feira, o prefeito do Rio de Janeiro convidou pastores para uma reunião na qual apresentou benefícios públicos que seu governo disponibilizará, tais quais cirurgias de cataratas e varizes. Na mesma lista de benesses, relembrou a imunidade tributária para “Templos de qualquer culto” – mesmo que em sua fala o termo “qualquer culto” tornou-se “igreja” –, garantiu quebra-molas em frente dos templos evangélicos e pontos de ônibus nas proximidades das igrejas, os quais ajudariam na chegada aos cultos. E mais, ofereceu a disponibilidade dos assessores “Márcia” (?) e “Dr. Milton” (?) para o auxílio do acesso a esses benefícios. Ao encontro, o prefeito deu o nome de “café da comunhão” e conseguiu reunir 250 ministros do evangelho. Quando questionado, sua assessoria justificou dizendo ser uma prática comum, porque o prefeito “recebeu os mais diversos representantes da sociedade civil, para tratar dos mais variados assuntos, tanto em seu gabinete quanto no Palácio da Cidade”. No entanto, como justificar a presença, no mesmo contexto, do pré-candidato pelo PRB, Rubens Teixeira, a quem, segundo reportagens, Crivella exaltou diante de todos? Desculpe-me, mas isso é no mínimo irresponsável! Que tipo de comunhão é essa? Avalie bem o quadro. O prefeito, que é bispo licenciado da Igreja Universal, oferece benefícios públicos para um grupo de pastores, ao lado de um pré-candidato (antes do tempo permitido pelo TRE), em reunião “às escondidas”. Estranho ou não?

Não é por essa via que nós pastores e comunidades cristãs deveríamos nos envolver na arena pública brasileira. Esse tipo de mecanismo é a pior face da presença política dos evangélicos em nosso país. Mesmo que estivesse divulgando programas e benefícios, não seria em uma reunião com pastores o melhor lugar. Nas entrelinhas, o prefeito da cidade estava, com representantes do evangelho, trocando votos e apoio por auxílios públicos e voluntariedade política. Lembrou-me a antiga lógica do tijolo pelo voto sob a égide sagrada do “crente vota em crente”. Leia esta frase lançada na reunião e avalie: “vamos aproveitar esse tempo que nós estamos na prefeitura para arrumarmos nossas igrejas”. Que isso, corporativismo evangélico? Sei dos direitos da Igreja, mas aqui temos outra coisa!

É comum entre colegas pastores a ideia de que ser convidado por lideranças políticas significa reconhecimento ministerial ou honra. Talvez, essas tenham sido as motivações que impulsionaram o comparecimento na reunião. Contudo, nós pastores precisamos entender que políticos demonstram reconhecimento ministerial quando cumprem, honesta e responsavelmente, sua função de representantes do povo e não ao auxiliarem um grupo específico. Eles estarão honrando nossa mensagem ou serviço não com placas ou ajudas pessoais, mas ao usarem com equidade e inteligência os bens públicos, a ponto de melhorarem a vida da população. Por outro lado, precisamos entender, de uma vez por todas, que os políticos identificados como evangélicos cumprirão seu papel de representantes da fé cristã na política partidária não por beneficiarem suas igrejas locais, mas ao serem bons gestores públicos e agirem pela causa do povo, especialmente os mais fragilizados. O prefeito da cidade não demonstrará ser amigo dos pastores por colocar quebra-molas na frente das igrejas, mas organizando a mobilidade pública do município. Não é oferecendo lobby na saúde pública aos pastores que Crivella provará sua parceria com as igrejas, mas apresentando programas relevantes que melhorem e fortaleçam esse setor tão sucateado e ofereça soluções reais ao povo.

O Rio de Janeiro vive crises em diversos setores e depende da sensatez e boa vontade de seus representantes. Os pastores, por sua vez, como vocacionados no Reino deveriam se preocupar menos com o IPTU das igrejas e mais com a cidade; precisariam disponibilizar menos sua representatividade para propósitos personalistas e mais aos interesses populares. Por isso, essa reunião foi infeliz e todos os presentes, enganados ou desinformados, tornaram-se cúmplices de crime eleitoral e de má administração pública, se deixaram usar por interesses políticos e se permitiram contracenar uma peça infame e ridícula.

No final do “café da comunhão", anunciaram outro encontro do mesmo tipo. Espero, de verdade, que para esse não tenha quórum.

sábado, 26 de maio de 2018

A greve dos Caminhoneiros e o Governo Temer



Entre tantas coisas ensinadas a duras penas nesta semana, a mais surpreendente foi saber da dependência rodoviária da nação. Para muitos, os caminhões nas estradas, por vezes excomungados pelos motoristas de veículos menores, eram só um detalhe indesejado. Saiba, o setor de transporte de carga cobre 60% da movimentação de tudo que é produzido e consumido no país! Ou seja, os produtos mais básicos e os mais essenciais dependem das rodas dos caminhões nas estradas para circularem no Brasil. E pior, desses sessenta por cento, 62% do setor está sob o domínio da iniciativa privada e das cooperativas. Em suma, o Brasil está nas mãos, ou nas rodas, de interesses de setores econômicos muito suspeitos e com o poder quase divino de implantação do caos. Quer dizer, então, que a paralisação é uma articulação dos interesses privados e de grandes empresas? Ou, não são legítimas suas reivindicações e essa luta não nos interessa? Não, não é isso que estou afirmando. Desejo simplesmente observar um horizonte que pode tornar menos simplista nossa avaliação. Para termos ideia da complexidade do tema, ontem, em entrevista, um caminhoneiro ao ser questionado sobre cartazes pedindo a intervenção militar em muitos postos de protesto respondeu ser essa a “única solução para nosso país”. Segundo ele, os “cidadãos de bem” seriam beneficiados. Não está fácil interpretar essa movimentação! Então, vamos para o outro lado da margem para depois tentarmos entrar na terceira via.

O problema central – além de outras questões ligadas ao pedágio – é o preço do combustível. Todos nós sabemos como é a composição do preço do diesel e da gasolina (se não sabíamos, agora todos sabemos): 9% é para “distribuição e renda”; 12% é o “custo de etanol e Anidro” (gasolina) e 07% “Custo Biodiesel” (diesel); 29% (gasolina) e 15% (diesel) para ICMS; 16% (gasolina) e 13% (diesel) para CIDE e PIS/PASEP e Confins; 34% (gasolina) e 54% (diesel) para “Realização Petrobras”. Ou seja, 45% do preço da Gasolina e 28% do diesel é resultado da presença de tributos estadual (ICMS) e Federais (CIDI e PIS/PASEP e Confins). Além disso, não podemos nos esquecer da mudança no governo Temer para os preços da gasolina e diesel. Desde junho de 2017, o preço do combustível receberia reajustes diários à luz do valor internacional do barril e cotação do dólar. No governo Dilma a variação dos preços internacionais era repassada de forma defasada aos valores praticados no país, um mecanismo usado para tentar segurar o aumento da inflação. Agindo assim, o governo evitava que a elevação do preço dos combustíveis se disseminasse pela economia afetando os outros produtos que dependem diretamente de transporte rodoviário e de insumos derivados do petróleo, capitalizando o impacto na inflação geral. Ou seja, o valor no consumo depende da política de preços e reajustes do governo; e como estatal sua lógica não é somente o lucro, mas o melhor preço e benefícios para o povo, mesmo que interfira no lucro.

Ainda, um absurdo que poucos sabem é a chamada política “American First" (América Primeiro). Felipe Coutinho, presidente da associação dos engenheiros da Petrobras, explica o que isso significa. Segundo ele, essa é uma nociva política de preços que, na prática, beneficia os Estados Unidos antes do que o Brasil: “Essa prática adotada pelo governo Temer tira mercado da Petrobras e faz com que o Brasil importe derivados de outros países, especialmente dos EUA”. Ou seja, A Petrobras exporta o petróleo cru e importa os derivados refinados dos EUA. O diesel importado dos EUA que em 2015 respondia por 41% do total, em 2017 superou 80% do total importado pelo Brasil. Dessa forma, geramos um lucro gigantesco aos EUA e altos preços aqui no Brasil. É no mínimo uma loucura! As empresas internacionais e as concorrentes privadas ganham e os/as brasileiros/as perdem. A associação alertou que os principais beneficiados nesse período foram os "produtores norte-americanos, os traders multinacionais, os importadores e distribuidores de capital privado no Brasil".

Sem tocar nessas questões citadas, Temer promete mexer no CIDI, a Petrobras nos preços e os deputados aprovaram zerar o PIS/Confins do diesel. A previsão é de 14 bilhões a menos nos cofres públicos. De onde retirarão para cobrirem isso? É um tipo de política do “cobre pés e destapa peito”. O que adianta retirar os tributos se a política “American First” continua? E a reforma tributária, não deveria ser o caminho necessário? E a Dívida Pública? Ninguém fala disso? A Dívida Pública é um valor que o Governo paga aos investidores com quem pega dinheiro emprestado para sanar suas dívidas. Como faz isso? Por meio de Títulos de Dívidas? Quem pode “emprestar” ao Governo? Qualquer um que comprar esses títulos. E os que mais compram são os fundos de investimento e bancos. Adivinha, então, a quem o governo deve mais? Ou seja, mais uma vez vamos ficar discutindo questões da superfície e não das estruturas. E os caminhoneiros? Bom, em emergências, medidas emergenciais são inevitáveis. Contudo, se não houver mudanças profundas e sistêmicas teremos outros setores “parando tudo”.

sábado, 5 de maio de 2018

Tardei





Nestes dias, ouvi com amigos da pastoral poética a música "Tardei" de Rodrigo Amarante. Canção densa e leve, com letra polissêmica e capaz de levar cada ouvinte, a partir do lugar de escuta, às memorias, caminhos e escolhas mais íntimos. As palavras da canção são como teias de ferro, aparentemente frágeis, contudo duríssimas! A letra é cercada pelo dedilhar despretensioso do violão triste. No fundo, como coro nebuloso ouvem-se vozes femininas soprando "uuh" monossilábico.

No clipe, Amarante anda por lugares montanhosos e o mar revolto faz o enquadramento das imagens. Sinuosamente, como um rio, o músico aparece sentado em um cômodo antigo e cheio de coisas velhas, de onde olha-nos nos olhos, no fundo, sem nos permitir fingir ou disfarçar que não seja conosco.

O compositor, ao comentar sobre a obra (pecado imperdoável), diz ser uma caminhada pelas lembranças da infância. Tudo bem, eu entendo. Mas é mais, muito mais! A música fala para e a respeito de qualquer alma desejosa por um lugar.

A canção abre o primeiro verso confessando "tardei". O substantivo comum para falar do atraso, torna-se verbo e explica-nos a respeito de sua chegada tarde. Há na estrofe celebração por ter enfim atracado sua nau. No entendo, certeza de ter encontrado onde deveria estar é relativizada quando pergunta "onde está meu lugar?".

Amarante cita alguns instrumentos religiosos trazidos nas mãos, aos quais banha no rio em um tipo de rito. Contudo, o compositor avança no limiar da linguagem e admite ser só agora, na volta dessa caminhada, o tempo oportuno para perceber a senda por onde passou para ir aonde de onde chegou. Somente na volta pode saber como saiu e o que foi deixando. A canção celebra a maturidade do retorno. Ir por vezes é impulso, mas a volta é tempo de prestação de contas: para cada filho pródigo, um pai por quem precisará ser abraçado. Para o ex-membro do Los Hermanos, seu retorno é o encontro com aquelas memorias sinalizadas pelo fio de conta e rosário banhados. Se para ele essa é a razão, cada ouvinte encontrará às suas.

Mesmo afirmando ter chegado e pela primeira vez nunca mais partir, "desceu pelo rio/ da terra pro mar/ um fio de prata que me leva". É chegada tal qual um objeto jogado no rio cuja permanência é instável. Por mais tarde a volta, sempre cedo será a partida para todo/a aquele/a com coragem para vencer a segurança das afirmações inquestionáveis ou dogmatismos intolerantemente estabelecidos, as vezes, por nós mesmos. Não partir acaba nos impendido de aprendermos um pouco mais, simplesmente porque elimina as voltas, através das quais percebemos as sendas.

A imagem de fechamento do vídeo é o mar com ondas fortes. Ele encontrou o lugar, "tardando", mas o caos ainda está lá, mesmo na segurança da chegada. Que bom! Muito bom! Não tenho vocação para chegadas, gosto mais das voltas. Aprendi isso com o mestre de Nazaré, pois ele sabe bem sobre a transitoriedade dos lugares fixos, preságios da cruz.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O CRISTO MORTO





"Cristo morto", Hans Holbein, 1521/22.


Quando Dostoiévski, em 1867, viu pela primeira vez o quadro “O corpo de Cristo morto no túmulo”, 1521/22, de Hans Holbein, o Jovem, ficou estático por quinze ou vinte minutos ininterruptos. Em seu livro “Meu marido Dostoiévski”, sua esposa Ana Grigorievna testemunha que o encontrou impressionado e estupefato diante da obra exposta na cidade de Basiléia a ponto de dar reações taisquais os sintomas iniciais de uma epilepsia. O realismo cadavérico da obra do pintor amigo de humanistas como Erasmo de Roterdã, tocou profundamente as intuições estéticas de Dostoiévski influenciando a produção de seu (livro) “O Idiota”, cujo personagem principal, Príncipe Liev Míchkin, ao contemplar sua cópia e em diálogo com Rogójin exclama preocupado: “Ora, por causa desse quadro outra pessoa ainda pode perder a fé!”. 


O impacto diante do “Cristo morto” de Holbein é inevitável. A expressão crua e dura da realidade humana perpassa todo seu corpo horizontal, cujas medidas e forma remontam uma tumba invencível. No centro, entre a base e o teto apertado, o corpo preserva as marcas causadas pela violência. Não há beleza, nem triunfo e as memórias do ressurreto vitorioso perdem-se no esquelético e pálido corpo com as marcas dos pregos, golpeado lateralmente pela lança e na pele ressequida em seus ossos. Julia Kristeva, em “Sol Negro”, onde enfrenta o tema da melancolia, descreve com exatidão os traços e impressões do quadro: “O quadro de Holbein representa um cadáver estendido num pedestal coberto com um lençol mal dobrado. De tamanho humano, este cadáver pintado é representado de perfil, com a cabeça ligeiramente inclinada para o espectador, os cabelos espalhados sobre o lençol. O braço direito, visível, acompanha o corpo descarnado e torturado e a mão ultrapassa ligeiramente o pedestal. O peito saltado esboça um triângulo no interior do retângulo muito baixo e alongado do nicho que constitui o plano do quadro. Esse peito apresenta o traço sangrento de uma lança, e na mão veem-se os estigmas da crucifixão que endurecem o dedo médio esticado. Os traços dos pregos marcam os pés do Cristo. O rosto do mártir traz a expressão de uma dor sem esperança, o olhar vazio, o perfil aguçado, a tez verde-azulada são os de um homem realmente morto, do Cristo abandonado pelo Pai (‘Pai, por que me abandonastes?’) e sem promessa de Ressurreição”. Em “O Idiota”, o personagem Hippolit, assustado com a lúgubre e terrível imagem do quadro, pergunta-se, beirando à profanação, “se o Mestre tivesse podido ver a sua própria imagem, na véspera do suplício, teria Ele próprio podido caminhar para a crucificação e para a morte, como Ele o fez?”. 


“O Cristo morto” do pintor renascentista é solitário, como explica Kristeva. Diferente de seu antecessor “Lamentação sobre o Cristo Morto”, 1475-78, de Andea Mantegna, cercado por três mulheres em pranto diante do corpo erotizado e robusto do mestre sem vida, o de Holbein não tem discípulos lamentando sua morte, nem anjos cantando o presságio da ressurreição. Por isso, neste trocamos o lugar de espectadores do pranto e nos tornamos as carpideiras! Eis ai a razão da reação desesperada de Dostoiévski. O autor de “Irmãos Karamazov”, diante do quadro, experimentou a realidade gritante da morte em sua radicalidade naquele que se revela como maior símbolo da vida. É a sensação da irredutibilidade do fim, das margens, do precipício. Agonizante e terrível, o corpo do Cristo morto é nosso. É o tempo quase interminável e insuportável entre a cruz e ressurreição. Tempo do medo, agonia, incertezas, descrença. “A representação sem disfarce da morte humana, o desnudamento quase anatômico do cadáver, comunica aos espectadores uma angústia insuportável diante da morte de Deus, aqui confundida com nossa própria morte, de tanto que está ausente a menor sugestão de transcendência” (Julia Kristeva). 


A revolta torna-se parte do quadro aos olhos do espectador: “como foram capazes”! Não há explicação para tamanha barbárie. A morte parece vencer a vida; o mal-limite ao bem-eternidade. É o mesmo convite dos goliardos na monumental “Carmina Burana” ao cantarem “Ó Fortuna”: “mecum omnes plangite!” (“Chorai todos comigo!”). O grito de consternação é eco para todos/as nós. E, como movimento natural, viramo-nos para o lado e lamentamos as demais mortes. Pranteamos a morte nossa de cada dia, os corpos esqueléticos do mundo, as violências cotidianas, a imagem e semelhança da humanidade frágil dos muitos sem nome. Holbein nos coloca um espelho. Por isso, a insensibilidade dilui-se e choramos o corpo e a vida. Revoltamo-nos. Quanto mais violenta e injusta, mais nos consterna, porque vemos as mesmas marcas. A morte ganha maior peso e sua imagem torna-se insuportavelmente inaceitável. Somente uma expressão estética pode acalmar a alma diante do estrago desse quadro. A agonia do corpo morto de Holbein eleva-nos à expectativa do seu contrário – sem isso, morremos sem horizonte dentro daquele belo-horrível túmulo de Basileia. Na vivacidade da morte, paradoxalmente, emana, como necessidade existencial, a ressurreição.


O “Cristo morto” de Holbein é o germe do domingo da ressurreição! O domingo-esperança de todos/as nós.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

CARNAVAL, RISO E SUBVERSÃO

"Demócrito", óleo sobre tela, Johannes Moreelse (1602-1634) 

A história cultural do Carnaval mostra-nos a sua riqueza subversiva e a força protestante da festa popular. Sei que essa afirmação não parece ser compatível com a opinião da maioria de brasileiros/as, foliões ou não. Os etimólogos de esquina, por exemplo, aplicando seus conhecimentos históricos sofisticados, traduzem-na como “festa da carne”, e “carne” para esses não seria o lugar sagrado da vida, mas símbolo de explosão da promiscuidade, permissividade e devastação dos bons costumes religiosos ou burgueses. Por outro lado, há a ala da intelectualidade conservadora, clássica, de esquerda ou direita, cuja opinião é o desdém ou ódio, porque fere sua sensibilidade crítica, não pela possível obscenidade (sua mente liberal não permitiria tal denúncia), mas por ser interpretada como festa-ópio, alienadora ou sem a simetria permitida pelos estatutos estéticos de seus padrões hiper-sofisticados. Para outras pessoas, talvez a maioria, é tempo de feriado prolongado para se divertirem ou oportunidade de trabalho momentâneo.

Buscando mais luz a essa discussão, seria interessante citar M. Bakhtin. O teórico russo fez uma interessante e influenciadora análise das diversas expressões carnavalescas da cultura popular medieval e renascentista, a partir das obras de François Rabelais. Nessa e em outras obras, Bakhtin desenvolveu o conceito de carnavalização. Para ele, o carnaval, além do conjunto de festas no Medievo e Renascença, era uma maneira de interpretar, criticar e subverter o mundo e suas hierarquias. 

Segundo as intuições do pesquisador russo, a máscara, a fantasia e seus adornos carnavalescos desconfigurantes serviam como diluidores de identidade, inserindo a individualidade no espaço fluido do coletivo sem rosto, plural e livre formando uma unidade concreta. Analisando festas importantes da Europa como a festum stultorum, festa dos loucos ou festa do burro, quando se satirizava ritos e liturgias diante de um burro ou consagravam seres grotescos, o filósofo da cultura mostrou como a expressão carnavalesca desmontava a aparência aceitável, criticava as hierarquias e colocava simbolicamente no centro os marginais, loucos ou descredenciados. Para Bakhtin, as expressões carnavalescas serviam como denúncia satírica da ordem estabelecida, materializada em figuras monárquicas, eclesiásticas ou jurídicas. Como bem explicou Claudiana Soerensen, em um bonito artigo, “é o locus privilegiado da inversão, onde os marginalizados apropriam-se do centro simbólico, numa espécie de explosão de alteridade, onde se privilegia o marginal, o periférico, o excludente”. Nesse sentido, as expressões carnavalescas seriam uma crítica cômica ao mundo e suas injustiças. Para essa perspectiva, o estrato simbólico mais básico da intervenção carnavalesca é o riso, expressão coletiva e denunciadora das estruturas sérias e formais. É O riso subversivo, desestabilizador, por vezes proibido. Então, mais do que tempo de entretenimento ou alienação, a história do carnaval mostra-nos seu radical poder de carnavalização cômica do mundo e suas contradições. Ele é, em última instância, manifestação profética da alegria recheada de insurreição. Nesse sentido, o carnaval brasileiro deveria perceber-se e tornar-se lugar de denúncia direta ao funcionamento risível do Brasil. 

Talvez, para muitos brasileiros e brasileiras desumanizados/as e tolhidos/as de seus direitos o riso carnavalesco seja a única possibilidade de desestabilização, mesmo que simbólica, da seriedade de magistrados hipocritamente insensíveis, políticos de corrupta austeridade ou líderes religiosos de piedade pervertida e aliciadora. Por isso, o povo precisa rir, rir às escarradas, até seus algozes e suas estruturas injustas tornarem-se pó!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

REFORMA DA PREVIDÊNCIA, O CONVITE DE TEMER AOS PASTORES E A IRA DE JAVÉ

Provavelmente, não tenhamos a noção das consequências desastrosas da aprovação da Reforma da Previdência, cuja intenção é reformular as regras da aposentadoria. Para piorar, a questão tornou-se, também, teológica. Segundo notícias, Temer, maior interessado, marcou uma conversa com pastores evangélicos em busca de apoio, especialmente porque alguns desses líderes têm ovelhas e amigos na lista dos deputados. E mais, seus púlpitos e mídias, ou púlpitos midiáticos, são muito úteis. Por isso, cabe, antecipando a ignomínia, abrir as discussões e estabelecer as disputas teológicas. Para avaliarmos a partir da fé, lugar que Temer deseja preencher ao chamar esses líderes evangélicos, é preciso uma rápida averiguação da questão e suas manobras discursivas, especialmente por parte dos apoiadores das reformas.
Para os defensores do presidente, afirma-se que há um déficit no caixa da Previdência: “o país está em crise, os gastos previdenciários são altos, logo, não temos nenhuma alternativa senão mudarmos o sistema de arrecadação e disponibilização dos valores destinados aos aposentados”. Essa justificativa e suas estratégias argumentativas não são integralmente honestas. A maior razão do déficit não é o que se paga aos aposentados, o tempo de contribuição ou o custo para Previdência. O principal problema é a desoneração e os benefícios ficais concedidos pelo Governo às grandes empresas. Como dizem os especialistas, “mais 60 bilhões de reais que teriam de ser recolhidos por meio das contribuições previdenciárias aos cofres públicos desaparecem em razão dessas políticas de incentivo ao setor privado”. A União não cobra das empresas sonegadoras e ainda entrega a elas a possibilidade de pagarem menos tributos legalmente. Como dizem os avaliadores técnicos, “é o próprio governo que provoca o déficit e não o aumento dos gastos”! Segundo uma pesquisa do Ministério da Fazenda, o rombo da Previdência seria 40% menor sem as renúncias fiscais das empresas. Por causa disso, com os benefícios concedidos às empresas o INSS deixou de arrecadar R$ 57,7 bilhões em 2016! Ainda, como explica a economista Denise Gentil, “o déficit foi provocado pelo pagamento de juros, o maior gasto do orçamento do governo. Enquanto o déficit anunciado da Previdência pelo governo é de 149,7 bilhões de reais, o governo entrega ao setor privado algo em torno de 501 bilhões ao ano, ou seja, 8% do PIB. A conta não fecha, principalmente, pelo gasto com a dívida pública. O ajuste fiscal que pretende cortar os gastos da Previdência não vai resolver o problema das contas do governo porque, para isso, é preciso corrigir a política monetária. A verdadeira reforma teria que ser na política monetária e cambial do Brasil, porque é responsável pelo crescimento da dívida pública”. Então, para combater “a crise” não seria aumentando o tempo de contribuição, diminuindo valores ou dificultando o acesso à aposentadoria, mas mudando a política monetária, diminuindo benefícios dos mais poderosos, suas grandes corporações e as irresponsáveis iniciativas privadas [perceba que eu disse “as irresponsáveis”]. Olha a ironia do destino. O próprio presidente da câmara, antigo amiguinho do Temer, o mesmo que aceitava suas tramoias afirmou num encontro nos EUA que o setor privado brasileiro se beneficia do Estado e as isenções e incentivos a empresários inviabilizam as contas do governo e uma agenda social séria no Brasil. Interessante isso!
No entanto, a coisa não para por aí. Há uma informação que nos é negada e pode desmontar o alarde da Previdência estar quebrada. O governo não calcula como receita previdenciária a arrecadação gerada pela Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (Cofins), PIS-Pasep e loterias, embora o sistema de seguridade preveja a contabilização dos impostos. Então, é preferível meter a mão no bolso e prejudicar o futuro dos mais vulneráveis, isentando empresários e iniciativas privadas, escondendo informações e criando narrativas de “mal necessário”! “Imagine, mesmo contribuindo por 25 anos, o trabalhador não terá direito à aposentadoria integral. Por exemplo, se um trabalhador contribuir com uma média de 2.000 reais durante 25 anos, ele receberá uma aposentadoria de apenas 1.520 reais quando chegar aos 65 anos de idade. Caso queira receber um valor superior, o brasileiro deverá continuar no mercado formal após os 65 anos ou começar a trabalhar aos 16 anos. Na prática, para ter acesso à média integral do valor contribuído, será preciso trabalhar formalmente por 49 anos”, afirmou em 2016 Renan Truffi. E isso poderia ser evitado caso os verdadeiros causadores não recebessem alguns benefícios e isenções, possibilitando regularizar a balança. No fim, quem vai gostar muito disso? Como dizem especialistas: “A reforma também tem outro objetivo: achatar os gastos públicos. Ao fazer isso com a Previdência e com a Assistência Social, ela também vai liberar mais recursos para pagar juros. E os grandes proprietários de títulos públicos no Brasil são os mesmos dos fundos de previdência, que são os fundos dos bancos”. Perde o povo, ganham os vampiros! Temos noção das futuras consequências? Além do empobrecimento na velhice, alguns, ao perceberem que no fim da vida não receberão um valor minimamente digno, não contribuirão, os quais cairão, quase coagidos, de mãos beijadas na iniciativa privada, esvaziando os cofres da Previdência!
Por conta disso, temo o Temer instrumentalizar esses pastores, com grandes audiências e influências na mídia e no congresso. Sob a égide da fala teológica, eivada de interesses pessoais, esses líderes religiosos podem viabilizar na consciência dos nossos irmãos e de seus colegas do legislativo a proposta dessa Reforma. Contudo, a partir desse lugar/questão, podemos ler Is 1, 10ss e usarmos como óculos de discernimento para não cairmos nisso.
No texto, o profeta, em 1,10, abre um novo conjunto de discussões convocando seus interlocutores a ouvirem a voz do Senhor, ao mesmo tempo que os chama de Sodoma e Gomorra. Pelo que parece, algo de muito sério estava estabelecido na nação, a ponto da memória dessas duas cidades serem aplicadas aos cidadãos, em especial à liderança. No decorrer do anúncio, somos informados sobre a causa do descontentamento profético. O profeta denuncia o discurso dissimulado dos operadores da religião, os quais tornavam as práticas rituais instrumento mascaradores da opressão e falta de compromisso com a justiça (v.11-15). Os sacrifícios, os cânticos, as ofertas e incensos tornaram-se objetos de blasfêmia, porque serviam como ocultadores das condições desumanas e odiadas por Deus. Por isso, “quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei” (v.15). O discurso religioso estava a serviço da ocultação de perversidades! Isaías, no sopro de Javé, percebe o esquema dissimulado e descortina o funcionamento dessa perversão e anuncia, como uma escolha irrevogável: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas”! (v.16-17).
A voz do profeta precisa ser ouvida hoje. A questão da narrativa de déficit previdenciário e Reforma escondem detalhes importantes e ocultam interesses impiedosos. O apoio religioso de pastores e líderes evangélicos tornaria, mais uma vez, a tradição de fé e suas práticas instrumentos dissimuladores dos verdadeiros problemas e impiedades, inclusive com falsa imagem de aprovação divina. Certamente, restaria somente a ira de Javé e sua impaciência com tamanha irresponsabilidade.
Esses convidados de Temer necessitam da iluminação das Escrituras e o temor a Javé para não servirem seus corpos e influências aos interesses anti-Reino/evangelho de grupos ladeados pelo presidente da República. Esperamos que Deus ajude a igreja brasileira no discernimento, impedindo-nos de cairmos nessa armadilha.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Como assim “essa gente incômoda”? Sobre o artigo da Veja.


Nestas últimas semanas, as mídias sociais foram bombardeadas por uma enxurrada de respostas ao artigo “Essa gente incômoda”, publicado pela revista Veja e assinado por J.R Guzzo. Ao lê-lo e, ao mesmo tempo, acessar as críticas, inclusive de instituições denominacionais (A CGADB publicou uma nota oficial a respeito), fiquei me perguntando se estavam falando do mesmo texto. Pensei: nossos irmãos não leram o texto inteiro ou temos sérios problemas de interpretação morfossintática! A primeira opção não deve ser descartada, pois o artigo só foi disponibilizado para assinantes, e é possível que isso tenha gerado manifestações apologéticas precipitadas. Se a segunda for a melhor opção, infelizmente, necessitamos dar a mão à palmatória e avaliarmos o nosso nível de leitura, compreensão de texto ou, até mesmo, enrijecimento destemperado, típico de “gato escaldado com medo de água” – e não sem motivos, porque, como o próprio texto mostra, por vezes há generalizações rasas em relação ao multifacetado movimento evangélico brasileiro. Independentemente das possíveis razões para esse frenesi, desejo interpretar o tal artigo rapidamente (para não ser, também, mal compreendido, porque quem fala muito acaba não sendo lido integralmente).
Antes de qualquer coisa, precisamos entender que o autor do artigo usa a ironia, a interdiscursividade (ecoa os discursos dos quais critica) e aplica uma linguagem ambígua, para tornar o texto mais atrativo, polêmico e vendável (não se esqueçam de que a revista, mesmo online, é paga!). Fazendo isso, correu o risco de ser interpretado precipitadamente, especialmente ao usar (entre aspas) as falas dos preconceituosos que ele mesmo satiriza, abrindo portas para confundirem o discurso dos interlocutores com o dele – aqui está o principal ponto de tensão com os evangélicos ofendidos. Sem mais delongas, vamos ao conteúdo da reportagem.
O artigo é dividido nitidamente em duas partes. Os dois primeiros parágrafos são introduzidos por uma afirmação cujo desenvolvimento acontece logo em seguida. Guzzo vaticina, mesmo que sem muitas bases acadêmicas, que os evangélicos brasileiros são alvo de preconceito e isso revela a fragilização da liberdade religiosa brasileira. Para um país democrático e laico, confessar esse tipo de postura é vergonhoso, mesmo porque os por ele denunciados dessa ardil perspectiva se acham o mainstream da intelectualidade nacional. Em suma, quem são esses contrários à liberdade religiosa? Guzzo os chama de “classes mais altas” e “consideradas as mais civilizadas”. Perceba, quando ele diz “consideradas” não está confirmando tal afirmação, mas indica o que pensam sobre si mesmos. A partir daí ele começa uma série de ironias zombando da arrogância desses paladinos da intelectualidade brasileira. Guzzo apresenta como essa classe trata os evangélicos: desprezo, irritação e antipatia. Por favor, entenda, o autor não está dizendo que os evangélicos sejam isso, mas refere-se aos supostos intelectuais como portadores dessa percepção. O artigo, mesmo sendo mal interpretado, denuncia esses supostos “civilizados” como ignorantes e preconceituosos. Basta continuar a leitura para compreendermos sua ironia. Essa classe arrota que são “mais ricos, mais instruídos, mais viajados, mais capacitados a discutir política, cultura e temas nacionais”. Por isso, ele usa ironicamente as expressões “sabe-se” e “são geralmente descritos assim”. Leia com cuidado, porque a imagem descrita dos intolerantes é uma caricatura arrogante deles mesmos e quando se refere aos evangélicos o texto usa a mesma estratégia literária: apresentar caricaturas. Ou seja, quando ele fala desse “povo, em grande parte do ‘tipo moreno’, ou ‘brasileiro’, vem sendo visto com horror crescente pela gente de bem do Brasil”, e coloca entre aspas “moreno” e “brasileiro”, está ecoando a maneira como essa suposta elite interpreta os evangélicos. Aqui, mostra-se o racismo desse grupo preconceituoso, o qual descredencia os evangélicos não somente por serem vistos como retrógrados, mas, também, por serem identificados como pobres e negros. Além disso, o texto revela esse preconceito como um sintoma de ódio ao próprio Brasil, porque o país é multicultural e mestiço. Essa elite é, consequentemente, à luz da argumentação do texto, negadora da própria brasilidade, cujo desejo é uma nação inexistente, a imagem e semelhança deles mesmos. Primeiramente, o autor com essa fala não diz concordar com essa imagem, mas é a elite preconceituosa que assim o faz. E mesmo que seja, no fundo, a sua opinião, o autor esconde discretamente e é hipócrita o bastante para criticar os preconceituosos por ele apontados. Por isso, não é possível, com justiça, acusá-lo disso. Segundo, os evangélicos serem em sua maioria pobres e negros não é um demérito na perspectiva do autor, mas para a elite preconceituosa. A canção As Caravanas (2017) de Chico Buarque faz o mesmo, descreve criticamente usando a linguagem dos preconceituosos, a caricatura das elites cariocas em relação às comunidades que descem dos morros para partilharem os espaços nas praias da cidade maravilhosa. Guzzo afirma que “nada é tão fácil de perceber quanto um preconceito que se pretende bem disfarçado”. Ele chega a denunciar a própria mídia como parte desse grupo: “Os meios de comunicação, por exemplo, raramente conseguem escrever ou dizer a palavra ‘evangélico’ sem colocar por perto alguma coisa que signifique ‘ameaça’, ‘medo’ ou ‘perigo’”.
O texto mostrará, ainda, as outras razões do preconceito enraizado na leitura desses que se acham “povo de bem”. Novamente, entenda, Guzzo não diz que ele e/ou esse grupo seja/am o povo de bem. Isso é uma ironia! Como às vezes dizemos para um amigo arrogante: “diga ai sabichão“. Quando usamos essa estratégia discursiva não estamos afirmando que ele seja sábio (“sabichão”), mas o contrário. Se esse grupo preconceituoso trata os evangélicos como minoria conservadora, o autor deixa claro que hoje em dia eles são uma grande parcela do povo brasileiro. Por isso, a bancada evangélica, alvo das duras críticas desses intelectuais citados no artigo, não representa uma minoria fora de lugar, como querem os satirizados pelo autor na revista. O artigo fala duas coisas sobre isso. Primeira, os parlamentares são tratados como um corpo estranho e unitário. Quando se afirma “São tratados como uma coisa só — e ruim”, critica-se a pouca informação dos acusadores preconceituosos, porque pensam que os políticos evangélicos são todos iguais e ruins. Segunda coisa, para o autor o Brasil de primeiro mundo, e ele coloca entre aspas, progressista e bem avançado nas pautas citadas (“matéria de família, sexo, crime, polícia, drogas, educação, moral, propriedade privada e mais umas trezentas outras coisas”) é uma ilusão de ótica desses grupos preconceituosos. Em suma, o conservadorismo evangélico – para o autor nem todos são assim e tratar de maneira generalizada é um dos erros dessa elite –, não é coisa de evangélico, porque em geral a nação é conservadora em relação a esses temas. Para tais intelectuais progressistas, segundo o autor, os evangélicos são inconvenientes, porque atrapalham o bom andamento do Brasil por eles idealizado. Contudo, Guzzo coloca-os na realidade e diz: o brasileiro é assim, pensa dessa forma, vota dessa maneira. Consequentemente, o próprio Brasil, então, é inconveniente. Como o texto diz, “[...]. Ou seja: o problema dos evangélicos está nas suas convicções como cidadãos. No fundo, é a mesma história de sempre. O que atrapalha o Brasil, na visão das pessoas que se consideram capacitadas a pensar, são os brasileiros. O povo brasileiro, de fato, é muitas vezes inconveniente — principalmente quando vota. Os intelectuais, preocupados, lamentam o crescimento da bancada evangélica — mas raramente se lembram de que ela só cresce porque cresce o número de eleitores evangélicos”. Esses evangélicos, na verdade, diria o autor, compõem o Brasil, querendo eles ou não. Quando usa a expressão “pode ser uma pena”, está mais uma vez jogando com a maneira desses supostos intelectuais tratarem as coisas. Como se dissesse: sendo bom ou não, os evangélicos representam uma grande parcela do Brasil. Desta forma, para o autor, o Brasil é isso também, ou mais isso do que qualquer outra coisa. Não dá para saber se Guzzo se sente incomodado com essa força evangélica. Isso é ir muito além do texto. A única coisa deixada para nossa leitura é a afirmação da necessidade de aceitação da realidade do crescimento evangélico, dado incômodo não para ele, mas para esses criticados no artigo. É como se os intelectuais indicados esperassem ingenuamente outra realidade. Aqui podemos fazer uma pequena crítica. O autor se esqueceu de dizer com mais exatidão a respeito da presença de políticos e pastores progressistas. Contudo, entendo que ele deseja gastar tempo mostrando a pouca habilidade democrática desses preconceituosos. E, se querem um país plural precisam aceitar a presença de grupos com posturas não progressistas. Aqui, pelo histórico da revista Veja, essa parte do mundo evangélico se adequa mais à pauta editorial do que as elites criticadas na postagem.
Na segundo parte do artigo, para dar ar de imparcialidade, Guzzo expõem alguns problemas públicos do mundo evangélico. Com exemplos, ele indicará como, por vezes, as igrejas evangélicas se portam de maneira estranha e repreensível. Para isso, cita algumas fraudes: “Pastores, bispos e outros peixes graúdos tomam dinheiro dos fiéis, sob a forma de donativos, em troca de ofertas a que obviamente não podem atender: desaparecimento de dívidas, expulsão de demônios, cura de doenças, enriquecimento rápido, eliminação do alcoolismo, dependência de drogas e outros vícios — enfim, qualquer milagre que possa ser negociado. Diversas igrejas se transformaram em organizações milionárias, e muitos dos seus líderes são charlatães notórios — alguns deles, aliás, já chegaram a ser presos por delitos variados em viagens ao exterior. Estão acima do Código Penal e da Lei das Contravenções em matéria de fraude, trapaça e quaisquer outras formas de estelionato”. Como pastor e inserido entre os evangélicos, sei que todas essas acusações, em vários casos, são verdadeiras; ou você nunca leu no jornal ou presenciou alguma ação desonesta em ambiente eclesiástico? Mas isso é afirmar que todas as igrejas são assim? NÃO, claro que não! É exatamente esse cuidado que o texto tem. Guzzo indica alguns vacilos históricos midiaticamente conhecidos de líderes e instituições, mas afirma que “[...]. São o joio no meio do trigo”. E, ainda, querendo ou não, os privilégios jurídicos das instituições religiosas facilitam essas manobras. No entanto, ele, novamente, discreto o bastante para não mostrar-se contra tais conquistas jurídicas, somente afirma, por ser um assunto complexo, que “ninguém realmente sabe o que fazer de prático a respeito disso”. Talvez, você se incomode com a frase “há tanto joio nas igrejas evangélicas que fica difícil, muitas vezes, achar o trigo”. Avalie, ele não é evangélico e nos conhece superficialmente. Seja por preconceito ou por precipitação, alguém de fora chegar a essa conclusão deveria gerar em nós reflexão e descontentamento em relação a alguns erros cometidos. Infelizmente, e digo com consternação, a imagem criada publicamente por nós evangélicos não é muito oportuna. E ele, mesmo vivendo para além dos muros do arraial evangélico, conclui ser uma escolha pessoal ir ou não a igreja, dar ou não dinheiro, aceitar ou não as promessas por vezes mirabolantes de pregadores apoteóticos etc. Achei isso democrático e responsável. Os que são “trigo” e não podem ser contados entre essa lista de ações desonrosas não se sentirão caluniados. Pelo contrário, farão coro e denunciarão tais mazelas.
Por fim, Guzzo novamente ironiza essa classe preconceituosa. Mesmo supostamente progressista e democrática, seus componentes são capazes de desejarem o sumiço daqueles que desagradam. Para ser ainda mais duro, ele deixa de lado as meias palavras e faz uma amarga crítica: “É duro, mas o fato é que, num momento em que apoiar a diversidade passou a ser a maior virtude que um cidadão pode ter, fica complicado sustentar que no caso dos evangélicos a diversidade não se aplica”. Assim, o artigo joga na cara dos preconceituosos sua hipocrisia, porque desejam ser aceitos em suas expressões por vezes vistas com incômodas, e chamam de conservadores seus antagonistas, mas quando é a vez desses serem tolerantes e democráticos, mostram sua face nitidamente intolerante. E, para terminar como começou, zomba com a paciência desses grupos preconceituosos: “Em todo caso, para quem não gosta dessas realidades, é bom saber que os evangélicos, muito provavelmente, são um problema sem solução”. Esses são um problema para quem? Para o autor? Claro que não! Eles são incômodos para essa elite intelectual citada pelo artigo.
Ao contrário da interpretação rápida de alguns, o texto está zombando não dos evangélicos, mas da elite supostamente intelectualizada. Para os evangélicos conservadores, essas palavras não são desrespeitosas, porque garantem a eles o direito de pensarem, defenderem e votarem do jeito que desejarem. Por outro lado, os evangélicos mais progressistas poderiam se ofender por pelo menos duas razões. Não serem lembrados no texto e, talvez, colocados entre as elitistas intolerantes. Na verdade, o grande problema nesse rebuliço todo foi a má interpretação do gênero ironia, uma estratégia literária muito difícil de ser discernida e cheia de labirintos semânticos, os quais se tornam insuperáveis quando estamos com pressa ou complexados.
Ainda, é preciso destacar que a publicação não está falando dos progressistas abertos ao diálogo ou até mesmo dos evangélicos filiados às pautas não conservadoras; nem sei bem se ele conhece esse outro lado da moeda. Além disso, com um olhar mais acurado, é possível perceber que os progressistas são os mais atacados no texto. Ainda, é possível encontrar indícios no artigo que denunciam, inclusive, sua filiação conservadora e não o contrário. No entanto, essa é outra discussão...