segunda-feira, 8 de julho de 2019

Vai tristeza e diz para ele...



Hieorofania é irrupção, sacralidade teimosa e invasora do mundo da vida e sua cotidianidade. Na voz e violão do imortal João Gilberto, “Chega de saudade” pode ser colocada nessa categoria, pois é evento epifânico. Depois dele, nunca mais nossos ouvidos brasileiros seriam os mesmos. A primeira vez dessa canção, nos lábios de Elizabeth Cardoso, o violão no fundo do disco “Canção do Amor Demais” indicava os relampejos do incomum, um totalmente outro cuja melodia apontava recriação; era a arte "gilbertiana" despontando. Pouco depois, violão posto, sentado tipo leitor medieval, peito em riste e alma ungida de beleza, no final dos anos cinquenta, surge entre nós a voz-mansa, dedilhado-perfeição e melodia-síntese. Eis aqui a Bossa Nova, era o João do Brasil mudando a estética. Não me importa (como diz um texto bonito que li por aí) seu claustro, conflitos relacionais ou esquisitices pessoais, vale-me o orgulho de ser da mesma Terra Brasilis de tantos outros “joãos” e “marias”.

Na capa do antigo vinil, mão em rosto e olhar fito, João Gilberto parece confessar, extasiado e cansado, o acabara de provocar. De agora em diante, diversas nações seriam obrigadas a ouvir a língua mais poética do mundo e curvarem-se diante de sua potencialidade. Ele é brasileiro! A genialidade agora carrega a memória indígena, o sotaque melódico africano, a batida em cordas do tamborim e a conjugação de verbos polissêmicos do terceiro mundo.

Certa vez, o poeta Carlos Nejar – esse também é acostumado com hierofanias – disse-me que o homem é menos do que o poeta. Não estaria o escritor de "Os Viventes" desconsiderando a grandeza do artista. Pelo contrário, sua fala eterniza o autor em sua criação e eleva-o à condição insuperável de canal, fonte e caminho para o fulguro da transcendência. Por isso, a tristeza não é maior porque a arte de João Gilberto perenizou-se na cultura poética da história humana e todos poderão, ao revisitá-la, sem que o tempo ou a morte ocultem-na, estupefatos suspirar: sagrado, belo!

Sim, vai saudade e diz para ele que sua obra fica (!) e animará a vida e alma de tantos quantos ouvirem seus acordes, voz, violão e paixão.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

NEM GREGOS, NEM TROIANOS: POLÍTICA BRASILEIRA E O RADICALISMO CEGO






Ninguém faz avaliações sem pressupostos, deferências, referências ou preferências. Todos são interessados por aquilo que avaliam e a neutralidade seria a negação do que mais nos caracteriza, a saber, nossas subjetividades, tal qual negar o corpo, história e vida. Todo discurso é eivado de ideologia, alerta-nos a Análise do Discurso. Contudo, a fim de evitar idolatria e irracionalidade, para refletirmos o Brasil juntos, como povo, precisamos vencer a inflação dos nossos desejos pessoais e preferências.
Por exemplo, cresci acreditando que só pobre é preso. Acostumamo-nos com a impunidade. Nunca imaginaria ver grandes empresários e tantos políticos, quando corruptos, presos. Mesmo que alguns deles estejam livres, como o doleiro Cerveró, presenciamos a aplicação da justiça sobre setores e pessoas historicamente imunes – esperamos que a “sangria não seja atada”. A Lava-jato prestou um serviço importante. Contudo, isso não é um salvo-conduto permitindo juízes e promotores agirem como bem quiserem. A própria Lava-jato corre risco se permitirmos ou legitimarmos processos com problemas ou ilegalidades. Caso haja algum tipo de equívoco na maneira como foi articulado qualquer procedimento, é preciso averiguar, porque somente preservando a isonomia das instituições e o Estado Democrático de Direito será possível manter a justiça e a democracia. Então, nem gregos ou troianos. Atacar toda a lava-jato é demasiado equívoco, mas blindar acriticamente Moro como se ele pudesse fazer qualquer coisa, também é muito perigoso e coloca todos nós em risco, porque precisamos de tribunais submissos à ética e procedimentos aceitos legalmente. Todo rigor à corrupção, mas com todos os limites da Constituição; nem mais, nem menos.
A mesma coisa se aplica em relação ao fenômeno do anti-lulista instalado no Brasil. Por sua vez, a idolatria protecionista pró-PT é a outra face da moeda. Não podemos negar, o Brasil alcançou taxas econômicas reconhecidas no período do governo do PT, tirou milhões da miséria, levou universidades aos cantos mais esquecidos do Brasil e passou a crise econômica sem abalos. É pouco razoável fingir que não houve avanços sociais no período do governo Lula. Todavia, é preciso admitir que o PT fez alianças contrárias às suas promessas, muitos de seus políticos se envolveram em corrupção, foram seduzidos pelo poder, não fizeram as reformas prometidas e não tiveram coragem para enfrentar interesses de gente que saqueia o Brasil. É equivocado não admitir tais coisas. No entanto, seria outro extremo defender raivosamente a ideia do PT como inventor da corrupção, responsável pela instalação do saque à Petrobrás ou o criador da ilegalidade entre empresas e políticos. Essa narrativa é perigosa, porque fragiliza a consciência e torna o povo susceptível a respostas simplistas a problemas complexos. Toda escolha como fruto de ódio tem poder de nos destruir. Por isso, não seria nada inteligente interpretar os que fazem essa análise como ptistas ou antiptistas.
Dentro desse contexto Lula-PT está outro fenômeno similar, o bolsonarismo. Criou-se no Brasil desde as eleições a ideia de que qualquer análise ao governo significa ser petista ou marxista. Esse é mais um indício de extremismos e dualismos superficiais. Mesmo com a existência de outros candidatos, qualquer crítica seria sinônimo de defesa do Haddad. E o contrário, por vezes, também acontecia. Era como se Ciro, Marina, Daciolo, Alkmin e Boulos não existissem e estivéssemos em uma eleição bipartidária. Essa lógica se alargou e agora, depois das urnas, ainda permanece. Fica difícil a participação pública equilibrada, porque o protecionismo impede as críticas e avaliações necessárias. Para os mais exaltados eleitores do atual governo, não há nada para se criticar ou não existe qualquer razão para desconfianças. As falas mais radicais e os episódios estranhos são aceitos passivamente. Quando alguém, mesmo da direita, faz qualquer intervenção ou ponderação logo é chamado de esquerdista ou marxista enrustido (vejam o caso da deputada Janaína Pascoal ou do deputado líder do MBL). Na outra ponta, raciocínio similar deve ser aplicar ao ressente escândalo da cocaína encontrada na comitiva do governo. Seria também precipitação decretar sem um processo legítimo de investigação qualquer culpa ao presidente da república.
Talvez, um dos dualismos mais difíceis é a demonização mútua esquerda-direita. No Brasil, por exemplo, criminalizou-se qualquer assunto que pareça estar próximo do horizonte reconhecido como próprio dos interesses da “esquerda”. Entre tantas razões não muito louváveis, como a pouca sensibilidade com políticas e discussões sociais, o antagonismo profundo ao PT tornou pecado escabroso qualquer interesse relacionado à esquerda. Contudo, algumas coisas precisam ser ditas sobre isso. Primeiro, preocupação por justiça social, direitos humanos, bem estar social, defesa dos fragilizados sociais e direito são preciosos temas civilizatórios. Se a esquerda os tornou seus temas, é de bom alvitre reconhecer o acerto. Por outro lado, a direita clássica como sua defesa à democracia e instituições precisa ser valorizada.
Por isso, creio que a Igreja, enquanto movimento de Jesus, observa e discerne a partir dos valores do Reino tanto as escolhas pessoais quanto o funcionamento social. Assim, precisa sempre desconfiar de qualquer projeto político limitado e temporal, e reconhecer os pontos positivos dos dois ou três lados. Contudo, por sermos também historicamente localizados, precisamos continuamente colocar sob suspeita nossas leituras e sermos abertos às múltiplas possibilidades, o que ajudará na melhor aplicação e reconhecimento dos indícios do Reino em nosso contexto. Essa é a razão de não fecharmos, enquanto igreja, com nenhum projeto político partidário; nenhum! O contrário seria, sim, misturar igreja e Estado. Dessa forma, especialmente para os protestantes/evangélicos, o melhor modelo é a laicidade do Estado, o que nos projete mutuamente e nos dá liberdade de voz quando necessário para denúncia e anúncio, como a tradição bíblica e a história da Igreja testemunham.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Apocalipse 13 e a Marcha para Jesus em SP






O Apocalipse de João foi interpretado de várias maneiras. Na tradição futurista, comum entre os dispensacionalistas, as trombetas, taças, selos, monstros, mortes e demais imagens preservadas no texto são lidas como eventos da história da Igreja ou, em grande parte, presságios do fim dos tempos. Mesmo importante entre tantas denominações, essa perspectiva acaba perdendo de vista, ou eufemiza, a dura crítica do visionário. Seguindo tantas pesquisas já bem estabelecidas, o contexto do Império Romano, sob a égide de Domiciano, é uma boa hipótese para compreensão na narrativa apocalíptica. Sem negar seu caráter “por vir”, há tantos indícios no próprio texto que mesmo os futuristas admitirão o primeiro nível de compreensão. Hermeneuticamente, a perspectiva do texto como denúncia ao discurso imperial e sua falsa paz, Pax Romana, serve-nos ótimos óculos para interpretação e leitura contextual. Mais do que fonte de antecipação para eventos futuros, esse horizonte ajuda-nos analisar, à luz das Escrituras, a relação da igreja brasileira com o Estado.

Entre os textos do Apocalipse, o capítulo 13 é o mais instigante. Na tarefa de entendê-lo, precisamos dar uma olhada na narrativa anterior, Ap 12, no qual aparece uma mulher vestida de sol com a lua nos pés. Ela estava para dar à luz. Inesperadamente, aparece um Dragão, com sete cabeças, dez chifres... horrível! O ser caótico desejava devorar o filho da mulher cósmica, mas antes disso Deus o arrebatou para o trono. Na mesma parte, outra cena é pintada. Há uma briga no céu entre Miguel e os anjos contra o Dragão. Chamado de antiga serpente, Diabo e Satanás, ele cai precipitado na terra, quando volta a perseguir a mulher e seu filho. Novamente seu intento violente é frustrado. Contudo, João informa que agora suas forças seriam canalizadas contra os seguidores de Jesus, talvez por serem os representantes da criança livrada. Entenda, o visionário está descrevendo sua experiência e indicando as características do demoníaco para serem capazes de resistir e habilidosamente discerni-lo quando despontasse. Ele está preparando-nos para o cap.13 e mostrará onde o encontraremos. Deixe-me explicar algo. Hoje em dia não defendemos nas pesquisas a teoria da perseguição. É o contrário. Com as cartas enviadas às igrejas da Ásia, percebemos que as comunidades viviam certas benesses e estavam felizes no império (“rico sou e de nada preciso... [Ap 3.17]”, lembra?) . Todavia, João percebeu esse risco e alertou as igrejas e lideranças a respeito dos perigos dessa relação e desnudou a falsidade do discurso de paz veiculado pelo Império, porque negava princípios básicos da fé anunciada pelo Cordeiro.

Bom, agora podemos ler o capítulo 13. Se olharmos com cuidado veremos a descrição de duas bestas: do mar e da terra. A primeira condensa em si todas as características dos animais de Dn 7. Ou seja, ela reúne as mazelas e monstruosidades dos reinos contrários a Deus na história. Por sua vez, a segunda besta está a serviço da primeira e leva o povo à adoração idólatra e aceitarem-na como digna de valor religioso. Seus sinais e linguagem seduzem alguns das igrejas. Eles recebem uma identificação de pertencimento e sem a marca não entrariam no necessário sistema de compra e venda. Dentro dessa densa descrição, quando a primeira besta é descrita, lemos em Ap 13 uma informação fundamental, o que coloca João no lugar de enfrentamento direto: “E deu-lhe o Dragão o seu poder, seu trono e sua autoridade”. Pasmem, o Apocalíptico está chamando o sistema imperial de representante do Dragão, do próprio antagonista de Deus e do Cordeiro! Não menos perigosa é a besta da terra, porque ela tem aparência de cordeiro, mas na realidade é eco do Dragão e está a serviço da primeira Besta.


Não sei se você percebeu, mas João desconfia do Estado. Mesmo se auto-afirmando como promotor de paz, os indícios sociais e a revelação denunciam para o visionário o engodo da relação espúria entre religião e Besta, Igreja e Estado. Deus mostrou ao profeta os indícios, ações e práticas do Império contrários ao projeto de Jesus. O visionário percebeu que a violência era maquiada por um discurso de paz, suas taças estavam cheias de sangue e a balança desigual. No entanto, os benefícios e trocas cegavam os seguidores de Jesus na Ásia, amordaçavam a denúncia dos crimes e impediam a igreja de se afastar. Alguns não tinham manchado suas roupas, mas muitos sucumbiram e foram seduzidos. Se levarmos a sério o Apocalipse de João, encontramos importantes advertências: 1. não é possível seguir o cordeiro sem desconfiar do Estado; 2. cuidado, não deixe os benefícios do sistema político favorável cegarem-no a ponto de passarem desapercebidamente os indícios de projetos contrários ao evangelho; 3. a única relação entre igreja e Estado é a profética.

E a marcha para Jesus desta semana em SP? Eu vi pastores e pastoras ovacionarem e conduzirem a multidão aos pés do Estado que usa o símbolo de uma arma em punho como parte de sua proposta e imagem. Assisti consternado, a Igreja e seus líderes, no meio de louvores e culto, em gritos, repetirem o slogan de um projeto político partidário por vezes cheio de violência. Ouvi chamarem de mito um político e fizeram do púlpito palanque – interessante, o dragão está presente em vários mitos cosmogônicos do Mundo Antigo.

Não se engane, quando a igreja perde seu lugar profético e se mistura com o Estado, seja por inocência ou desejo de poder, os pastores se tornam representantes da Besta e os membros candidatos a serem marcados por ela.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

O uso do Método Histórico-crítico na erudição bíblica pentecostal: Robert Menzies



Já tenho demonstrado em livro (“Experiência e Hermenêutica Pentecostal” - CPAD), artigos e publicações menos técnicas em posts, que a hermenêutica pentecostal tem uma história dinâmica, dialogal e multifacetada. Se no início do Pentecostalismo os fiéis pentecostais liam a Bíblia de maneira “pragmática” (Stronstad), com horizontes muito próximos do “Bible Reading Method” dos movimentos de santidade, o mesmo não pode ser dito em relação às décadas posteriores, quando acadêmicos (Fee e outros) se deram o trabalho de responder à acusação de ser a leitura pentecostal eivada de alegorias imprecisas. É nesse contexto de aproximação com a academia que encontraremos estudiosos pentecostais dialogando com as modernas pesquisas bíblicas e se valendo de ferramentas da exegese acadêmica.

Na esteira desse fenômeno, está o importante biblista pentecostal Robert Menzies. Conhecido entre nós brasileiros, o doutor pela Universidade de Aberdenn é um exemplo da utilização de métodos críticos na erudição pentecostal. Como sabemos, o Método Histórico-crítico (MHC) é um conjunto de ferramentas desenvolvidas no período da Modernidade, sob os auspícios do paradigma do sujeito. Entre essas estão a Crítica Literária, Crítica das Formas, Crítica da Tradição e Crítica da Redação. Se por um lado o MHC era tratado como destruidor da fé e da veracidade ou historicidade das narrativas bíblicas, por outro, alguns evangélicos de perspectiva mais neo-ortodoxa utilizavam-no de maneira moderada. Consequentemente, mesmo que isso levasse à confirmação de que a Bíblia é um conjunto de tradições e fontes redigidas teologicamente, ela não perderia o caráter de obra divina e não seria tocada a certeza de que seus autores foram instrumentos da ação do Espírito Santo.

Percebemos nitidamente essa predisposição metodológica na belíssima obra de Menzies publicada pela CPAD, “Pentecostes: essa história é a nossa história”. Nesse livro, quando no final do parágrafo no qual se discute o uso de Joel, afirma-se que At 2 “mostra sinais de edição cuidadosa por parte de Lucas”. Para entendermos o que isso significa, antes é necessário saber que a Crítica da Redação avalia o processo da produção dos textos bíblicos e pressupõe que o autor fez esse trabalho dentro do escopo redacional pretendido para sua obra. Essa crítica observa a orientação teológica que guia a seleção das fontes e as mudanças realizadas nas tradições recebidas. Temendo ser mal interpretado, Menzies faz uma nota de rodapé explicando que mesmo instrumentalizando-se dessa perspectiva própria do método crítico, ele não pretende desconsiderar a historicidade da Bíblia ou desqualificá-la. Veja o que ele diz: “Quando me refiro à atividade editorial de Lucas, não quero de forma alguma dar a entender que a narrativa de Lucas é historicamente inexata. O que desejo é apenas salientar que, enquanto Lucas escreve história e história com precisão, ele o faz com o propósito teológico em vista [...]. Embora seja suposição minha de que o trabalho editorial de Lucas reflete com precisão e enfatiza temas dominicais e apostólicos, a questão essencial que procuro responder centraliza-se no conteúdo da mensagem de Lucas. Afinal de contas, é essa mensagem que acredito ser inspirada pelo Espírito Santo e autorizada para a igreja” (p.26).

Com essa moderação, sob as luzes do evangelicalismo americano, Robert Menzies usou o MHC na leitura de Atos dos Apóstolos. Menzies, ou o próprio Stronstad, percebeu estratégias redacionais teologicamente articuladas em Lc-At e afirmou que o autor editou tradições anteriores modelando-as em um processo redacional, o que só seria possível afirmar aplicando a crítica da redação. E, por incrível que pareça, foi exatamente esse uso do MHC pelos eruditos pentecostais que possibilitou tratar Atos não como simples descrição do passado, mas história teológica, perpassada por padrões literários organizados com objetivos também didáticos; assim, aumentou-se a ênfase no caráter teológico da narrativa de Atos tornando-a mais do que exposição de acontecimentos do passado, mas afirmações pneumatológicas, eclesiológicas, missiológicas etc. Tanto Paulo quanto Lucas, nesse sentido, são verdadeiros teólogos.

Na obra “Empowered for Witness”, Menzies mostra mais uma vez sua dependência às ferramentas histórico-críticas. Em seu importante e refinado livro, ele lerá a pneumatologia de Lucas-Atos em diálogo com a tradição do Judaísmo do Segundo Templo e a vasta literatura apócrifa e pseudepígra – como a Crítica da Tradição do MHC recomenda fazer. Por isso, seu trabalho mapeará os textos da diáspora, Sirácida, a literatura apocalíptica (1 Enoque e outros) e a literatura de Qumran (Testamento dos dois Espíritos [1QS]). Ou seja, para descrever o Espírito Santo em Lucas ele considera as tradições judaicas, em uma perspectiva da história da tradição e história comparada das religiões. Citando especialistas do judaísmo do Segundo Templo e eruditos do NT como G. Vermes, E. P. Sanders e J. Neusner, Menzies lerá a experiência do Espírito das comunidades cristãs neotestamentárias a partir do background judaico. Leia o que Menzies afirma: “reconheço que o Judaísmo providenciou o contexto conceitual para a reflexão pneumatológica de Lucas, assim como para a igreja primitiva” (p.49).

Contudo, isso não deveria incomodar o/a leitor/a, porque ao introduzir algumas das partes do mesmo livro ele admite o uso de pelo menos duas ferramentas do MHC, Crítica Literária e Crítica da Redação. Ainda citando Menzies: “o estudo que se segue é uma tentativa de reconstruir o papel de Lucas no desenvolvimento da pneumatologia do Cristianismo das Origens. A perspectiva da pneumatologia lucana pode ser elucidada através de uma análise da maneira como ele usa e modifica Marcos e Q [fonte reconstruída pela crítica literária]” (p 17). Mais a frente, de forma contundente, ele afirmará: “o método de análise empregado é a crítica da redação. Eu examinarei relevantes passagens em Lucas-Atos no esforço de detectar os aspectos da criativa contribuição de Lucas para a tradição concernente à obra do Espírito Santo” (“Empowered for Witness”, p. 104).

Na história da hermenêutica pentecostal, percebemos que não há “o” método que seja próprio da sua identidade. Mesmo os pentecostais mais animados com a maneira reformada de ler a Bíblia, os quais, por vezes, citam R. Menzies, não podem se esquecer da presença, em sua forma mais moderada, do “malquisto” Método Histórico-crítico. Entendam: Santo, perfeito e bom é Deus e não o método exegético. A despeito dessa obviedade, infelizmente percebemos, aqui e acolá, fundamentalismos metodológicos alimentados de apologética rasa e infantil.


terça-feira, 21 de maio de 2019

“TODA AUTORIDADE GOVERNAMENTAL VEM DE DEUS”. ISSO SIGNIFICA LEGITIMAR QUALQUER GOVERNO?




Entre as suas últimas publicações, o presidente divulgou um vídeo no qual o pastor congolês Steve Kunda exorta o Brasil a aceitá-lo (Bolsonaro) como enviado ou empoçado por Deus. Por isso, não deveríamos, disse o pastor, criticá-lo, mas simplesmente aceitar a soberana vontade do Senhor. Essa afirmação, entre tantos outros problemas, tenta criar em torno do presidente uma redoma divina, desqualificando qualquer crítica ou oposição, porque significaria ser contra o próprio Deus. O cinismo antidemocrático dessa publicação ecoa o uso desonesto de uma série de textos bíblicos e discursos teológicos, os quais, por vezes, são aplicados aos pastores e pastoras que buscam neutralizar pelo medo qualquer objeção. Contudo, quando a mesma estratégia é instrumentalizada pelo representante da República, estamos diante de grande ameaça à democracia e legitimação religiosa do autoritarismo contra o Estado Democrático de Direito. Um texto não citado pelo bispo congolês, mas presente nas memórias de seu discurso é Rm13. Quero aqui esclarecer alguns detalhes sobre essa passagem bíblica, o que impedirá ser usada de base para desarranjos e malabarismos contra a democracia.

Em Romanos 13.1 lemos: “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas”. Essas palavras precisam ser lidas à luz da estrutura política romana. Paulo não presumia relações democráticas no Império, mas tratou pastoralmente a maneira como os cristãos deveriam lidar com a tarefa de vivenciar a fé no mundo estabelecido sob a égide imperial. Vejamos o texto. O apóstolo começa, de maneira abrupta, depois de discutir sobre as relações pessoais (Rm 12.21), afirmando que “toda alma” (pâsa psyché), referindo-se a todas as pessoas, deveria se “subordinar”. O verbo hupotásso tem sentido de ação livre em relação a alguma coisa. A submissão aqui é aplicada às autoridades constituídas. Paulo diz que toda e qualquer autoridade é estabelecida por Deus seguindo algumas tradições judaicas (Dn 2.21; Is 41.2ss; Pr 8.15; Eclo 17.7; Pr 8,15-16). No entanto, ele também diz: “é instrumento de Deus para estabelecer o bem” (v.4). Esta última afirmação precisa ser lida como uma “generalização” ladeada por “idealização”. Ou seja, em termos ideias as autoridades estão a serviço da promoção do bem. E quando o contrário acontece, como no Nazismo, por exemplo?

A ideia é a seguinte: ora, se a origem das autoridades é divina, logo esta estará sempre a serviço do bem e qualquer que se atrever questioná-la será contrário aos desígnios divinos (v.2). Isso quer dizer que Paulo desconhecia autoridades que descumprem esta função ideal? Pelo contrário, em 1Co 6,1-11 ele tece críticas aos juízes injustos. Contudo, em Rm 13 ele não leva em consideração o desvio desse projeto ideal, mas estabelece o que é em termos paradigmáticos – ou seja, ele parte do modelo previsto para as autoridades. Por isso, esse texto não pode ser usado como instrumento de aceitação passiva diante de lideranças autoritárias e injustas, ou para desqualificação, por exemplo, da luta contra as ditaduras. Só há espaço para essa perigosa interpretação se lermos os versos 1-2 separando-os dos versos 3-4. A abstração de que os governos servem para conduzir ao bem e punir o mal é o que legitima a afirmação de que são instituídos por Deus. A mesma ideia aparece no livro Sabedoria (6,1-11) , no qual se diz que o Senhor é quem dá o domínio aos governos (v.3), mas estes devem servir ao Reino de Deus (v.4), pois se não o fizerem serão punidos (v.5). Então, em Rm 13 Paulo não está interessado em falar das autoridades que não seguem sua vocação de serem promotores da justiça, mas em apresentar o plano original das autoridades, o que legitima o pagamento de impostos. Conseguintemente, qualquer autoridade que seja injusta, corrupta ou desumanizadora não é legítima, porque não está seguindo o estabelecido por Deus para sua vocação.

O apóstolo simplesmente constrói sua argumentação seguindo um princípio teológico: “Deus governa este mundo em oposição aos tiranos e a pesar deles mesmos” [Uwe Wegner - RIBLA 4] . O texto bíblico preocupa-se em defender o pagamento de impostos e tributos por consciência e liberdade, como um bom cidadão, e não por medo de punição ou imposição (v.5-7). Por sua vez, só é possível entender essa discussão lendo o contexto de generalização e idealização. O governo estabelecido por Deus e promotor da justiça é digno de receber os tributos, como ministro de Deus (v.4). Assim, deve-se honrar ou resistir à luz do quanto se adéqua ao projeto idealizado para as autoridades. Consequentemente, resistência e honra devem ser observadas e aplicadas a partir do contexto da materialização ou não do propósito da instituição estabelecida por Deus. Assim, percebe-se aqui o interesse pastoral paulino com a participação cívica da igreja.

Ainda, no contexto que precede Rm 13,1-7 (Rm 12, 9.17.21) está em jogo a prática do bem, que aqui pode ser realizada na justa participação civil de pagamento de tributos e, como contrapartida, o governo exercer com equidade sua função de estabelecimento do projeto exposto em Rm 13.3-4. O papel do governo é imunizar o povo das ações desumanizadoras e injustas. Nessa liderança idealizada, quem pratica o mal precisa temer as autoridades; enquanto os bons e justos, honrarem-na. Nesse sentido, a melhor interpretação dessa discussão paulina não é defender a aceitação de qualquer ação governamental, como se Paulo estivesse anulando a crítica profética. Pelo contrário, em sua parénese ele defende a participação cidadã consciente e livre pelo bem social. Além disso, não é possível afirmar que o texto nega a oposição política adequada aos governos e autoridades que não cumpram seu papel no serviço estabelecido por Deus.

Assim, como – por incrível que pareça – fez Janaina Pascoal, deputada do PSL, precisamos nos perguntar “se um presidente da república na plenitude de suas faculdades mentais publicaria um vídeo desses”. Eu estenderia a pergunta da nobre deputada, a mesma que pediu o impeachment da Dilma e antiga defensora do Bolso, se os evangélicos desse país cairão nessa insanidade e se permitirão ser usados sob a tutela de desonestas leituras da Bíblia.

sábado, 27 de abril de 2019

ELOGIO DO ABSURDO: QUANDO A IGNORÂNCIA TOMA AS RÉDEAS DO MINISTRO E PRESIDENTE






          Na obra “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Roterdã, a Loucura é descrita como um ser e divindade do Olimpo. No livro, ela fala de si mesma como guiadora e realizadora de diversas práticas cotidianas e intelectuais. O humanista insinua que algumas falas, práticas e perspectivas, por vezes comuns e corriqueiramente estabelecidas, eram aberrações e materialização da deusa Loucura. Os silogismos aristotélicos inférteis, a ilusão consumista, a teologia escolástica e diversas outras práticas e discursos foram tratadas como formas de manifestação da deusa insana. Erasmo, com acidez irônica, estava dizendo que as pessoas emprestavam suas bocas e corpos para alucinações intelectuais.


          No nosso caso, o Absurdo e Ignorância, filhos mais velhos da Loucura, mais uma vez instrumentalizaram o Ministro da Educação e o Presidente da República. Pelo Twitter, Bolso disse que “o Ministro da Educação Abraham Weintraub estuda descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia (humanas). O objetivo é focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina [...]”. Disse mais: “A função do governo é respeitar o dinheiro do pagador de impostos, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta”. Como assim descentralizar? Quem disse que essas instituições recebem prioridade (“centralização”) de investimentos? Esse tipo de afirmação é bem próxima daquela mentira imprecisa dita há pouco sobre a produção intelectual do Mackenzie. O que realmente significa isso? Haverá cortes de financiamento de projetos? Serão realizadas desautorizações de cursos de graduação e pós-graduação Lato e Stricto sensu (mestrado e doutorado)? 


       E pior, isso se refere às ciências humanas em geral: Administração, Pedagogia, Arquitetura e Urbanismo, Direito, Ciências Sociais, Ciências Públicas e as demais áreas do conhecimento a respeito das práticas e desenvolvimento humanos? Na verdade, os dois reproduziram aquelas interpretações de senso comum de bar e zap em que “humanas’ é sinônimo de filosofia e sociologia, que não servem para nada a não ser perverter alunos ou, ainda, são coisas de comunistas e que engenharias, física e matemática são as que importam e o resto é coisa de desocupado etc”. O óbvio: claro que estas últimas são importantes, mas sem as demais elas não seriam possíveis. Para colocar a lume o absurdo, os órgãos responsáveis por estatísticas, projetos municipais, mapeamento territorial, as políticas públicas, projetos pedagógicos nacionais, redução de danos e tantas coisas imprescindíveis para ação do Estado e bem estar social dos “contribuintes” dependem profundamente de profissionais com formação nessas áreas achincalhadas pelos dois representantes da República. Além disso, para ler, escrever e fazer conta (um reducionismo bestial das práticas científicas, diga-se de passagem) é indispensável exatamente a boa formação nas áreas por eles ameaçadas.          No fundo, Ministro e Presidente, totalmente intoxicados e emburrecidos por uma visão de mundo (ideologia) extremista, mostraram como são incapazes de darem conta da grandeza de suas responsabilidades republicanas e, por outro lado, “jogaram para galera”, aplacando e alegrando as consciências marcadamente ignorantes de parte do povo, cuja compreensão em relação às ciências e suas especificidades não passam da superficialidade. Até entenderia isso em qualquer outro espaço, mas ouvir tal coisa do Presidente da República e Ministro da Educação é inaceitavelmente perigoso. 

          Amigo Erasmo, a Loucura habita nossa nação com os braços do Absurdo e da Ignorância.




domingo, 21 de abril de 2019

DOMINGO DA RESSURREIÇÃO: ESPERANÇA







Nada é mais belo no Cristianismo do que a memória da ressurreição. Se Cristo não ressuscitou, disse Paulo temendo pelos coríntios, não haveria substância em seu ato proclamatório e nem poesia na nossa fé. O mestre no madeiro mostra a morte em sua crueldade, a esperteza má da injustiça, a irracionalidade da violência. Na sexta-feira há agonia, lamúria é caos. Na cruz desnuda-se a irracionalidade do mundo e sua eloquência para derramar sangue e perfurar corpos. Se nos houvesse somente o Cristo morto, seríamos os piores desalentados cuja viuvez tornar-se-ia irremediável, trevas e águas amorfas sem solução, engolidos garganta adentro da desesperança. Por isso, somos convidados, como as mulheres do sepulcro violado, a sairmos da perplexidade da ausência do corpo morto em direção à segurança da exortação angelical: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui! Ressuscitou!” (Lc 24,5-6). Assim, a eternidade constrói uma ponte entre lágrimas e júbilo, lamento e celebração. É o “haja luz” ordenador que diz: “mar: cala-te, acalma-te!”. O corpo ressurreto e cósmico ressignifica o sentido da Vida. A ressurreição anuncia a novidade da vitória, abre um sorriso no pranto e possibilidades entre os destroços. Na paixão Cristo partilha o caos em seu próprio corpo; na ressurreição aponta para a criação e ordenação.

Se na obra “O corpo de Cristo morto no túmulo”, 1521/22, de Hans Holbein, o mestre está esquálido, em “A Ressurreição” (1460), do renascentista italiano Piero della Francesca, a luz do Cristo vivo suplanta a silenciosa dor. Preservada no Museu Cívico de Sansepolcro, em Toscana, “A Ressurreição” está na lista das grandes obras de arte da humanidade. Com justiça, Aldous Huxley a descreveu como “a maior pintura do mundo” e por conta de sua grandeza, durante a Segunda Guerra, o capitão britânico Anthony Clarke ordenou parar o bombardeio a Sansepolcro poupando a cidade e essa importante obra.

Com intuição estética e intensidade, Piero della Francesca mostra Jesus saindo do sepulcro. Abaixo, em seus pés, estão os guardas dormindo e estáticos sem qualquer possibilidade de reação, como se a pintura dissesse: o Império Romano e seus instrumentos não foram capazes de enclausurar o Senhor da vida. No fundo, enquadrando a cena, vemos uma vegetação sóbria e em contraste: à esquerda, um tronco seco logo atrás de Jesus; à direita, vemos árvores com folhas em destaque. Com isso, o pintor italiano reforça a diferença entre morte e vida. No centro, Cristo surge em plena ressurreição. Ele carrega a bandeira em símbolo de vitória. Em perspectiva frontal, o mestre olha diretamente para os espectadores convidando-os a partilharem do seu triunfo. Por sua vez, as marcas da lança e pregos valorizam ainda mais a destruição dos grilhões. 

A obra exposta em Toscana lembra-nos o “não” profético de Deus. Toda a força da morte é enfrentada, seus agentes desarmados e desmascaradas suas perversas estratégias. No Domingo da ressurreição somos convidados, então, ao anúncio subversivo da teimosa esperança, cuja força instaura o horizonte do novo mundo possível e chama aqueles/as que cantam o cordeiro que venceu a serem seus semeadores, porque onde houver ódio a ressurreição levará amor, onde houver ofensa levará perdão, onde houver discórdia levará união, fé, verdade, paz e alegria.

(imagem: Piero della Francesca, "A Ressurreição", 1460) 

sábado, 20 de abril de 2019

SÁBADO DE ALELUIA: SILÊNCIO









Quando Dostoiévski, em 1867, viu pela primeira vez o quadro “O corpo de Cristo morto no túmulo”, 1521/22, de Hans Holbein, o Jovem, ficou estático por quinze ou vinte minutos ininterruptos. Em seu livro “Meu marido Dostoiévski”, sua esposa Ana Grigorievna testemunha que o encontrou impressionado e estupefato diante da obra exposta na cidade de Basiléia, a ponto de dar reações tais quais os sintomas iniciais de uma epilepsia. O realismo cadavérico da obra do pintor amigo de humanistas como Erasmo de Roterdã, tocou profundamente as intuições estéticas de Dostoiévski influenciando a produção de seu (livro) “O Idiota”, cujo personagem principal, Príncipe Liev Míchkin, ao contemplar sua cópia e em diálogo com Rogójin exclama preocupado: “Ora, por causa desse quadro outra pessoa ainda pode perder a fé!”.

O impacto diante do “Cristo morto” de Holbein é inevitável. A expressão crua e dura da realidade humana perpassa todo seu corpo horizontal. Suas medidas e formas remontam uma tumba invencível. No centro, entre a base e o teto apertado, o corpo preserva as marcas causadas pela violência. Não há beleza, nem triunfo e as memórias do ressurreto vitorioso perdem-se no esquelético e pálido corpo marcado por pregos, golpeado lateralmente pela lança e na pele ressequida em seus ossos. Julia Kristeva, em “Sol Negro”, enfrentando o tema da melancolia, descreve com exatidão os traços e impressões do quadro: “O quadro de Holbein representa um cadáver estendido num pedestal coberto com um lençol mal dobrado. De tamanho humano, este cadáver pintado é representado de perfil, com a cabeça ligeiramente inclinada para o espectador, os cabelos espalhados sobre o lençol. O braço direito, visível, acompanha o corpo descarnado e torturado e a mão ultrapassa ligeiramente o pedestal. O peito saltado esboça um triângulo no interior do retângulo muito baixo e alongado do nicho que constitui o plano do quadro. Esse peito apresenta o traço sangrento de uma lança, e na mão veem-se os estigmas da crucifixão que endurecem o dedo médio esticado. Os traços dos pregos marcam os pés do Cristo. O rosto do mártir traz a expressão de uma dor sem esperança, o olhar vazio, o perfil aguçado, a tez verde-azulada são os de um homem realmente morto, do Cristo abandonado pelo Pai (‘Pai, por que me abandonastes?’) e sem promessa de Ressurreição”. Em “O Idiota”, o personagem Hippolit, assustado com a lúgubre e terrível imagem do quadro, pergunta-se, beirando à profanação, “se o Mestre tivesse podido ver a sua própria imagem, na véspera do suplício, teria Ele próprio podido caminhar para a crucificação e para a morte, como Ele o fez?”.

“O Cristo morto” do pintor renascentista é solitário, como explica Kristeva. Diferente de seu antecessor “Lamentação sobre o Cristo Morto”, 1475-78, de Andrea Mantegna, cercado por três mulheres em pranto diante do corpo erotizado e robusto do mestre sem vida, o de Holbein não tem discípulos lamentando sua morte, nem anjos cantando o presságio da ressurreição. Por isso, nesse trocamos o lugar de espectadores e nos tornamos carpideiras! Eis ai a razão da reação desesperada de Dostoiévski. O autor de “Irmãos Karamazov”, diante do quadro, experimentou a realidade gritante da morte em sua radicalidade naquele que se revela como maior símbolo da vida. É a sensação da irredutibilidade do fim, das margens, do precipício. Agonizante e terrível, o corpo do Cristo morto é nosso. É o tempo quase interminável e insuportável entre a cruz e ressurreição. Tempo do medo, agonia, incertezas, descrença. “A representação sem disfarce da morte humana, o desnudamento quase anatômico do cadáver, comunica aos espectadores uma angústia insuportável diante da morte de Deus, aqui confundida com nossa própria morte, de tanto que está ausente a menor sugestão de transcendência” (Julia Kristeva).

A revolta torna-se parte do quadro aos olhos do observador: “como foram capazes”! Não há explicação para tamanha barbárie. A morte parece vencer a vida; o mal/limite ao bem/eternidade. É o mesmo convite dos goliardos na monumental “Carmina Burana” ao cantarem “Ó Fortuna”: “mecum omnes plangite!” (“Chorai todos comigo!”). O grito de consternação é eco para todos/as nós. E, como movimento natural, viramo-nos para o lado e lamentamos as demais mortes. Pranteamos a morte nossa de cada dia, os corpos esqueléticos do mundo, as violências cotidianas, a imagem e semelhança da humanidade frágil dos muitos sem nome. Holbein nos coloca um espelho. Por isso, a insensibilidade dilui-se e choramos o corpo e a vida. Revoltamo-nos. Quanto mais violenta e injusta, mais nos consterna, porque vemos as mesmas marcas. A morte ganha maior peso e sua imagem torna-se insuportavelmente inaceitável. Somente uma expressão estética pode acalmar a alma diante do estrago desse quadro. A agonia do corpo morto de Holbein eleva-nos à expectativa do seu contrário – sem isso, morremos sem horizontes dentro daquele belo-horrível túmulo de Basileia. Na vivacidade da morte, paradoxalmente, emana, como necessidade existencial, a ressurreição.

O “Cristo morto” de Holbein é o germe do domingo da ressurreição! O domingo-esperança de todos/as nós.


*Texto de 2018 adaptado.
(imagem: Hans Holbein, o Jovem. "O corpo de Cristo morto no túmulo”, 1521/22)

sexta-feira, 19 de abril de 2019

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO: CRUZ.


A compreensão da fé cristã move-se, nas variações de suas ênfases, do triunfo à dor, glória à discrição, sofrimento à prosperidade. Nem mesmo as narrativas da paixão foram poupadas da fluidez hermenêutica. Na arte sacra, a cruz pendula entre o Christus triumphans, Cristo triunfante, do séc. V, e o Christus patiens, Cristo sofredor, posterior ao séc. XIV. Maria Isabel Roque explica as razões de tal movimento estético e imagético à luz do sofrimento humano: “uma nova concepção do tema surge no século XIV, marcado pelos horrores da Peste Negra e pelo misticismo propagado por S. Francisco de Assis, também presente nos Exercícios de Johannes Tauler, nas Meditações da vida de Cristo de Pseudo Boaventura (atualmente, atribuídas a Frei João de Caulibus) ou nas Revelações de Santa Brígida que, retomando as profecias de Isaías (Is. 53, 1 10), exaltavam o atroz sofrimento da paixão de Cristo e, em particular, o lento martírio da sua morte”. Aparentemente, o drama da fé e da vida, marcado pela morte, perseguição e angustias, guia e modela as representações da crucificação.

O grande expoente do expressionismo alemão, Matthias Grünewald (1470-1528), no magistral “Retábulo de Isenheim” (1512-1516), do Musée d’Unterlinden, em Alsácia, fronteira Alemanha-Suíça, revela-nos com cores fortes a ignomínia do Deus crucificado. Na tábua central do retábulo, enquadrado pelos mantos vermelhados de Tiago a sua direita e João à esquerda, está Jesus em silencioso grito de morte. A cabeça caída no peito pendura-se fragilmente ao pescoço. Mãos e pés perfurados são torcidos à força dos pregos e contraem as extremidades do corpo esquelético do mestre. Grünewaldo reforça a injusta e lúgubre imagem com cores pálidas. Na cabeça solta crava-se enorme e desproporcional coroa de espinhos cujo tamanho quase esconde o rosto, lambe duramente a testa e toca os ombros. Os farrapos enrolam a cintura e escondem suas vergonhas. A boca meio aberta testemunha o último suspiro agonizante. Maria, com roupas puras, de pé desespera-se discreta e inconsolável nos braços de Tiago. De joelhos, Maria Madalena lamenta, com dedos entrelaçados, a perda. Do outro lado, como que iluminado pelo motivo eterna do evento, João segura seu evangelho e aponta com dedo grande o corpo esquálido do messias. Abaixo, o cordeiro derrama sangue no cálice da nova aliança. Sob a égide da teologia do sacrifício ele avisa ao mundo o absurdo e vitória da morte.

O realismo da obra expõe a crueldade. A agonia do Cristo de Deus denuncia as relações perversas entre religião e Império, sacerdotes e Roma. Injustiça, peste negra e dor humana tornam-se lugar comum e lentes para a páscoa. A patiens de Cristo é paixão de todos os alvos das forças da morte. Por isso, há solidariedade no corpo-flagelo do Cristo pascoal crucificado. Na cruz, o cordeiro de Deus denuncia a injustiça, desumanização, desfiguração da dignidade humana e a barbárie. É catharsis e profecia, empatia e denúncia, identificação e julgamento, partilha de lagrimas e resistência.

Para as comunidades do cordeiro-corpo-cruz, a única resposta possível é a mesma paixão e solidariedade aos tantos outros corpos violentados cuja dor por vezes é esquecida pelas esquinas e becos imperiais da insensibilidade.


(imagem: Matthias Grünewald, A crucificação [Retábulo de Isenheim], 1512-156)

quinta-feira, 18 de abril de 2019

A QUINTA-FEIRA SANTA: LAVA-PÉS






No Evangelho de João, durante a última ceia, o salvador do mundo, o Verbo encarnado, sob olhares estupefatos e confusos, lavou os pés de seus discípulos. Na obra “Washing Peter's Feet” (1851-1856), o pintor inglês Ford Madox Brown (1821–1893) sensivelmente encarnou a cena em óleo sobre tela. Na pintura, vemos Jesus de joelhos e ao lado, jogadas e esquecidas, as sandálias parcas de Pedro. As cores são sóbrias. No centro, com vestes cinza, o mestre enxuga o pé destro pedrino com a toalha amarrada em sua cintura. Mesmo em destaque mais claro, o pano torna-se extensão do corpo fazendo de Jesus parte do ato. É o mestre inteiro cobrindo dedos e calcanhar de seu impetuoso discípulo. Todos estão em silêncio e desconsertados. A fala precipitada do impulsivo Simão deu lugar ao compenetrado olhar absorto em direção às mãos divinas molhadas com a água, as quais sustentam seus pés envoltos em pano. Há contrição na cena. O pescoço do discípulo dobrado e rígido aperta sua barba branca ao peito, enrugando-lhe a testa, com a mesma força  que suas mãos se entrelaçam. Pedro está totalmente rendido, não pode fazer absolutamente nada. Resta-lhe somente ser consumido pela pedagógica humildade do mestre. Ao fundo estão os outros personagens da narrativa evangélica. Imóveis, todos olham as mãos de Jesus. Os restos da ceia ainda estão na mesa. No canto, talvez com os pés já doutrinados, Judas amarra suas alparcas. Ao lado do seu braço descansa o saquinho com as moedas do conluio, colocando lado a lado amor e traição, desejo de poder e serviço, ganância e desprendimento, morte e ressurreição.

Ao mesmo tempo em que Pedro se encolhe, apequenando-se, seus companheiros de seguimento parecem não acreditar no que veem. Entre eles, quase oculto, alguém segura a cabeça como se estivesse contemplando algo assustador. Talvez, seja João ao lembrar-se envergonhado do pedido agora claramente ridículo. Enquanto ele e seu irmão desejam assentar-se à direita e esquerda da glória, Jesus bebe o cálice intragável da encarnação, serviço e humildade. No mesmo plano, outros se consolam do choque e escândalo. À direita, boquiaberto, um dos discípulos parece ser absorvido por aquela visão. Estão todos acuados e não há como escapar de Jesus: “assim façais vós também”. Com a áurea na cabeça do Senhor, Madox Brown expõe o paradoxo do lava-pés: mestre serve, Deus esvazia-se, o maior se dobra, eternidade encarna-se, a força se fragiliza. A reação dos personagens da pintura de século XIX revela o espanto do novo caminho instaurado, do qual a comunidade de Jesus não pode se furtar.

A partir da memória do messias lava-pés, no enquadramento da semana santa, devemos trocar todo projeto de poder, qualquer arrogância institucional, expressão de superioridade, falsa piedade ou preconceito excluidor por bacia, água e pano.

(imagem: Ford Madox Brown, Jesus Washing Peter’s Feet, séc. XIX)



sexta-feira, 12 de abril de 2019

80 tiros da nossa omissão!



Omitir é deixar de agir ou se furtar da denúncia por conveniência ou insensibilidade. É relativizar ou justificar com o silêncio quando urge a necessidade da Palavra. É legitimar com a naturalização ou despreocupação relações e fenômenos historicamente estabelecidos, como se não houvesse causas identificáveis e passíveis de enfrentamento. A omissão é, então, o não profético, a “acriticidade” cínica.

A falta de empatia, o medo da exposição, a cegueira ideológica e tudo o que contribui para a inércia em tempos quando se exige o movimento, são instrumentos eficazes e perigosos na construção da cultura da omissão, cuja maior e mais terrível consequência é nos tornar coparticipantes, direta ou indiretamente, da barbárie. Por isso, também são nossos os oitenta tiros disparados contra aquela família no RJ, traumatizando pelo resto da vida os sobreviventes e matando o pai de família Evaldo Rosa. São tiros ensurdecedores da silenciosa omissão.

Convenientemente, permitimos a sacralização do símbolo da morte. Em uma nação onde só em 2017 mais de 59000 foram vítimas de assassinatos (uma a cada 9 minutos), a arma deveria ser vista como sinal de necessária vergonha e não tornada projeção eleitoral. Em vez de arrancar sorrisos jocosos, o instrumento da morte deveria ser lembrado somente quando seu uso fosse a última possibilidade – não se festeja a violência, não se ovaciona o mal. Contudo, mesmo quando crianças posaram, sob a motivação de adultos-monstros, seus dedinhos com sinal de armas nós rimos e nos omitimos. O Brasil achou graça, votou, elegeu e coroou o discurso da violência com o faixa da presidência.

Não me interprete incorretamente. Eu sei que a desgraça e morte não foram inventadas com os “oitenta tiros”. Por outro lado, quando a realidade é de guerra, devem-se promover narrativas de paz. Em espaços nos quais a linguagem é belicosa, o dicionário da sensibilidade e empatia precisa ser usado. Em tempos de desumanização e desrespeito com a vida, é necessário popularizar-se o discurso da solidariedade e do cuidado. Em contextos nos quais a injustiça materializa-se em mortes de inocentes, ao invés de legitimar a violência do Estado em nome do combate aos seus causadores, faz-se urgente pensar estratégias e ações cujo caminho não percorra a mesma lógica daquilo contra o que aparentemente se combate. É simples: não se vence a violência com outro tipo de violência, mas com gestão justa, inteligência, prevenção e políticas públicas. A cultura da morte ficou nua aos nossos olhos e fomos embriagados pela omissão.

Os oitenta tiros cumpriram a vocação do racismo estruturante e estrutural. Mataram sem perguntar, porque ser negro nesse país significa torna-se setenta vezes mais matável. E mesmo assim, seguimos negando a existência dessa histórica chaga. Obstinadamente, insistimos em fingir serem inexistentes as estatísticas e experiências cotidianas e continuamos, em passos largos, corroborando com a naturalização da injustiça racial. Temo, porque a proteção dos bens e dos “cidadãos de bem”, guiada pela estratégia do “atirar para depois averiguar”, fará dos “já matáveis” potenciais candidatos a defensores mortos de sua inocência. Por isso, e tantas outras coisas, ao ouvirmos falar e acompanharmos a defesa do “excludente de ilicitude” sem críticas ou posicionamentos colocamos juntos nossos dedos no gatilho dos oitenta tiros. Em nossa nação, a cultura do extermínio é legitimada pelo Estado, aplaudida pelo povo, santificada pela fé na brutalidade, justificada pela apologia da família, tratada como inevitável pelos discursos simplistas e alimentada pelo ódio. Tudo sob nossos narizes, olhos e ouvidos omissos e pouco críticos.

Esses são os oitenta tiros da nossa omissão. Nosso pão amargo de cada dia. Contra o qual oramos: livra-nos do mal. Amém!

quarta-feira, 27 de março de 2019

Pentecostalismo e Método Gramatical-histórico: vamos com calma...



É muito comum ouvirmos ali e acolá o uso do termo, por vezes relaxadamente, “hermenêutica pós-moderna” ou preconceituosa desqualificação do possível diálogo entre essa perspectiva e a hermenêutica pentecostal. Parece-me que os principais ruídos surgem porque se acredita que os métodos filhos da Modernidade, especialmente o gramatical-histórico, sempre foram o lugar através do qual os pentecostais leram a bíblia. Então, farei algumas ponderações:
1. O uso dos métodos histórico-gramatical e histórico-crítico entram na história da hermenêutica pentecostal especialmente quando a Assembleia de Deus dos EUA é integrada ao National Association of Evangelical (NAE), cujos traços são neo-ortodoxos e barthianos, especialmente pelo uso construtivo e piedoso das ferramentas exegéticas modernas, um tipo de “criticismo moderado”. Antes disso, havia um vácuo no movimento pentecostal em relação à discussão sobre a maneira mais plausível para leitura do texto. Inicialmente, encontramos entre os pentecostais à leitura bíblica dos movimentos de santidade, conhecida com “Bible Reading Method e perspectivas mais pragmáticas de leitura. Stronstad chama esse período inicial de “hermenêutica pragmática”, Oliverio trata como “Original Clássica” e o teólogo pentecostal coreano Chang-Soung Le nomeia-a de “pré-moderna, pré-crítica e continuísta”. A hermenêutica de Parham e Brumback, segundo este último autor, era contrária à Alta Crítica e continuísta, na contra mão do cessacionismo. Nesse sistema interpretativo, constrói-se a inter-relação das três experiências: (a) a experiência de Jesus e seus discípulos, anterior ao texto bíblico; (b) a experiência escrita no texto; (c) a experiência das comunidades contemporâneas. Por isso, antes das primeiras discussões entre os acadêmicos pentecostais, a reexperiência carismáticas era o lugar hermenêutico.
2. Os pentecostais eram acusados pelos evangélicos dependentes dos métodos desenvolvidos e usados em horizonte neo-ortodoxo de irresponsável alegorização e espiritualização dos textos. G. Fee tenta resolver essa querela defendendo o sentido histórico e o uso da crítica do gênero literário para a leitura pentecostal – tal trilha metodológica levará Fee a ler Atos, por exemplo, como livro histórico, não didático e pouco apropriado para a construção teológica. W. Menzie e R. Menzie, por sua vez, defenderão o uso das críticas da redação e das fontes do método histórico-crítico. Robert Menzie, por exemplo, seguirá os neo-evangélicos (neo-ortodoxos) William W. Klein, Craig L. Blomberg e Robert L. Hubbard Jr., os quais estão inseridos no “criticismo moderado”. H. Ervin, na esteira do uso dos métodos históricos e críticos, como a NAE fazia, acrescentará a fenomenologia. No Brasil, popularizaram-se as obras de Stronstad e Craig Keener que defendem o uso do método histórico, mas numa perspectiva menos crítica. Contudo, o próprio Stronstad admite, como fez Ervin e outros, a impossibilidade da anulação dos pressupostos, para o leitor em geral, e da experiência carismática, para o leitor pentecostal. Contudo, como são devedores dos métodos racionalistas modernos, como eram os evangélicos da NAE, eles defendem a leitura histórica do texto, a intenção do autor real e o sentido gramatical.
3. Como se percebe, os métodos históricos (gramatical ou crítico, moderados ou não) não devem ser tratados como “os” verdadeiros caminhos da hermenêutica pentecostal, mas parte de sua história, especialmente por suas relações como os reformados e evangélicos. Como no Brasil livros e textos popularizados estavam e estão sob essa égide, fica a impressão de que o MHG representa “a” hermenêutica pentecostal.
4. É preciso diferenciar pedagogicamente os termos “hermenêutica” e “exegese”. O primeiro se refere à teoria do sentido, às discussões epistemológicas e ao processo de compreender e explicar o texto. Como ciência do sentido, a hermenêutica é mais filosofia da interpretação do que ação interpretativa. Exegese, por sua vez, seria prática e caminho metodológicos, o ato de interpretar. Dessa forma, os métodos de interpretação são filhos e encarnam as epistemologias e perspectivas hermenêuticas. Por exemplo, o MHG e MHC são ferramentas com pressupostos próprios do paradigma da Modernidade racionalista. Por isso, pretendem anular as influências da experiência do leitor ou da tradição para acessarem direta e objetivamente o sentido original dos textos. Esse triunfalismo da razão é o que alimenta o lugar epistemológico desses métodos. Por isso, esses caminhos geraram leituras cessacionistas e críticos. Por que ao usá-los os pentecostais romperam o criticismo liberal e o fundamentalismo cessacionista evangélico? Simples, por conta da experiência pneumático-carismática dos leitores e biblistas pentecostais. Stronstad, defensor do método HG, ao falar da melhor leitura de Atos seguida pelos pentecostais, o que significa vencer o cessacionismo e aceitar a ação carismática de Deus, admite: “isso é principalmente porque os pentecostais trazem um pressuposto experiencial válido para a interpretação de Atos e não porque fazem uma exegese histórico-gramatical superior de Atos”.
5. O que caracteriza a leitura pentecostal não é o método “a” ou “b” (caminho ou instrumentos usados para interpretação), mas a maneira como se aproxima do texto e os resultados dessa apropriação. Antes de qualquer coisa, a perspectiva da “(re)experiência” é o que caracteriza a interpretação pentecostal: os carismas experienciados nas comunidades cristãs originárias (glossolalia, batismo com o Espírito Santo, profecia, empoderamento do Espírito etc.), especialmente em Atos, são os mesmos das comunidades pentecostais contemporâneas. E, consequentemente, como mesmo admitem alguns exegetas pentecostais histórico-gramaticais, é exatamente essa experiência que permite ao fiel pentecostal ser capaz de perceber no texto a realidade dos carismas. Por isso, precisamos admitir que a experiência carismática precede a leitura pentecostal dos textos bíblicos. E mais do que isso, é necessário levar em consideração as implicações disso para a identidade teológica do (s) pentecostalismo (s) e sua hermenêutica.
5.1. Os métodos são instrumentos e estão sob a orientação de pressupostos epistemológicos. Mesmo que os biblistas pentecostais leiam a Bíblia de maneira não cessacionaista ao aplicar os métodos HG ou HC, a perspectiva hermenêutica desses métodos é, antes de qualquer coisa, racionalista e historicista. Eles são devedores do paradigma do sujeito cujo projeto é eliminar todas as interferências subjetivas e experienciais no processo interpretativo. Logo, uma pergunta precisa ser feita: é possível usar outros caminhos exegéticos que sejam mais adequados à identidade da experiência pentecostal sem ser uma simples alegorização, espiritualização, polissemia infinita ou violação não exegética do texto?
5.2. Um caminho foi pensado por John Christopher Thomas e K. Archer. A partir do modelo de At 15, segue-se a relação dialética entre Espírito, texto e comunidade. Assim, a experiência não somente individual, mas afinada e analisada em comunidade possibilita iluminar o texto, o qual, na mesma mão, serve como fonte para criticar e perscrutar a experiência. Consequentemente, a experiência é admitida e modela uma leitura não neutra e não racionalista do texto.
5.3. Além dessa intuição, várias metodologias podem ser usadas para o acesso ao texto, inclusive as ferramentas do MHG ou MHC. Contudo, os instrumentos tais quais narratologia, semiótica, as análises literárias, a estética da recepção, a nova retórica, a análise do discurso etc. podem ser instrumentos que rompem com as perspectivas metodológicas da Modernidade, sem desqualifica-las ou excluírem totalmente, mas podem ajudar na formulação de perguntas e caminhos interpretativos mais adequados aos horizontes hermenêuticos pentecostais. Como método de interpretação, e mesmo que sejam conhecidos como pós-metafísicos ou “pós-modernos”, eles servem para enclausurar os múltiplos sentidos do texto – ou seja, não permitem qualquer interpretação ou não validam propostas não plausíveis –, mas, ao mesmo tempo, valorizam ou consideram, desde suas bases epistemológicas, o que é importantíssimo para a hermenêutica e teologia pentecostais: a não neutralidade da experiência do fiel. Assim como Fee e outros acessaram as ferramentas modernas para resolverem seu desafios de sistematização e defesa da fé pentecostal, hoje há outros e outras biblistas pentecostais dialogando com as demandas impostas pela contemporaneidade, a qual tem nos mostrado a derrocada do paradigma no sujeito moderno-iluminista.
6. Por fim, seriam erros históricos (a) tratar a hermenêutica pentecostal como sinônimo de MHG (ou MHC), (b) defender a ideia moderno-racionalista da intenção do autor como a principal preocupação da leitura pentecostal, (c) dizer que usar os métodos não metafísicos (pós-modernos) é defender a possibilidade de qualquer sentido no texto ou ser relativista (e, para alguns, “liberal”).