quinta-feira, 2 de abril de 2020

Sobre uma "resenha" do livro “Experiência e Hermenêutica Pentecostal”.






Enviaram-me o link de um artigo publicado na revista “Bona Consciêntia”. Quando ouvi pela primeira vez que sairia um texto em resposta ao nosso livro, disseram: “estou escrevendo um texto acadêmico numa revista acadêmica”. Na época, imaginei que seria uma análise avaliando os pressupostos do livro, as fragilidades e, por sua vez, as contribuições. Então, fui logo até o site da revista dar uma olhada no Qualis, um importante indicador de qualidade das revistas acadêmicas sob responsabilidade da CAPES-MEC, porque usaram a expressão “acadêmica” e esse tipo de periódico precisa de pareceristas, os quais não são os donos da verdade, mas diminuem possíveis injustiças. Quando vi, a revista não estava nem mesmo indexada. Pensei: “tudo bem, vamos ler o texto”. Contudo, acabei esquecendo do assunto e deixei para lá. Todavia, esta semana um conhecido do autor do artigo marcou-me no face e disse: “[...] então, por falar em hermenêutica, aproveita e refuta aí o artigosobre a hermenêutica pentecostal, tomara] que as citações que ele usou sirvam!”. Bom, achei bacana, mas respondi que sairá outra obra sobre o assunto e como conheço um pouco da postura do tal interlocutor, recomendei que esperasse o livro, porque responderia algumas questões do ávido crítico. No entanto, fiz o que disse que não faria, entrei no link e fui ler o texto.  Descobri, na verdade, que o “artigo” não é uma típica resenha, mas um misto de ataques desconexos, tipo uma apologética estranha, fazendo afirmações rápidas e repetindo um monte de chavões sobre pós-modernidade sem qualquer preocupação de análise relevante dos seus pressupostos. Por isso, recuso-me em fazer exatamenteuma resenha ou crítica-resposta ao texto por alguns motivos. Cito-os:

1.                  Logo no início, ele faz afirmações equivocadas sobre nosso livro e o coloca como parte do mesmo equívoco da pós-modernidade: “Referindo-se às Sagradas Escrituras, o que deve ser levado em conta essencialmente é a interpretação do leitor em detrimento do que o autor do texto sagrado quis passar”. Em primeiro lugar, como assim “quis passar”? Que expressão é essa? Seria preciosismo da minha parte esperar uma linguagem menos coloquial e mais técnica? Já que o texto é anunciado como acadêmico, poderia afinar os termos. Bom, isso é o de menos. O problema é dizer que a pós-modernidade (e nosso texto é colocado nesse contexto) considera “essencialmente a interpretação do leitor”. Vejam, escrevemos um capítulo só sobre semiótica da culta de I. Lotman. Então, aoponto não seria eliminar o texto e inflacionar o leitor, mas a relação circular entre texto e leitor, reconhecendo as estratégias do próprio texto. Isso não significa deixar de lado o texto!EntãoPerceba que o autor vai criticando sem ao menos saber bem do que está falando ou cuidar dos pressupostos epistemológicos do livro que escrevemos.

2.                  Ainda no começo do artigo, ele diz que falará do cerne da pós-modernidade. Então, faz a seguinte descrição da modernidade para depois tratar da sua vilã: “Desde o fim do século XIX, mais especificamente por meio de Friedrich Nietzche, a mordernidade, que veio à tona no Ocidente por meio do iluminismo de meados do século XVIII, levou um sério golpe. Um pouco depois, com o estruturalismo, o pós-modernismo avançou fortemente. O estruturalismo afirma que a linguagem é uma construção social, sendo que todas as produções literárias visam dar sentido ao vazio experimental sentido”. Não, a modernidade não “veio à tona no Ocidente por meio do Iluminismo do séc. XVIII”. Não, a pós-modernidade não avançou fortemente com o estruturalismo. E mais, não é o estruturalismo “que afirma que a linguagem é uma construção social”. Essa é uma afirmação das teorias das linguagens em geral. Ou seja, é igual aquele dever de casa comum dos intolerantes: faço uma caricatura pseudoneutra e, depois, “pancada nela”. 


3.                  Continuei lendo: “Fato é que o pós-modernismo não se coaduna com o pensamento cristão tradicional de se entender não apenas as Escrituras, mas também o legado da tradição cristã”. Não entendi? Você, leitor, entendeu? Talvez, se estiver certo sobre o sentido dessa frase, seria necessário para tal autor ler alguns textos de teólogos pentecostais como Karkkainen, Archer ou não pentecostais com Smith. Ainda, além de fazer uma caricatura da pós-modernidade, o texto insiste em criticar o nosso livro como se ele fosse uma defesa acrítica da pós-modernidade/pensamento pós-metafísico, ou como se tivéssemos dizendo que o Pentecostalismo é pós-moderno. Na própria obra explicamos que o pentecostalismo é paramoderno (K. Archer) e antecipa algumas intuições da pós-modernidade. Será que, no fundo, não quer entender?

4.                  Há outra coisa que me desestimula fazer uma resenha do texto. Ele fala de J. Derrida, dos autores pós-modernos etc., mas não vai às fontes. Cita somente intérpretes – e só os que tratam de maneira crítica o que elesmesmos chamam de pós-modernidade. Para termos ideia da infantilidade, quando ele quer diferenciar Modernidade e Pós-modernidade cita um quadro de AlisterMcGrath, no qual coloca palavras-chave reducionistas que se antagonizam a fim de definiros termos. Olha um pedaço do quadro citado: “Modernidade =propósito; pós-modernidade=brincadeira”. Brincadeira é, na verdade, usar essa definição para diferenciar termos tão complexos e substanciais. Seria o mesmo que pedir para um argentino fazer o mesmo com Pelé e Maradona: Pelé = feio; Maradona = lindo.


5.                  Depois, o artigo inicia uma discussão sobre teoria da linguagem e diz: “No campo da linguística, Ferdinand de Saussure, Roman Jakobson e, principalmente, Jacques Derrida,  Michel  Foucault  e  Jean  Baudrillard  afirmaram  uma  arbitrariedade  na linguagem e que não há nenhuma lei absoluta em termos linguísticos para se procurar”. Aqui, cita-se um monte de nomes, os quais carregam detalhes teóricos que por um lado os aproxima, mas, por outro, distancia-os totalmente. O artigo junta tudo e afirma: “não ha lei absoluta em termos linguísticos para se procurar”. No entanto, a linguística diz o contrário: o sistema linguístico estabelece significação sobre o mundo a partir de redes de significação. Inclusive, a diferenciação entre Langue e Parole (Saussure) tenta dar conta disso. E mais, citar Foucault num mesmo parágrafo no qual se afirma que “Sendo assim, ficaram excluídas do estudo em conjunto com a linguística as relações entre língua e sociedade, língua e cultura e afins” é demonstraçãode desconhecimento total da Análise do Discurso foucautiana (contra a qual tenho algumas críticas, especialmente por fazer o que o artigo diz que ele não faz). Então, fui até noao rodapé. Adivinhemo que descobri? Novamente não há diálogo com as fontes e sóaparecem os comentaristas.

6.                  Depois, o artigo faz um monte de inferências, inclusive sobre a afirmação de César no prefácio a respeito da construção de uma teologia assembleiana já que sou batista etc. E, logo em seguida, diz: “porque não temos conhecimento de que nenhum pentecostal anterior ao  surgimento  da hermenêutica  pós-moderna  afirmou  que  a experiência determina o entendimento do pentecostal concernente às Escrituras Sagradas”. Ora, se não tem conhecimento, por que vai falar a respeito? Claro que há pentecostais que dizem isso, inclusive gente que defende o MHG (R. Stronstad, H. Ervin [não era pentecostal], Fee etc.).

7. Quando o artigo começou a falar de MHG e MHC de maneira completamente equivocada, usar parágrafos do nosso livro fora do contexto, citarsomente comentaristas e criar caricaturas sem qualquer precisão, então, parei de tentar analisá-lo, porque precisaria fazê-loparágrafo por parágrafo. São muitas afirmações imprecisas que exigiriam comentários longos e quase outro artigo. Na verdade, exigiria repetir o que já está no livro, indicar as imprecisões (escrever essas já citadas gastou muito tempo) etc. Confesso que não teria tempo para isso.

Minha impressão final: o texto fica o tempo todo querendo dar aula de história e sobre o uso corretode expressões teológicas – ao mesmo tempo em que cita conceitos com as imprecisões acima citadas. Um exemplo. Ele usa um comentário que escrevi no Blog e no Face para insinuar que useiuma fonte (como Bolsonaro fez com o discurso do representante da OMS) com recortes, tratando-a de maneira leviana. Nessa citação que não está no livro, mostrei que o mesmo Stronstad que defende o método tradicional admitiu que a experiência iluminou a leitura carismática dos pentecostais e não simplesmente o uso mais eloquente ou mais profundo do MHG. Ou seja, serviu-me como fonte para mostrar que até mesmo para esse a experiência não é anulada no processo interpretativo; pronto, foi só isso!  O cara está tão envenenado para achar coisas no texto que é rápido em fazer acusações.  E não somente isso, o artigo não analisa as principais questões epistemológicas e muito menos responde ao ponto central: “quais as melhores ferramentas para a hermenêutica tipicamente pentecostal?”. Foi isso que fizemos. E os caminhos metodológicos que citamos, eles têm alguma coerência?Narratologia, Crítica Literária ou Semiótica podem ajudar nessa tarefa? Nada disso importou no artigo do rapaz. Ou seja, gastou um tempão com jargões e “lacração” boba e não enfrentou tal discussão.

Obs.: Outra coisa, o texto tem vários parágrafos truncados, informações desconexas e joga autores e conceitos em um balaio só. Talvez, se esse artigo tivesse passado por algum parecerista de revista Qualis estratos superiores, teria recebido várias correções ou nem mesmo seria publicado. Posso estar errado, mas para averiguar essa minha hipótese, faça o teste e mande esse texto para a Revista Horizonte, Estudos Teológicos, Perspectiva Teológica ou Reflexus. E para citar uma resenha crítica do nosso livro, indico a última publicação da Revista Horizonte (A1), na qual há a recensão feita pelo Dr. Alonso. Ele não alivia e faz duras ponderações, mas, por sua vez, observa as contribuições e limites da obra. Se o tal autor entender que ainda tem coisas a aprender, esta publicação poderá servir de orientação quando quiser analisar outros livros.


  
 


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