sábado, 24 de dezembro de 2011

O homem/Deus feito, nasceu!

                                                                                                                   
                                                                                          Giambattista Tiepolo, “Natividade", 1732


Ele foi gerado através da convocação da menina-mulher pobre, dos cantões da palestina, uma nordestina, esposa do calejado José. Como em um milagre cósmico, foram deixadas de lado as convenções das fronteiras carne/espírito, natural/humano, tempo/eternidade, invadidas sem preconceito em uma interrelação/inter-penetração do mistério, que somente Saramago soube explicar em detalhes. José, o carpinteiro, acostumado com a lida, conhecedor da arte da madeira, criador platônico da réplica do real, não soube resolver racionalmente a questão de ‘“mulé” moça gerar filho’. Somente anjo para explicar e sonho para acalmar os ânimos do humilde trabalhador: “calma José Severino, é do Espírito Santo, contato íntimo do céu, relação santa, salvador do pecado, é Emanuel, coisa do Deus-conosco ”. Estava claro, o Senhor que “dissipou os soberbos no pensamento de seu coração, depôs dos tronos os poderosos e elevou os humildes, deu fartura aos famintos e despediu vazios os ricos” estava por trás daquilo.

O anjo, que talvez seja torto como o que falou com Drummond, disse que ele seria grande, filho do Altíssimo, dono do trono de Davi! Esquisito isso para alguém que nasceu no cocho entre os farelos de equinos e bovinos. Estranho para alguém que é testemunhado por criadores de ovelhas, e que em outras situações nãos seriam ouvidos. Até magos, mais parecidos com forasteiros, deixaram seus presentes, como se deles precisasse.

O belemita de Nazaré, Jesus filho de carpinteiro, anunciado pelo profeta das roupas extravagantes de pele de camelo e comedor de gafanhotos, desde seu nascimento já deu indícios dos passos futuros. Não estaria em palácios, não faria pactos com o mercado, e muito menos com Herodes. Pelo contrário, escolheria os mesmos ambientes de suas origens, onde estavam os calejados, os pobres e desumanizados. O Jesus que hoje cantamos em coros natalinos, nem no templo se sentia em paz, pois lá também não estavam seus pares de natalidade.

Não nos enganemos com leituras precipitadas, a grandeza ele revelou entre os sem-grandezas, e o trono estabeleceu nas esquinas onde estavam os sem-impérios; seus súditos não se prostravam diante dele, mas tinham suas chagas saradas, suas sujeiras limpas e seus pés lavados.

Feliz Natal. O homem feito Deus nasceu. Mas nasceu na estrebaria, filho de trabalhadores diaristas. Encontremo-nos com ele entre vacas e bois, entre ração e pasto, entre os pobres e desamparados, aonde o Papai Noel não vai e os interessados pelo poder mercadológico do menino prodígio nunca estarão (Mt 25, 37-45).

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dialogismo? “Cálice... Sistema da porca que não anda”.


 
Eis! 

A porca está gorda e por isso já não anda! Ela foi embuchada pela impunidade, hipocrisia, morbidez na aplicação da justiça, pelo medo da verdade e a pressa em encher os próprios potes que carregam o rótulo “interesse pessoal”. Como uma engrenagem dura e sem óleo/unção, move-se fazendo um som esquisito, que chamam de louvor, adoração, hino nacional ou sei lá o quê... Parece que o profeta da roça nunca foi tão atual: “Eu odeio, eu desprezo as vossas festas e não gosto de vossas reuniões (...). Afastem (seria o cálice?) de mim o ruído dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias dos teus instrumentos. Corra, porém, o direito como a água e justiça como um rio caudaloso”.    

Pobres donos das rédeas. Logo elas serão arrancadas de suas mãos, e o freio da boca daqueles que eles dominam. E os gritos sairão: “chega! Chega! Agora chega!”. Neste dia, os leões comerão com as vacas, e o Messias menino tomará o seu trono e implantará a festa da ceia, quando todos comerão moqueca, acarajé, arroz carreteiro, aipim com carne seca e beberão chimarrão. Essa ceia será o pão de todos e todas e não esta bobeira que fazem em algumas reuniões vazias e lúgubres. Neste dia, a festa realmente será da ressurreição e da parousia; porque o rito da Eucaristia deste eon, infelizmente, só lembra a morte, porque ao  verem a mesma morte próxima dos esquecidos do mundo fazem como os religiosos da parábola, passam de largo (antiparêlthen). 

Antes disso, enquanto o vinho tinto de sangue não é afastado, o pileque homérico do mundo é o melhor pão e circo para os neuróticos enganados pela ideia de autoridade e pelo medo. Meu Deus, tanta mentira, tanta força bruta, com palavras melosas de engravatados que executam, legislam, julgam.... Pregam; pregam o corpo dos inocentes em cruzes de palavras sem sentido. 

Pai, afasta de nós esse cálice, porque o peito que resta depois da boca calada já não sente, a não ser o que os donos  da porca gorda dizem que se deve sentir. Pai, afasta, logo, o monstro da lagoa. 

Pai, abra as portas dos muitos com palavras presas na garganta.  Porque, assim, os amigos da porca serão destronados, precipitados, seus ternos arrancados e deixados nus! E o Messias menino rirá, com gargalhadas, pela pequenez contemplada.

Eis! 

Um dia a porca gorda perderá o seu chiqueiro!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Felizes dias para as crianças...

No Novo Testamento temos um texto conhecido como Evangelho das Crianças, testemunhado em Mc 10.13-16:

Então lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse, mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo: quem não receber o reino de Deus como uma criança, de maneira nenhuma entrará nele. Então, tomando-as nos braços e impondo-lhes as mãos, as abençoava.

Como Aquele que iniciou o movimento que faço parte, sempre amei as crianças. E há três meses estou aprendendo amá-las ainda mais, pois a Beatriz tem me ensinado da melhor maneira possível: deixando-me senti-la em meus braços, sorrindo inocentemente ao me ouvir, existindo... Acredito que quando deixarmos nossa condição de bestas-feras comedoras de gente, os montes aplainados e os vales erguidos, viveremos num mundo onde todas as crianças, como minha linda filha, terão um berço, e não um caixote para dormir; roupinhas coloridas, e não sacos rasgados para vestir; casa para cobrirem-se da chuva, e não papelões de caros móveis...

Não somente desejemos um “feliz dia das crianças”, mas lutemos para que todos os seus dias sejam felizes!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Desavença Entre Partidos na Comunidade (1 Co 1,10 – 4,21)


Esta primeira parte é tão coesa a ponto de parecer uma carta completa. Neste grande bloco Paulo trata das divisões na comunidade (os de Paulo, os de Apolo, os de Cefas ou os de Cristo). Para responder a essa divisão, Paulo recorre ao escândalo da cruz, que é na verdade a sabedoria de Deus, ou seja, o como Ele colocou a todos num só corpo.
            Primeiramente, nos versos 10-17, o apóstolo sinaliza o problema da divisão na comunidade, comunicado pela casa de Cloé. Essa mulher deveria ser a chefe de uma das casas onde se reuniam os crentes de Corinto. No verso 17 ele já começa sendo enfático na questão da unidade e divisões: “Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer”.
            Havia quatro partidos, como quatro escolas, que tinham seus nomes ou representantes. Segundo Koester a estreita ligação dos quatro nomes com o batismo e com a posse da sabedoria sugere que Paulo, Apolo, Cefas e Cristo são nomes de mistagogos, ministradores do batismo – que é assim entendido como um rito de mistério – ou como autoridades para palavras de sabedoria salvífica. Não seria muito frutífero fazer uma descrição de cada partido, pois mergulharemos em espesculações. No entanto, podemos perguntar-nos pela relação desses partidos com o assunto da sabedoria humana discutida por Paulo no mesmo bloco, e sobre o partido de “Cristo”, estranhamente colocado lado a lado com os de Paulo, Pedro e Apolo. Oscar Cullmann, no seu opúsculo, apresenta duas possibilidades. A primeira, sugere a leitura de Crispo em vez de Christos (1.12), colocado erradamente por um copista desatento. O partido carregaria o nome do convertido líder da sinagoga de Corinto (At 18,8), a respeito do qual Paulo diz ser um de seus batizados (1,14). A outra opção seria uma glossa. Um copista teria colocado nas margens, ao ler e indignar-se, a expressão “e eu de Cristo”. Mais tarde a observação acabou entrando no texto. Essa hipótese é corroborada com a não citação do grupo de Cristo em 3,4-6 e 3,22. Este último texto cita Paulo, Apolo e Cefas, faltando-lhe exatamente aquele que estaria ausente no original.
            Palo critica duramente essa divisão na comunidade, porque Cristo é um só (não está dividido), e foi exatamente ele, e mais ninguém, crucificado por amor a eles e no nome Dele aconteceu o batismo (v.13). Desta forma, Paulo mostra que estavam ligados ao mesmo Cristo, por isso não poderia haver divisões entre eles.
            Se o problema era o batismo, e Koester estiver certo, alguns se dividiam em espécies de grupos por batizadores, Paulo fala de si e diz não ter batizado muitos (Crispo, Gaio e a família de Estéfanas) (14-16). Por isso, ele conclui dizendo que foi chamado para pregar e não batizar (v.17). E mais, essa pregação, segundo o própria Paulo, não se utilizou de artifícios da sabedoria de palavras, como se a pregação da cruz precisasse de auxílio da retórica ou das argumentações filosóficas (v.17). Com essa versículo, Paulo entra no assunto da sabedoria humana, que seriam sistemas filosóficos de seu tempo, em contraste com o evangelho ou a loucura da cruz de Cristo. Essa sabedoria poderia ser um dos motivos das discórdias e divisões, e os vinculados a ela possuíam uma postura mais liberal como relação às práticas sociais e morais, que são por ele contrabalanceadas pelo amor e preocupação com a consciência dos demais.
            Em 1,18 – 2,5, como continuidade do que começara a falar no v. 17, como uma quase digressão em relação ao tema das divisões, Paulo contradiz a loucura da cruz com a sabedoria do mundo. Ele prioriza a sabedoria de Deus, ou seja, um conhecimento de Deus realizado não por sabedoria humana, ou sistemas filosóficos (L. Cerfaux), mas por um ato desprezível e aparentemente fraco: a crucificação  (1, 18-21). Paulo usa Is 29, 14 de maneira livre para mostrar que essa sabedoria humana foi destruída por Deus (v.19). Essa louca, a pregação de um Deus crucificado, é a maneira usada para salvação dos que creem (v.21). Esse projeto louco de Deus é mais sensato do que a suposta capacidade intelectual e das elocubrações filodóficas do tempo de Paulo, que talvez eram usadas ou bem quistas pela comunidade de Corinto (v.24-25). A  tal sabedoria tentava chegar ao conhecimento de Deus, mas como a Lei (e Paulo mostra isso em Gálatas) não conseguiu cumprir esse intento, ficando isso a cargo da pregação (v.21).
            Como diz L. Cerfaux, do mesmo modo que a justiça do judaísmo cede lugar à fé em Cristo, acompanhada da justiça de Deus, a sabedoria dos gregos é despojada de qualquer eficiência religiosa  e substituída pelo simples anúncio da mensagem cristã, isto é, de Cristo crucificado. Desta forma, a mensagem cristã toma o lugar abandonado e perdido pela filosofia. A sabedoria de Deus é escândalo para os judeus e loucura (morían) para o pagãos (1,23), mas é salvação para os que creem. Nos versos 26-31 Paulo mostra que na própria experiência da comunidade é possível perceber como Deus comumente escolhe coisas despresíveis ou sem importância para realizar seus projetosautoglorificação, pois a cruz destrói a arrogância, não permitindo a autossuficiência ou espaço para méritos (v.30-31).
            Após essa digressão, uma explicação sobre o evangelho da cruz, Paulo volta ao que disse em 1,17, ou seja, sua pregação não utiliza-se de artifícios da retórica ou prestígio da filosofia de seu tempo (2,1-5). Paulo não era contra o conhecimento filosófico, ou até mesmo a filosofia natural, presente em Sabedoria 13 e em Rm 1,18-22, mas ele despreza a eloquência ou a sabedoria, utilizadas para dar à palavra um vigor que, pelo contrário, no despojamento de qualquer eficiência humana manifesta todo o poder do Espírito (2,4-5). Paulo fala de uma dependência à própria força do Espírito, manifestada na pregação do Cristo crucificado (2,1). Ele usava vários aspectos da retórica grega, mas quem realmente tornava efetiva sua pregação era o Espírito.
            Essa sabedoria, talvez, tinha relação com a excessiva liberdade diante das questões sexuais (cap. 5) e com a consciência elitista no interior da comunidade. Gerd Theissen se pergunta pela relação dessa sabedoria, ou conhecimento, em Corinto com o Gnosticismo do sec. II. Nos textos dos Pais da Igreja como Justino, Irineu e Orígenes encontram-se críticas aos gnósticos valentinos e basilidianos que se achavam bem superiores a esse mundo e por isso não eram maculados em nada na essência. Como consequência, viviam uma sexualidade menos tolhida e participavam de cultos religiosos pagãos. Inclusive, os Pais Apostólicos os criticavam exatamente por comerem indiscriminadamente qualquer carne sacrificada. A sabedoria de Corinto não pode ser confundida com o gnosticismo do segundo século, que além da negação do corpo e da influência contaminadora do mundo, também falava de um chegar a Deus por meio do encontro consigo mesmo (Elaine Pagels). No entanto, é necessário admitir as nítidas relações ou ideias próximas. Gerd Theissen, fazendo uma relação entre o conhecimento em Corinto e o Gnosticismo posterior, diz: 

Uma conclusão em relação à gnose de Corinto é inteiramente permitida, pois essa conclusão não se baseia em concordâncias com concepções míticas abertas, mas nos quatro critérios acima mencionados: também nos gnósticos de Corinto encontramos uma determinada instrução, uma grande significação de conhecimento e sabedoria para ética e salvação, uma autoconsciência elitista intracomunitária, ligada com uma grande liberdade nas relações com o mundo pagão. Todas essas características apontam, aqui e lá, para um elevado status social.       
               
O exegeta alemão não conclui com isso que a sabedoria em Corinto e o Gnosticismo eram a mesma coisa, mas que as duas compartilhavam de ideias parecidas. Falar de um gnosticismo incipiente, mais desenvolvido no segundo século, pode servir para essa leitura de 1 Cor, mas não satisfaz totalmente.   
Paulo pregou a sabedoria de Deus, diferente da deste mundo, e dos archonton tou aiônos (arcontes/poderosos do mundo) (2,6). Aqui Paulo, como faz no texto de Gl 4, no qual fala dos stoicheîa (4,3.8), mostra a filosofia ou a sabedoria deste mundo sendo utilizada por seres celestes. Mas esse instrumento estava fadado ao fracasso.  
            Essa sabedoria de Deus, que estava guardada e se revelou em Cristo, é descortinada pelo Espírito, não um espírito que vem do mundo – aqui relacionado com as proposições filosóficas do seu tempo – pois Ele é que conhece as profundas intenções de Deus (2,10-12). Para mostrar esse profundo conhecimento do Espírito, Paulo cita livremente Is 43,13 (2,16). E, por isso, para falar sobre essas coisas só é possível por intermédio do mesmo Espírito (2,13).
            Paulo acaba seu discurso sobre o que não é a sabedoria de Deus, e mostra como eram imaturos os supostamente sábios, ou os que utilizavam do mundo filosófico. Eles os chama de carnais, porque vivem em divisões (3,1-4). Paulo responde a isso deixando claro que tanto ele como Apolo, ou qualquer outro, são simplesmente trabalhadores (metáforas do plantar e regar; cooperadores e lavouras; construção).
Nessa construção, Cristo é o fundamento único (3,11). Por isso não havia razões para essas divisões causadas pela sabedoria humana. Pelo contrário, a de Deus gerava comunhão e unidade em Cristo. Ele identifica Cristo como fundamento, mas apresenta a participação da liderança. Isso fica claro porque o texto está falando dos que trabalham a partir desse  fundamento. Os que constroem a partir dessa base, com seus ensinamentos, encaixar-se-ão em cada nível (ouro, prata, pedras preciosas ou madeira, feno e palha). E em uma linguagem apocalíptica, ele fala do dia do Senhor quando forem testados os tipos de construção feitos a partir de Cristo (3,13-14). Na comunidade de Corinto os mestres poderiam permitir coisas ou deturpar o evangelho, mas as consequências desses ensinos revelariam o nível da construção e as obras de cada um dos mestres (3,13). Por ser a comunidade formada por aqueles que são templos de Deus, quem os induzir a destruição, segundo Paulo, será destruído (3,16). Em uma leitura mais acurada, a luz da discussão da perícope, o autor não está fazendo uma advertência aos crentes individualmente, mas aos líderes que edificam a comunidade com seus ensinos e ideias. Dependendo dessa edificação os crentes poderiam se perder, e destruir o templo de Deus.
            Assim, ele em 3, 18-22 mostra como essas divisões são idiotas. Primeiro, como já disse, essa sabedoria ou filosofia que dividia os irmãos de Corinto é loucura, porque para Deus é loucura. Em vez de sábios são loucos, pois valorizavam aquilo que para Deus não tinha valor. Para confirmar essa negativização de Deus, ele cita dois textos que desqualificam os intentos e sabedoria dos homens (Jr 5,12-13 [1 Co 3,19]); Sl 94,11 [1 Co 3,20]). E mais, colocar sua glória, ou seja, sua confiança de possuir valor em figuras humanas como Paulo, Pedro ou Apolo é estupidez, pois tudo, sejam esses ou qualquer outra coisa (mundo, vida, morte, presente etc), no fundo são de Deus, porque eles são de Cristo e Cristo é de Deus (3,21-22). E mais, Paulo pede para tratarem-no, e implicitamente os outros nomes nos quais se dividiam a comunidade, como hupératas (4,1). Esse era o nome para o remador de menor grau numa embarcação. Paulo utiliza-o, talvez, levando em consideração as questões semânticas. Independentemente dessa particularidade do termo, Paulo  usa-o para mostrar a si e aos outros como simples servos e ministros dos mistérios de Deus, a saber, o evangelho da cruz defendido nesse bloco (4,1-2). E quem fará o julgamento final é o próprio Senhor, caso ele esteja errado (4,4-5).     
               Paulo havia usado essas imagens até aqui (agricultura, navegação) para tratar da questão da divisão na comunidade (4,6), pois cada um recebeu o que tem e por isso não há motivos para divisões e arrogância, demonstrada em ideias como “já estou saciado”, “estou rico”, “reinamos” (4,8). Aqui Paulo parece criticar uma das ideias desses grupos, uma espécie de escatologia realizada, a qual defendia uma vivência atual da eternidade. Os possuidores dessas ideias se colocavam como sábios e fortes, mas Paulo os contradizia descortinando a sua verdadeira condição (4,9-13). Isso eliminaria qualquer acusação de orgulho contra ele.
            No fim desse grande argumento, Paulo mostra sua preocupação como de um pai, pois ele quem os gerou – uma metáfora para o fato de levá-lo a Cristo (4,14-20). Por isso enviou a Timóteo, tratado também como filho amado, para lembrar-lhes dos seus caminhos (hodós). Timóteo seria um intercessor ou representante de Paulo na comunidade, para ajudá-la na compreensão dos ensinos e práticas ensinadas por Paulo. Paulo pensa em voltar a Corinto, mesmo que alguns não quisessem. Por isso pergunta ironicamente o que preferiam: que fosse com amor ou com vara (4,20).
            Dessa forma, Paulo termina o primeiro bloco das discussões, criticando as divisões causadas por grupos com perspectivas diferentes, fruto da sabedoria humana (referência a um ou alguns sistemas filosóficos gregos, talvez um proto-gnosticismo ou gnosticismo incipiente). Como link, Paulo mostra a sabedoria de Deus manifestada na cruz, que talvez pareça loucura, mas era exatamente o contrário, eliminava a necessidade desses grupos, pois desvalorizava qualquer elucubração filosófica. Cristo como meio de conhecimento de Deus e salvação dizia um “não” a qualquer outro sistema filosófico que arrogasse autossuficiência. E essa mensagem teria sua força no Espírito e não na retórica grega, tanto na forma como no conteúdo. 
            Talvez, como disse acima, essa sabedoria ou sistema filosófico dava margens para uma moralidade sexual e relações mais liberais com as práticas religiosas pagãs. Sobre a primeira, ele trata logo no segundo bloco, sobre o qual falaremos em outro post.             

sábado, 17 de setembro de 2011

1 Coríntios: pré-escrito e saudação (1, 1-9)


Depois de alguns dias sem postagens, continuo aqui a exposição à carta escrita por Paulo às comunidades cristãs em Corinto. Espero postar com mais frequência de agora em diante. Então, comecemos...        

Como é comum nas cartas da antiguidade, Paulo inicia identificando os remetentes (1.1). Este “irmão” não se sabe ao certo quem é. Em At 18, 12-17 aparece o nome Sosthénen como chefe da sinagoga em Corinto no tumultuado julgamento paulino naquela região, mas não sabemos e estamos falando da mesma pessoa. Se for o mesmo, Sóstenes se convertera e estava em Éfeso na ocasião da escrita da Carta. 

Como em Gálatas, Paulo começa defendendo seu apostolado: “Paulo chamado apóstolo de Cristo Jesus, por meio da vontade de Deus”. Esse início aparentemente mecânico e inofensivo serve como uma inicial afirmação de sua autoridade. 

O apóstolo descreve os destinatários de sua missiva como a “igreja de Deus”, que faz parte daqueles santificados em Cristo, ou seja, os separados para viverem a santificação na carta, essa santificação é discutida. A santidade está ligada ao invocar o nome do senhor Jesus, uma identificação coletiva com todos crentes em Cristo . Aqui os destinatários são os coríntios, mas colocados entre todos os demais do tempo de Paulo, que possuíam a mesma fé, dando ao seu argumento um caráter ecumênico e deixando claro aos destinatários que eles faziam parte de um grupo maior. Talvez, dessa forma, estivesse iniciando sua crítica a qualquer arrogância por parte dos espirituosos ou fortes dentro da comunidade (1,2).

Da saudação ele passa para "ação de graças" (1,4-9), como fez em outras cartas. Paulo dá graças a Deus pela graça (cháris) que receberam em Cristo, alegrando-se pela rica presença dos dons e conhecimento na comunidade (4-7). No entanto, como ele mesmo ouviu falar, o que era muito bom tornou-se em instrumento para problemas. Não lhes faltava nenhum dos dons (1,7), mas sim a capacidade de preservá-los e vivê-los em comunhão, para o benefício de todos. Precisamos entender que “ riqueza”, no verso 5, deve ser vista em termos de carisma e não econômica, porque entre eles não haviam muitos poderosos e nem de famílias nobres (1,26).

Ele termina essa saudação confiante de uma confirmação do bom procedimento dos irmãos em Corinto, como se acreditasse em uma futura e certa mudança em relação aos problemas detectados ( v.8), porque o Deus que os chamou é fiel! (v.9).

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Exposição da carta de 1 Coríntios: Introdução (II)



Como prometi, apresento aqui os últimos dois tópicos introdutórios para a leitura de 1 Cor: características da comunidade cristã de Corinto e a divisão do texto para exposição.

Características da Comunidade Cristã em Corinto

A carta que chamamos de 1 Coríntios foi escrita para uma comunidade cristã com membros oriundos do paganismo e do judaísmo. É uma obra com características pastorais, mesmo tendo pinceladas teológicas ou teóricas. Na ocasião da composição da carta, Paulo estava em Éfeso (1 Cor 16,5-7), em sua terceira viagem missionária. Ele escreveu a carta depois que fora informado, por meio da família de Cloé, sobre algumas disputas na comunidade (1 Cor 1,11) e após receber uma carta que continha dúvidas dos cristãos daquela região (7,1). Ele está lidando com problemas, dúvidas e posições surgidas dentro da própria comunidade.

O apóstolo está militando em várias frentes de discussões, mas essas estão relacionadas a ações e ideias de grupos mais liberais, ou fortes, dos quais cita seu lema por duas vezes (“sou livre para fazer o que quiser” - 1Cor 6,12 e 10,23), que refletia em algumas práticas sexuais no mínimo irresponsáveis (1Cor 5, 1-6, 12-20), pois acabavam ofendendo os mais fracos. Segundo Koester, “Algumas pessoas em Corinto estavam convencidas de que possuíam a sabedoria salvífica divina, intermediada por meio de certos apóstolos que as haviam iniciado pelo batismo, ou recebida sob a autoridade de Cristo”. Essa perspectiva desembocava em uma espécie de escatologia realizada, que negava a expectativa da ressurreição no tempo do retorno de Cristo (15,1-58), porque já era vivida, na perspectiva de alguns da comunidade, pela presença dos carismas (12-14). Vielhauer chama os defensores dessa posição na comunidade de pneumáticos entusiastas. Possuidores dessa sabedoria e experiências espirituais, esse grupo acreditava viver a vida eterna no presente (4,8). Desta forma, por viverem já essa experiência de eternidade presente, nada das relações do mundo poderiam comprometê-los. Interessante que na mesma comunidade, onde havia um grupo de liberais em relação à sexualidade, encontramos outro grupo defensor da abstinência sexual e do celibato.

Paulo fala de diversos assuntos – casamento, virgindade, comidas de reuniões pagãs, ressurreição – que dividiam os crentes da comunidade. Talvez, aqueles que diziam ser de Paulo, Pedro, Apolo ou de Cristo, divergissem nas questões levantadas pela comunidade, as quais o apóstolo responde.

Divisão da Carta

Por Paulo tratar de vários assuntos e fazer algumas digressões em determinados momentos da argumentação, a divisão da epistola torna-se um pouco problemática, gerando algumas controvérsias entre os exegetas. Aqui dividiremos a carta em capítulos maiores, com respectivos subtópicos: (I) introdução, com um pré-escrito e saudação (1,1-9); (II) Paulo trata das divisões e dos posicionamentos filosóficos (sabedoria) dos partidos em corinto. Este é o momento quando ele expõe uma teologia da cruz (1,10-4,21); (III) Paulo fala de algumas questões morais dentro da comunidade e como resolvê-las – nesta parte os capítulos 5 e 6 ficarão juntos porque mesmo tratando de situações diferentes são similares em essência, a saber, a maneira de resolver litígios e práticas reprováveis (5, 1- 6,20); (IV) Paulo responde às perguntas levadas pela comunidade. Essa unidade é estruturada pela locução prepositiva grega perí dé [porém, a respeito de] (7,1; 8,1; 12,1) que traça uma linha de contato para os capítulos desse bloco, no qual Paulo responde às perguntas relacionadas ao casamento e virgindade (7,1-40); comensalidade e liberdade (8,1-11,1) e problemas de práticas litúrgicas (11,2-14,40). Dentro desses assuntos, podemos fazer subdivisões, como, por exemplo, este pode ser subdivide em 11,2-16 (sobre a postura das mulheres e dos homens na assembleia), 11,17-34 (problemas nas refeições comunitárias e Ceia) e 12,1-14,40 (sobre os dons na igreja e sua prática nos cultos); (V) Neste ponto, o apostolo trata da ressurreição (15, 1-58); (VI) conclusão da carta (16,1-24).

Temos então a seguinte estruturação para leitura da carta:

I. INTRODUÇÃO (1,1-9)

1. Pré-escrito (1,1-3)
2. Saudação (1, 4-9)

II. DESAVENÇA ENTRE PARTIDOS (1,10-4,21)

III. PROBLEMAS MORAIS E MATURIDADE NO JULGAMENTO (5,1-6,20)

1. Incesto, Práticas Libertinas e Punição (5,1-13)
2. Maturidade nas Resoluções de Litígios entre Irmãos (6,1-6)
3. Outras Práticas Imorais (6,7-20)

IV. RESPOSTAS PAULINAS ÀS DÚVIDAS DA COMUNIDADE (7,1-14,40)

1. Casamento, Divórcio e Virgindade (7, 1-40)
2. Ingestão de Carne Sacrificada (8,1-11,1)
    2.1. O amor e sacrifício como limitadores da liberdade (8,1-9,27)
    2.2. Discurso teológico sobre a questão (10,1-11,1).

3. Problemas de Práticas Litúrgicas (11,2-14,40)
    3.1. A aparência das mulheres e dos homens no culto (11,2-16)
    3.2. Problemas nas refeições comunitárias e Ceia do Senhor (11,17-34)
    3.3. Sobre os dons do Espírito (12,1-14,40)

V. SOBRE A RESSURREIÇÃO (15,1-58)

1. Introdução fundamental ( 15,1-11)
2. Realidade da ressurreição dos mortos (15,12-34)
3. Como ressuscitarão os mortos (15,35-58)

VI. CONCLUSÃO DA CARTA (16,1-24)


A partir dessa divisão em blocos, faremos a exposição sincronicamente, como está preservado em sua forma final, do conteúdo da primeira (mas na verdade é a segunda, cf. 1 5,9) carta escrita por Paulo às igrejas estabelecidas em Corinto.



segunda-feira, 20 de junho de 2011

Exposição da carta de 1 Coríntios: Introdução (I)



Como prometido, inicio aqui a exposição da carta escrita por Paulo aos crentes que viviam na Cidade grega de Corinto (1 Cor).  Para facilitar a leitura dividirei os posts  da introdução em três partes: questões sócio-culturais, características da comunidade e divisão da obra. Comecemos, então, pelas questões sócio-culturais.  

Questões sócio-culturais da cidade de Corinto


A primeira carta às igrejas na cidade de Corinto (1 Cor), na verdade é a segunda correspondência àquela comunidade, como informa Paulo em 1 Cor 5, 9 – alguns sustentam que ela está parcialmente preservada em 2 Cor 6,14 - 7, 1, mas isso não é possível ser afirmado com certeza.

As informações históricas, econômicas, sociais e culturais a respeito da cidade de Corinto são importantes para esclarecimento de alguns textos dessa carta. Historicamente nós podemos falar em duas cidades de Corinto. Uma grega, destruída em 146 a.C e outra romana, reerguida por ordem de César em 44 d.C. Segundo Sanders (Urban Religion in Rome Corinth, 2005) depois daquela derrocada de 146 a.C “Corinto não era mais uma entidade política, mas uma cidade fantasma, ocupada por uma pequena população não coríntia, engajada no cultivo da terra agrícola”. As tradições religiosas anteriores àquele período não sobreviveram. Por isso, a informação da existência de templos dedicados à deusa do amor, Afrodite, nos quais havia mais de mil prostitutas sagradas, como narra Estrabão, deve ser localizada antes dessa destruição. Na Corinto romana do tempo de Paulo não havia mais do que dois templos àquela deusa.

Quando era ainda uma cidade grega, Aristophanes (450-385 a.C) cunhou a expressão korinthiazein “agir como um de Corinto”, i.e., “cometer fornicação” ou “viver como um libertino”. Talvez esse caráter moral ainda estivesse presente na cidade de Corinto nos tempos de Paulo, porque em cem anos, por causa de sua próspera economia baseada no comércio (por sua localização geográfica privilegiada na parte sul do istmo de Corinto: ligava dois mares e duas regiões da Grécia) e da indústria (um grande volume de mercadores passava por essa cidade), já era uma grande metrópole da Antiguidade. Como é comum em grandes cidades, e muito mais ela que recebia pessoas de várias regiões do Mundo Antigo, vício e religião, como diz Anderson Dias, floresciam lado a lado. Essa plural diversidade populacional, instrumento para presença de várias formas culturais num mesmo nicho social, fez-se possível pelos muitos migrantes, muitos deles pobres, que lá se instaram para morar. Inclusive judeus, pois foram achados restos de sinagogas naquela região.

Deste a sua reconstrução, foi planejado o restabelecimento de celebrações religiosas e sacrifícios e os preços a serem pagos por eles. Além do culto ao Imperador, como era comum nas colônias romanas, prestavam-se cultos às divindades Afrodite, Asclépio, Apolo e Poseidôn. Havia também altares e templos dedicados à Atenas, Hera e Hermes que eram ladeados por santuários erigidos às divindades egípcias, Ísis e Serápis. A experiência religiosa em Corinto era tão diversa quanto sua população, com visíveis retoques sincréticos e circularidade cultural.

Os pesquisadores advertem que o progresso econômico, como é comum, não era sentido por todos. Uma pequena porção da sociedade conseguiu fazer fortuna e adquirir uma condição social superior à grande maioria da massa do povo, que era composta por uma multidão de escravos e artesãos pobres ou empobrecidos, vivendo no nível de subsistência, que trabalhavam para o enriquecimento da classe abastada (como era comum em todo Império). Até mesmo os libertos, mesmo acima dos escravos, eram alvos de preconceitos e viviam muitas vezes como clientes do antigo patrão. É provável que a maioria dos membros das comunidades cristãs fosse pobre, muitos eram escravos, como percebemos pelo discurso de Paulo (1 Cor 1,26; 7,17-24).

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Vídeo das Famílias Desalojadas

Novamente vou protelar as postagens sobre 1Co para divulgar um vídeo com algumas informações sobre a desocupação no bairro Barra do Riacho. 

No dia 18/05, o BME em ação truculenta contra cidadãos desarmados, desalojou 300 famílias, cerca de 1600 pessoas, entre elas idosas, crianças e mulheres. Depois de a imprensa local colocar a sociedade contra os líderes da resistência, Kenner Terra, Gleison Pessoa, Christian Sulivam, da REJU-ES, foram ouvir da comunidade, por intermédio do presidente da ONG Amigos da Barra do Riacho, Valdinei Tavares, que organiza as ações dos desabrigados, sobre algumas das falácias dos jornais capixabas e as atuais condições das famílias que estão alojadas precariamente em uma quadra poliesportiva.  
 

 Veja vídeo: Video do lider da ONG Amigos da Barra do Riacho

sexta-feira, 6 de maio de 2011

“Terrorismo” contra os Estados Unidos da America. “A culpa é de quem? Quem...”



Antes de começar com a exposição de 1 Co, deixem-me tecer em algumas linhas minhas intuições sobre essa interminável questão do terrorismo e da briga EUA e Bin Laden.


Há alguns (poucos) anos, na minha adolescência, gostava muito de um grupo de rock que despontava no cenário da música brasileira. Em uma de suas canções, o vocalista, repetidamente, perguntava: “A culpa é de quem? Quem, a culpa é de quem?”; e repetia em toda a canção: “quem, a culpa é de quem?”.

O mundo todo acompanha nesses dias o fim da saga “Bin Laden x EUA”, que terminou seu primeiro capítulo da série – a história não vai parar por aí – com a imagem do presidente americano de pé diante dos microfones e câmeras: “Osama Bin Laden is dead”. Esse pronunciamento foi esperado desde o episódio de 11 de setembro – data tão repetida e anunciada que antes nos esquecemos do aniversário da nossa mãe do que da derrubada das “torres gêmeas” do World Trade Center, em Nova York, símbolo da ostentação capitalista!

Tudo bem, qual quer um seria um insano se não se revoltasse com aquela catástrofe. Não senhores, eu não acho que aquele ato foi louvável, ou até mesmo tento buscar legitimação no discurso anti-imperalista para aquela barbárie. Rechaço, critico e qualifico como desumano, demoníaco (no sentido que quiserem dar: teológico, psicológico, antropológico...) a morte daqueles inocentes. Quem fez aquilo, seja a Al Qaeda, com ou sem a ajuda de sorrateiros interesses (segundo o documentário Fahrenheit 11 de Setembro, de Michel Moore, algumas empresas ligadas ao império Bush lucraram com o atentado), deve receber as punições legais e de direito. A insatisfação, sem dúvida, é coletiva. No entanto, depois de tudo que li, a primeira coisa que me vem à mente é aquele refrão da musica da minha adolescência, “a culpa é de quem?”. Em um artigo do Leonardo Boff, disponibilizado pelo blog de Luiz Nassif, é citado o bispo Robert Bowman, um ex-piloto de caças militares durante a guerra do Vietnã, que disse o seguinte, na sua carta aberta ao Presidente: “Somos alvo de terroristas porque, em boa parte no mundo, nosso Governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos de terroristas porque nos odeiam. E nos odeiam porque nosso Governo faz coisas odiosas”.

Não precisamos ser historiadores treinados para sabermos que Washington  financiou, motivou, incentivou, bancou, e todos os “ou” que geram ações, muitos golpes militares e ditaduras, inclusive o nosso “golpe de 64”! Por causa dos interesses econômicos, e o Wikileaks está aí para provar, o Império Americano matou, torturou e aterrorizou países inteiros. Aquela guerra no Iraque foi uma vergonha! Até o mais conservador do mundo, tem de admitir que Bush, visto como ignorante pela crítica americana, conseguiu levar na lábia da retórica quase o mundo inteiro. O tempo todo ele, com aquela cara de pastel, dizia: “Terror”, “terror”, “guerra contra o terror”, “terror”, “terror”. Todos sabem, os EUA são a nação mais política e economicamente terrorista do mundo !

Quanto dinheiro não lucrou o Tio Sam com as guerras no Sudão, tudo por causa do maldito petróleo! E mais, os mesmos “homens da base” (Al Qaeda) estiveram lado a lado de Washington contra a União Soviética, no período da Guerra Fria, no Afeganistão. O mesmo Laden que eles agora mataram, foi amigo íntimo dos “democratas” americanos em outras décadas! E o que dizer das relações econômicas da família Laden e os Bushs? A primeira empresa de petróleo de George W. Bush, a Arbusto, foi financiada pela corporação do (ex?) líder do grupo da Al Qaeda.

Washington criou o terrorismo, o alimentou, deu bases para ao seu ódio, deu armas e treinamento. O hipócrita governo americano criou a Al Qaed no contexto da guerra fria! Usou-a, como tem usado, em toda a história, países e seus movimentos internos, para seus interesses globais. No fim, quem sai perdendo é sempre a população, que sofre entre os pólos de interesses, e nunca as grandes corporações que se alimentam das desgraças mundiais, como a Carlyle Group - que já reuniu em um mesma mesa de negócios Bushs e Ladens. Então, “A culpa é de quem... Quem, a culpa é de quem?”.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Exposição de 1 Coríntios


Como fiz com a carta aos Gálatas, farei uma série de exposições, perícope por perícope, da "primeira carta" escrita à  igreja de Corinto (1 Co). 

Na próxima postagem, apresentarei algumas questões introdutórias e uma proposta de divisão da carta. A partir daí, exporei o seu conteúdo. 

até a próxima postagem...  
 

quarta-feira, 27 de abril de 2011

É UM TRAPACEIRO! “Quem trapaceia, será trapaceado” ( Gn 26, 34 – 27, 46)



A perícope de Gn 27, segundo Westermann, é determinante para o ciclo de Jacó-Esaú (25-36). Essa parte é tratada pelo professor Milton Schwantes como um novo livro, um seper/sefer. É um texto longo e está envolvido numa rede complexa e compósita de narrativas, vazadas por diversos gêneros, tornado a sua leitura ainda mais difícil. A primeira vista, parece, como entenderam as escolas de Welhausenn e Gunkel (WESTERMANN, 1985: 50), ser um aglomerado de sagas, pois as emendas dos textos são facilmente identificadas (como 26, 34-35 e 27,46 em relação aos capítulos 26,27 e 28). Contudo, Westermann não concorda em aplicar esse conceito de "sagas" às histórias dos patriarcas por questões de estrutura e linguagem, e por acabar deixando de lado detalhes esclarecedores e minúcias do texto. Nesse sentido, as mesmas supostas emendas servem, na leitura que faremos, como indicadores do projeto redacional.

Adrien Janis Bledstein lê o capítulo 27 tendo como eixo a questão da trapaça (BLEDESTEIN, 2000: 308). Se ela estiver certa, o capítulo 26, que segundo Milton Schwantes está fora de lugar, teria muito sentido em estar onde está. Como se no jogo redacional, os eventos e as tradições ao mesmo tempo em que são reelaborados, também formassem um discurso no qual a trapaça acaba voltando-se contra o trapaceiro. Assim, no capítulo 26 Isaque é apresentado como “arquetrapaceiro” (BLEDESTEIN, 2000: 309), que engana para sua preservação e logo depois, no cap. 27, é enganado.

A proposta será a analise do movimento do texto e suas táticas redacionais, para perguntarmos por sua unidade e organização em camadas com o interesse de compreendermos seu conteúdo, com o objetivo de entendermos as estratégias expostas em Gn 27 dentro do ciclo de Jacó-Esaú.

Um Longo Texto!

A perícope começa em 26, 34, pois serve como uma espécie de introdução, ou melhor, uma amarra para retomar o assunto dos irmãos Jacó e Esaú, deixado de lado em 26, 1-33. O capítulo 25 termina com Esaú crescido, por isso no 26, 34 ele está com quarenta anos, servindo assim de “leve” retomada de interesse. O capítulo 25 antecipa a preferência dos pais em relação a cada filho, que se mostrará de forma prática no capítulo 27: Isaque prefere Esaú, enquato Rebeca a Jacó (25,28).

Sua narrativa é coesa e cheia de detalhes importantes que não podem passar despercebidos, pois denunciam o seu gênero e sua lógica narrativa. O grande bloco termina nos versos 44- 45, nos quais Rebeca manda Jacó fugir para Harã, até que o chame novamente (v. 45). O verso 46 aparece a insatisfação de Rebeca, aparentemente uma emenda para o capítulo 28, no qual Isaque envia Jacó para Padã-Harã. O interessante é que no capítulo anterior quem recomenda sua ida é a própria Rebeca e não Isaque.

A primeira emenda, além de servir como ponte para o capítulo 27, também serve para condenar a ação de Esaú. Na outra emenda, o conteúdo da acusação feita a Esaú é motivo de insatisfação para Rebeca. Desta forma, 26,34-35 e 27,46 são eixos de perícopes. Contudo, esses eixos não são ingênuos, pois tentam denegrir a imagem de Esaú, pois se lermos o capítulo 27, por exemplo, não conseguiremos acusar Esaú de nada.

O texto tem uma essência dual (WESTERMANN, 1985:435): Isaque – Esaú, Rebeca – Jacó, Jacó – Isaque, Esaú – Isaque e Rebeca – Isaque. Mostrando certa ordem esquemática que serve para apresentar o enredo da história. O básico da narrativa é bem parecido com Gn 48, 8-16: uma ação de abençoar culmina no pronunciamento que determina o todo de cada episódio individual (WESTERMANN, 1985: 436).

O texto pode ser dividido em três grandes blocos, cercados por 26, 34-35 e 27,46. No primeiro (1-29), Isaque demonstra seu desejo de abençoar seu primogênito, mas uma manobra muda o curso da história. O mesmo bloco se subdivide em duas seções: 1-17 e 18-29. A primeira seria a preparação para benção e a manobra de Rebeca e Jacó. A segunda seria a execução da manobra, que culmina na benção dada a Jacó.

No segundo grande bloco temos os versos 30-40, que inicia com a saída de sena de Jacó, para a volta de Esaú (v. 30). A cena é muito rápida, parece que os dois estão prestes a se encontrar, mas isso não acontece. Esaú tem um dramático diálogo com Isaque. Neste bloco, podemos perceber a subdivisão: 27, 30-36a: Esaú percebe que é enganado e denuncia Jacó; 27, 36b-40: Esaú também requer de Isaque uma benção, culminando na sua benção.

No terceiro bloco estão os versos 41-45, os quais começam com a nutrição de ódio de Esaú por Jacó. Rebeca ouve e recomenda a fuga de Jacó. Esta última parte serve como conclusão da narrativa. Contudo, ela é reaberta com o verso 46 – voltando para o problema de 26,34-35 –, para fechar a história anterior e abrir a outra. Jacó foge ao ouvir a recomendação de sua mãe? Temos uma conclusão aberta. O verso 46 é ligado ao capítulo 28, dando-nos a resposta: Sim, mas não por causa do ódio de Esaú, mas por razão dos casamentos mistos.

O esquema é o seguinte:

[26,34-35] – eixo A

27, 1-29 – O desejo de abençoar Esaú.
    1-17 (preparação para benção)
    18-29 (manobra e benção a Jacó)

27, 30-40 – A benção de Esaú.
     30 -36b (denúncia do golpe)
     36c – 40 (benção de Esaú)

27, 41-45 – Fuga de Jacó (conclusão da história).
      41- 42 (aviso de Rebeca)
      43-45 (recomendação para fuga).

[27,46] – eixo A’

Zombação Feminina?

Como citei acima, os textos de Gêneses, como entende Westermann, não são simplesmente aglomerados de sagas. Até mesmo o conceito de saga é algo muito complicado para se utilizar na Bíblia Hebraica. O mesmo autor acha ser o texto uma típica narrativa de família. Contudo, Adrien Janis Bledstein chama essa narrativa de “conto de trapaceiro” (BLEDESTEIN, 1985: 309). Eu, talvez, retiraria a expressão conto, pois geraria outros problemas, para deixar simplesmente “narrativa de trapaceiro” . Esse tipo de gênero literário seria comum no Oriente próximo (Mesopotâmia, Egito etc.), no qual deuses e deusas usam a trapaças para alcançar seus objetivos. Por exemplo, no episódio de Horus e Set a trapaça determinou quem seria o rei dos deuses egípcios. A diferença é que nas narrativas hebraicas os próprios homens seriam os trapaceiros.

Desta forma, o texto possui uma tradição antiga, mas que foi reelaborada posteriormente para manchar a imagem de Esaú. Se Adrien Janis Bledstein estiver certa, sua origem é muito interessante, pois seria de tradição feminina; não que mulheres sejam autoras, como bem explicou Goitein, mas criadoras de gêneros, posteriormente reelaborados. Bledstein acredita que existam temas e estilos que mostram tradições femininas (por mulheres contadoras de história): mulheres são valorizadas e mostra-se o poder vulnerável do homem. Segundo S. D. Goitein, uma característica da história de mulher é ter repetições dupla e tripla, como ele encontrou em tradições iemitas [1]. Ele ainda diz que a mulher iemita , a despeito de sua posição social baixa e limitada, expressava, em sua poesia, a opinião pública sobre os eventos do dia a dia. E essas poesias são críticas humorísticas com teor de zombaria. Bledstein chega a falar da presença de produção feminina nos cap. 24-28 (não sei se isso pode ser afirmado, mas seus pressupostos metodológicos podem nos ajudar). O Interessante está no fato de Gunkel, já em 1910, ao comentar os discursos repetitivos de Gêneses 37-50 caracterizou-os como “efeminados” ou “sentimentais” (BLEDESTEIN, 1985: 319). Como vemos, como Westermann mesmo percebe, Raquel tem papel fundamental na narrativa. É ela quem muda a história. Pensando dessa forma, o capítulo 26 se encaixaria bem com a mensagem de que “os supostos espertos nem sempre se dão bem” ou “quem trapaceia será trapaceado”.

Neste estágio antigo da tradição de Gn 27 seria uma crítica sarcástica, zombeteira, de mulheres aos homens que controlavam o poder.

Assim, podemos concluir que a redação do texto é bem recente pela ferrenha crítica a Esaú, pois se tirarmos os eixos, nada temos contra ele. Por isso, percebemos uma tradição com conteúdo antigo, mas que foi reelaborado na sua redação no século VII ou VI a.C, na época da contenda entre Israel e Edom.

Uma História de Tirar o Fôlego

Não será possível o aprofundamento do conteúdo. Contudo, algumas ponderações podem ser feitas, e em especial o problema do verso 39, especificamente, sobre a tradução da preposição min que determinará o teor da benção dada a Esaú.

Nos versos 1 até o 17 do capítulo 27, Isaque preocupa-se em abençoar seu primogênito antes de sua morte, pois já estava velho. O texto faz questão de apresentar seu estado de cegueira, pois fará toda a diferença no enredo da história.

O tema de benção é comum ao leitor dos textos judaicos (Gn 48-49). O pseudepígrafo Testamento dos XII Patriarcas está dentro desse topos literário. Junto com a benção está a comida, fruto da caça de Esaú (27, 2-4), algo que já fora dito em 25, 28: "Isaque prefere Esaú porque ele é caçador e gostava muito de caça". Antes de sair ao campo, Rebeca ouve a conversa e arruma uma manobra para Jacó precipitar seu irmão. Desta forma, a imagem de 25, 28 realiza-se nas escolhas do pai e da mãe.

Segundo Gn 25, 22-23, Deus fala com Rebeca, e não com Isque, que o mais velho serviria o mais novo (v.23). Neste sentido, o texto mostra que Raquel ajudou a realização do projeto de Javé. Assim, se esse texto faz parte das tradições femininas, ela é vista não como uma interruptora insensata da história, mas como instrumento para o curso histórico dos designos de Javé. É possível que antes da sua redação, o texto fosse contado ou cantado por mulheres.

Ao ser conduzido por sua mãe, Isaque chega até seu pai. A questão aqui é bem interessante: Isaque sabia ou não quem era Jacó? Por quatro vezes ele questiona a identidade de seu interlocutor (vv. 19, 20, 21, 22, 24) e no verso 23 temos um comentário de que ele não reconheceu que era Jacó. O verbo hikiro pode ser “reconhecer”, como também “fazer caso”. Em Juizes 18,3 hikiro é reconhecer, pois o texto fala em “reconhecer sotaque” (2 Sm 3,36 e Jó 24, 13 também têm a mesma idéia). Podemos, então, crer que realmente o texto fala que Isaque foi enganado, ou melhor, trapaceado, por seu filho mais novo. O engano culmina na benção a Jacó, o centro da narrativa. A fertilidade da terra, ou seja, trigo e vinho em abundância a servidão dos povos e de seus irmãos são direcionados a ele. A benção culmina em “bendito quem te abençoar e maldito quem te amaldiçoar”, que aparece em Gn 12,3 e Nm 23, 9. Segundo Westermann, a benção está em forma poética e é compósita, pois não era longa como está fixada no texto. A parte mais recente é marcada por submissão de nações e povos e de seus irmãos, mostrando um contexto de conflito e luta.

Ao voltar da caçada, Esaú percebeu que foi enganado por duas vezes (v.36). Isaque repete a benção, mas em ordem diferente (autoridade – fertilidade da terra). Se for progressiva a formulação do discurso de benção para Jacó (27,27-29), a menção de submissão é posterior, pois ela é repetida no começo, como se fosse algo importante a se dizer no momento. Isso, talvez, por ser uma intenção redacional de denegrir os edomitas.

Esaú insiste por três vezes para que Isaque o abençoe (v.34, 36, 38). Em desespero e choro Esaú  questiona se somente havia uma benção para transmitir (v.38). Vemos a repetição como ponto central da estrutura dessa narrativa.

É neste momento que temos certo problema. Qual é o teor da benção de Isaque para Esaú? Isso dependerá da tradução da preposição min, que antecede a palavra shemane (fertilidade). A preposição pode ser traduzida como “fora” ou “por razão”. Se traduzirmos como “fora”, então a ideia é bem degradante: “longe da terra será tua morada”. O mesmo artigo aparece na palavra do mesmo versículo 29 (hashamin), e seria então traduzido como “longe do orvalho”.

Segundo a LXX, a melhor tradução seria “por razão de”, ou “por origem” (inclusive no genitivo), no sentido de “junto de”, pois usa a preposição apó para traduzir min. Inclusive na benção dada a Jacó a mesma expressão parece ligada à fertilidade da terra, e a LXX utiliza a mesma tradução para preposição min (apó)! Segundo a LXX a tradução ficaria diferente: “Vê! Junto à terra farta estará tua morada, e junto o orvalho do céu”. Nesta perspectiva a tradução da preposição min seria melhor “pelo” ou “por razão” porque não afasta Esaú da fertilidade.

Desta forma, o texto da Bíblia Hebraica seria mais bem traduzido assim: “Vê! Pela [por razão da] fertilidade a terra será tua morada, e pelo orvalho de cima”. Com essa perspectiva, o texto apresenta razões e conseqüência: “pela fertilidade” e “pelo orvalho”, a terra será a sua morada. Duas possibilidades de interpretação podem ser detectadas: 1) que a primeira benção dada a Esaú é igual em qualidade e estrutura a de Jacó, tendo a diferença na segunda parte da benção concernente a dominação. Será esse um indício de que a benção sobre fertilidade e orvalho seja mais antiga nessa narrativa, mostrando que os dois irmãos tiveram a mesma bênção? Desta forma, poderíamos reafirmar que o vaticínio presente na boca de Isaque da servidão dos povos, inclusive de Edom, é posterior, como percebemos nessa insistência? 2) outra proposta para entendermos isso, seria ver o teor da benção dada por Isaque como um resultado natural das condições climáticas e geográficas. Uma espécie de “abençoar sem abençoar”. Ao ser a terra fértil e o orvalho cair, Esaú terá sua morada.

Pelo que parece, o texto torna-se mais claro ao lermos os versos anteriores, nos quais Esaú reclama mais uma benção, chegando a perguntar se haveria no estoque de Jacó somente uma. O texto diz que Jacó o “atendeu” ou “respondeu” (uma pena não saber como usar aqui os caracteres hebraicos), no sentido de atender o que tinha sido pedido (v.39). Ou seja, Isaque atende a Esaú e abençoa como abençoou a Jacó (essa seria a leitura da LXX). E se pensarmos em uma progressão da tradição dessa benção, podemos afirmar que a outra parte da benção é posterior, porque tira a igualdade dos irmãos, que nesse momento representam povos.

O texto continua dizendo que Esaú começara a nutrir ódio por Isaque e desejou matá-lo. O ódio, a luz da leitura feita acima, seria por ter que ficar debaixo da servidão de Jacó, enquanto poderia ser o inverso. Por ter o final da benção (v.40) intenções redacionais o ódio de Esaú pode ser redacional e posterior, inclusive sua vontade de matar Jacó, mas isso não pode ser verificado aqui.

A ideia da fuga é, como foi a da manobra, uma iniciativa de Raquel, por mais que no capítulo 28 seja Isaque. Raquel é peça fundamental. Sem ela não haveria realização do projeto de abençoar o mais novo (que foi presságio de Javé) e da fuga para Harã, que marcou a história de Jacó [povo de Israel].

No eixo final, vemos novamente a presença de condenação a Esaú mostrando-o como causador das angustias de Raquel, pois se casara com mulheres estrangeiras (27,46). Esse verso é uma clara mudança de teor para denegrir o povo representado por Esaú.

Reflexões Finais

O texto tem uma história muito complexa. Sua redação dá novos contornos a tradições mais antigas, pelas quais Esaú é “demonizado”. Não somente isso, pensando à luz do seu gênero literário, podemos imaginar uma tradição feminina, que criticava sarcasticamente o poder patriarcal, mostrando suas fragilidades e seu caráter fraudulento. Outra coisa, a centralidade de Raquel como instrumento das realizações dos projetos de Javé mostra-se claramente no texto. Parece-me que posteriormente o texto acaba servindo de instrumento para legitimar separações e representar lutas de povos.




[1]Iêmen ou Yêmen é um país do sul da Península Arábica, resultante da fusão do Iêmen do Norte (república islâmica) e Iêmen do Sul (república socialista), em 1990. Banhado pelo Golfo de Áden e pelo Mar Vermelho, possui férteis planícies na costa com muitos cursos de água que favorecem a agricultura. Seu clima é árido tropical nas regiões norte e tropical próximo na costa. Sua população é formada basicamente por árabes iemitas e africanos, quase todos muçulmanos. A região foi chamada pelos romanos de “Arábia Feliz”, por causa de suas terras férteis, em contraste com o deserto que domina o restante da Península Arábica. Abrigou na Antiguidade diversos estados, dos quais o mais famoso é o Reino de Sabá,  mencionado no Antigo Testamento.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Revoltas no Mundo Árabe: Luta por Justiça ou Conspiração Muçulmana?



Desde Dezembro do ano passado, estamos acompanhando uma onda de manifestações contrárias aos longevos governos árabes. Alguns comentadores insistem ler os fenômenos como uma insurreição dos radicais islâmicos que desejam tomar esses países, aparentemente mais aberto às relações com o Ocidente, para instalarem um regime radical, e assim, logo depois, destruírem o seu arqui-inimigo, Israel. Interessante que Hosni Mubarak, ditador do Egito, afirmou quase a mesma coisa, exceto o presságio sobre Israel. Ele disse que os islamitas estavam por trás da revolução egípcia. O ditador da Tunísia e o rei Abdulá, da Jordânia, viam a presença disfarçada da Al Qaeda e da Irmandade Muçulmana por trás da insurreição que está incendiando o mundo árabe.

Essa perspectiva me parece no mínimo míope. Antes de qualquer coisa, não houve um programa para as ações, as coisas foram acontecendo como uma onda. E mais, cada foco de revolta tem sua agenda e suas reivindicações: os interesses e querelas dos manifestantes do Bahrein não são os mesmos dos motins no Iêmem ou Líbia, por exemplo. 

As revoltas começaram depois que Mohammad Bouazizi, tunísio de 26 anos, ateou fogo em seu próprio corpo. O moço estava desempregado e foi impedido pela polícia tunisiana de vender frutas nas ruas, único meio encontrado na ocasião para sustentar sua família. Isso chamou atenção e despertou uma população que vivia os mesmo altos índices de desemprego e autoritarismo. Poucos dias depois, o ditador da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali, cairia do poder. Esse levante serviu de inspiração para o povo no Egito, que conseguiu derrubar outro já caduco governo perpetuado por Hosni Mubarak, após 30 anos no poder. O mesmo espírito já incendiou a Líbia, do louco e personalista Muammar Gaddafi, no governo desde 1969. Como aconteceu nos outros países do norte da África, esse insano, que sempre favoreceu alguns poucos, em especial os da família, será precipitado do trono (e se possível enviado direto para um manicômio!). Da mesma forma, outros levantes surgem em cena no Oriente Médio, como em Iêmen, Bahrein, e no Irã, da figurinha conhecida por nós brasileiros, o “iluste” Ahmadinejad. 

As revoltas foram se instaurando como respostas instintivas ao desemprego, violência e má distribuição dos bens, e não para fazer das nações supostamente mais democráticas nas regiões árabes (como se sua “democráticidade” fosse medida pela maior ou menor amizade com E.U.A!) uma região livre para matar qualquer judeu ou cristão. Os economistas sempre nos alertaram que o mundo árabe tem passado por notável crescimento, mas isso não beneficia a maioria da população, mas simplesmente uma parcela formada pela elite e alas do governo. Por exemplo, no Egito dos 80 milhões de habitantes 40% vivem com menos de dois dólares por dia. Eis aí um indício das mais prováveis razões das manifestações!


O jovem Bouazizi ateou fogo no copo como último grito desesperado por justiça, liberdade e oportunidade. É exatamente esse grito que posso ouvir dos demais insatisfeitos. Acho que as conclusões oriundas das analises feitas à luz das condições sociais e econômicas do povo, e não das teorias conspiratórias, esclarecerem melhor situações históricas como essas. Como disse Robert Fisk, no The Independent, “Dá para pensar que só Irã, Al Qaeda e seus mais ferrenhos inimigos, os ditadores árabes anti-islâmicos, acreditam que a religião esteve por trás das rebeliões massivas dos manifestantes pró-democracia”. O articulista foi feliz na sua análise, pois percebeu que os indícios religiosos entre os clamores populares estavam a serviço de um desejo maior, o desejo de justiça. O desemprego, as más condições de vida, o favorecimento de poucos e os negativos índices reuniram e estão reunindo muçulmanos, cristãos, homens e mulheres para a derrocada de poderes opressores e desumanos no mundo árabe, isso sem a ajuda da Al Qaeda ou sob qualquer programa oculto de grupos radicais muçulmanos. Talvez, você cite as revoltas na Baherein e a maciça presença de xiitas entre os insurretos. Não esqueça que esses são a maioria e há muito são governados pela minoria sunita – aos olhos ocidentais mais abertos e menos radicais –, que usa da polícia política a fim de perseguir seus opositores e para manobras questionáveis, conseguindo se preservar como maioria no parlamento. E mesmo que haja uma clara intenção religiosa no Baherein, isso não representa a totalidade das intenções e desejos das demais insurreições nos outros países.

Posso terminar este post com uma parte da carta de Mohammad Bouazizi, escrita pouco antes de sua tragédia, direcionada para sua mãe: “Perdoe-me se não fiz como você disse e desobedeci suas ordens. Culpe a era em que vivemos, não me culpe". Destaquei a expressão "culpe a era em que vivemos" porque revela bem a razão das revoltas. O motivo das manifestações é exatamente a realidade de homens e mulheres que vivem debaixo do autoritarismo e da desigualdade. Sejam muçulmanos ou não, todos e todas devem ansiar e lutar por uma melhor “era em que vivem”, a mesma que foi culpada pela morte do jovem tunísio que para chamas entregou seu corpo. 

No entanto, caso estejam certos os tais conservadores que citei no início, e realmente por trás dessas manifestações haja outros opressores, que desejam uma ditadura muçulmana e liberdade para eliminar cristãos e judeus, esses serão também alvos das mesmas críticas e ações contrárias