quinta-feira, 7 de março de 2019

Reexperiência e a Hermenêutica Pentecostal




Desde Benjamin H. Irwin, C. Parham, Seymour e outros, a grande reivindicação pentecostal da leitura bíblica em geral e de Atos em especial se estabelece na reexperiência da experiência das primeiras comunidades cristãs. Entre esses e movimentos corolários, a ação do Espírito, visibilizada tanto pelo novo nascimento quanto pelos dons e sinais, é fenomenologicamente revivenciada na contemporaneidade. Com Parham, por exemplo, afirma-se a inter-relação estabelecida na tríade “experiência vivida antes do texto”, “experiência presente no texto” e a “experiência estabelecida e observada hoje nas comunidades pentecostais”. Howard M. Ervin, discutindo sobre a relação entre o saber sensorial e racionalista, afirma que “quando um leitor é confrontado pelo Espírito através da mesma experiência dos apóstolos, ele pode compreender melhor o testemunho apostólico”. Por isso, “esse fenômeno é a pneumática continuação entre os leitores de hoje e a fé apostólica comunicada na Bíblia” (“Hermeneutics: A Pentecostal Option”, in: Pneuma 3/2). Esse autor defende ser a experiência no Espírito o lugar de encontro entre passado e presente, histórico e vivencial.


Assim, os sinais, glossolalia, a pregação da realidade dos milagres etc. contrariaram a Modernidade racionalista e iluminista, porque criaram espaços discursivos para a reexperiência sobrenatural na comunidade, considerada igual à fundante, tornando o passado realidade presente. Conseguintemente, o Pentecostalismo apresentou-se como um grito contra o cessacionismo e criticismo, os quais são filhos do mesmo racionalismo moderno. Com isso, entendemos a afirmação de Margaret M. Poloma: “o Pentecostalismo é um antropológico protesto contra a Modernidade porque propõe uma mediação para o encontro com o sobrenatural”. Contudo, não é totalmente “pós-moderno”, pois preserva as metanarrativas de salvação, verificação dos milagres, usa o termo “evidência” (linguagem das ciências modernas) e preserva afirmações dogmáticas. No entanto, mesmo surgindo na Modernidade e sendo sua linguagem mais ou menos científica, o Pentecostalismo abre a porta para a irrupção sobrenatural diagnosticada na experiência/reexperiência dos carismas, os quais não se enquadravam (enquadram) no logocentrismo científico dos séculos em torno do seu surgimento. Essa é a razão de alguns autores qualificarem-no como “paramoderno” (K. Archer). Na questão hermenêutica, com sua perspectiva ahistórica (porque afirma ser suas experiências atuais as mesmas das comunidades cristãs antigas), os pentecostais fundem as imagens do texto e o presente, reconhecem-se na Bíblia, encontram a si mesmos nas narrativas e, naturalmente, reivindicam continuidade entre comunidades das origens e a fé vivenciada carismaticamente nas igrejas atuais. Em termos epistemológicos, isso rompeu com os pressupostos dos dois horizontes metodológicos do protestantismo dos sécs. XVII-XIX: cessacionista/fundamentalista e historicista/crítico


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